Para CEO da SINAI, Brasil está pronto para virar a mesa na questão da sustentabilidade

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Alain Rodriguez e Maria Fujihara, cofundadores da SINAI: plataforma faz cálculos de inventários de carbono e recomenda soluções para mitigar emissões

No final de outubro, a SINAI Technologies, startup responsável pelo desenvolvimento de uma plataforma de descarbonização, recebeu um financiamento seed de US$ 3,8 milhões liderado pela Afore Capital, com participação da Abstract Ventures, Coelius Capital e dos fundadores da Eventbrite e da PlanGrid.

À medida que o mundo acelera os esforços para evitar um provável desastre climático, a SINAI foi criada, em 2017, em São Francisco, pela brasileira Maria Fujihara para orientar e acelerar os esforços das corporações para descarbonizar e adotar as soluções de mitigação mais viáveis para atender às metas do Acordo de Paris 2020.

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A rodada de investimentos vai financiar a expansão da equipe nas áreas de vendas, marketing, engenharia e atendimento ao cliente, de maneira a aumentar a visibilidade e a presença da startup em todo o mundo.

Várias empresas, em diferentes países, estão oferecendo maneiras de medir a pegada de carbono, mas a SINAI garante ir além disso. “Desenvolvemos a primeira plataforma de software de descarbonização abrangente do planeta para ajudar empresas globais, as maiores emissoras do mundo, a medir, analisar preços e realmente reduzir as emissões, incluindo a definição das soluções mais econômicas”, diz Maria.

Atualmente, a plataforma de software da SINAI fornece cálculos de inventários de carbono, projeções, recomendações sobre como reduzir as emissões e quanto custarão as opções de mitigação, definição do preço do carbono, e alinhamento interno da empresa com políticas externas de nações em todo o mundo.

A empreendedora conta que assinou três grandes contratos com clientes desde que participou do programa Y Combinator no início de 2020. Um deles foi com a ArcelorMittal Brasil, a subsidiária brasileira da maior siderúrgica e mineradora do mundo. O outro foi com a BRK Ambiental, distribuidora privada de água, coleta e tratamento que atende a maior economia da América Latina. O mais recente acordo foi com a Siemens Brasil, subsidiária da alemã Siemens AG, maior empresa de manufatura industrial da Europa, que lidera o caminho para operações neutras em carbono até 2030.

Maria conversou com a Forbes sobre as dificuldades que as companhias enfrentam para adotar uma política de descarbonização eficiente, o nível de maturidade das empresas brasileiras frente ao resto do mundo e como é ser mulher no mundo da tecnologia. Veja, a seguir, os melhores momentos da entrevista:

Forbes: Quais são os principais desafios que as grandes corporações normalmente enfrentam ao tentar lidar com a necessidade de descarbonização e o que causa esses problemas?

Maria Fujihara: Os desafios podem variar de empresa para empresa, dependendo de seu tamanho, setor, nível de maturidade, em quantas regiões ao redor do mundo operam e quão longe estão para mitigar o impacto das mudanças climáticas.

Entre os mais comuns está o fato de que a maioria das empresas luta com a complexidade de calcular e analisar as emissões de carbono. Esse processo inclui coletar, calcular e reportar os dados para, em seguida, descobrir como tomar as melhores decisões para reduzir seu impacto com base no orçamento e na tecnologia disponíveis.

Devido à complexidade e ao grande tempo que isso leva, algumas empresas simplesmente não estão implementando essa prática, o que significa que também não estão levando em conta os riscos dessa má decisão na gestão. Entre os que estão tentando aderir, grande parte acha muito complicado em função da mistura de sistemas legados. Além disso, ainda estão focados em um conjunto muito restrito de riscos em comparação com o cenário geral.

Sem uma plataforma de descarbonização com recursos completos na nuvem que coleta e compartilha todos os dados em um só lugar, a maioria das empresas ainda usa planilhas, ferramentas colaborativas, e-mail e outros recursos de fluxo de trabalho – ou uma mistura de tudo isso.

Algumas empresas globais estão usando consultorias – e pagando muito por isso – para ajudar a responder a esse desafio, mas frequentemente recebem relatórios estáticos que já estão desatualizados quando chegam.

A plataforma da SINAI foi construída para que as grandes corporações – as maiores emissoras do mundo – possam medir, analisar, precificar e criar estratégias para reduzir suas emissões de forma rápida e fácil, fazendo com que elas sejam capazes de monitorar o progresso e relatá-lo aos investidores, agências reguladoras e público em geral de forma contínua. Nenhuma outra plataforma faz isso atualmente.

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F: Você acha que as grandes corporações estão suficientemente maduras em relação a essa agenda em países como o Brasil?

MF: Sim, com certeza. O Brasil é o país onde mais vimos tração na agenda de princípios sustentáveis. Muitas subsidiárias de empresas europeias estão no Brasil e, normalmente, seguem as regras e princípios da sede. Porém, o Brasil está ainda mais avançado em investimentos relacionados à inovação, software e startups. As empresas adoram coisas novas e estão dispostas a investir em soluções inovadoras para resolver seus problemas.

Embora os países europeus estejam mais avançados em sua agenda de sustentabilidade, eles ainda estão atrasados quando se trata de investir em inovação e software. Em contrapartida, os Estados Unidos ainda estão muito atrás nessa agenda, principalmente nos últimos quatro anos, embora invista em tecnologia e startups.

O Brasil – e a América Latina, em geral -, além da Ásia, são os lugares onde ambas as agendas se unem atualmente em larga escala por terem um programa de sustentabilidade em vigor e uma forte crença em softwares, tecnologia e aproveitamento de novas inovações para resolver os enormes desafios globais. Esses lugares vão virar a mesa no que diz respeito à criação de soluções inovadoras para o desenvolvimento sustentável muito em breve e ainda abrirão o caminho para outros.

F: A descarbonização pode parecer um pouco distante para pequenas empresas e startups. Por que essas empresas devem se preocupar e como podem endereçar esse problema?

MF: As pequenas e médias empresas têm um grande impacto em sua cadeia de valor em vez de nas suas operações diretas (uma vez que não possuem a maior parte dos ativos). As cadeias de suprimentos corporativas são responsáveis pela grande maioria dos processos de fabricação e ativos de transporte e logística em todo o mundo. Medir os impactos dessas duas fontes de emissões, por si só, tem consequências enormes na mudança climática, mesmo para pequenas e médias empresas que dependem dessas cadeias de suprimentos para operar e gerar receitas.

Tudo depende de quanto o negócio está se envolvendo com sua cadeia de valor e exigindo informações que contabilizem as emissões. Não é uma tarefa fácil porque requer que as pessoas colham as informações, além de padrões mais elevados para seus processos de aquisição. Pode ser caro para as SMBs investirem nisso desde o primeiro dia. Mas, à medida que as ferramentas para contabilização de emissões em todo o mundo evoluem e mais empresas, de todos os tamanhos, geram os dados necessários para compartilhar com seus fornecedores, e que o risco político, econômico e de reputação aumentam, especialmente no caso daquelas voltadas ao consumidor, as pequenas e médias terão que encontrar soluções fáceis de usar e de baixo custo para medir e reduzir seu impacto em todas as áreas, garantindo, assim, sua sobrevivência e prosperidade no futuro.

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F: Como você decidiu usar os conceitos e abordagens da tecnologia emergente para aproveitar sua experiência no setor de sustentabilidade e criar a SINAI?

MF: Tenho trabalhado profissionalmente no setor de sustentabilidade durante os últimos 14 anos. Meus pais são engenheiros florestais e já trabalham há muito tempo nessa área. Para ser honesta, nunca imaginei que o software fosse a solução para tantos processos repetitivos e que isso pudesse ser feito com um excelente design e experiência do cliente. Fiquei presa ao Microsoft Windows por muito tempo!

Em 2017, fui aceita no Global Solutions Program, na Singularity University, e isso mudou minha vida. Morei quatro meses e meio praticamente no Parque de Pesquisas da NASA, em Mountain View, na Califórnia, junto com 90 pessoas de todo o mundo, para discutir como usar a tecnologia para resolver as mudanças climáticas. Aquele programa me surpreendeu. Criei o conceito de negócio e fundei a SINAI em dezembro daquele mesmo ano, sabendo que tinha que fazer algo relacionado à software e responsabilidade sobre as emissões.

A ideia original evoluiu muito desde que comecei a empresa e continua a amadurecer à medida que temos mais interações com os clientes, mais pessoas se juntando à equipe e melhorias na nossa compreensão do mercado e da oportunidade diante de nós.

F: Você procurou um CTO com experiência em empresas como a Uber para ser cofundador. Como foi esse processo e quais critérios você utilizou para escolher essa pessoa?

MF: Foi uma das coisas mais difíceis que já fiz. Antes de Alain [Rodriguez] aparecer, tentei fazer parceria com muitos engenheiros incríveis, mas sempre havia algo que não estava certo. Todos eles são ótimas pessoas, mas não eram os profissionais certos para o papel. Ou o momento não era o ideal.

O processo deveria ser simples: depois de encontrar alguém com quem você goste de passar muito tempo – e essa pessoa seja realmente boa em desenvolvimento de software -, você terá que testá-la com base na experiência do mundo real. Se, depois de três meses, as coisas não estiverem voando e vocês dois não forem as pessoas mais felizes do planeta, então é hora de mudar e seguir em frente.

Embora não haja uma lista de critérios para escolher um cofundador, eu estava procurando por três características principais: um desenvolvedor de software de primeira linha com experiência em startups, alguém louco de amor pelo meio ambiente, pela natureza e pelo planeta e uma pessoa com um grande coração e grandes sonhos. Parece cafona, mas para uma parceria de longo prazo, é isso que importa.

F: Há alguma dificuldade comum que você observa nos ecossistemas de inovação brasileiro e global quando se trata de negócios inovadores liderados por mulheres? Você observou algum progresso em termos de suporte de investidores e clientes em potencial?

MF: Sim, há inúmeras dificuldades. Como uma mulher imigrante brasileira no Vale do Silício, enfrentei não apenas preconceitos objetivos, diretos e físicos (às vezes), mas principalmente preconceitos internos, subconscientes e subjetivos. Fico triste ao ver pessoas altamente capazes e inteligentes serem racistas ou preconceituosas porque simplesmente não estão cientes de seus pensamentos e comportamentos. Aposto que recebi mais “nãos” e encontrei piores condições do que muitos outros empreendedores do sexo masculino apenas por causa do meu gênero ou da minha aparência.

Mas acredito que isso torna os empreendimentos liderados por mulheres mais resistentes, mais estáveis e, em última análise, mais bem-sucedidos. Estou aqui para mudar esses preconceitos que vemos em todos os lugares e para criar um modelo para as futuras mulheres nos negócios, na tecnologia e na sustentabilidade.

Acho que estamos progredindo, mas só seremos capazes de ver mudanças reais nas próximas duas ou três gerações. Até então, muitas mulheres terão que se tornar modelos a seguir até que possamos mudar o status quo e, quem sabe, o mundo.

F: Quais são os obstáculos que você espera enfrentar quando se trata de fazer com que as empresas se tornem mais proativas no espaço de descarbonização e como você os enfrentará?

MF: Devido à complexidade de calcular os riscos e oportunidades da transição para uma economia de baixo carbono (por exemplo, mudanças nas políticas, impactos na reputação, mudanças nas preferências do mercado, normas e tecnologia), muitas empresas simplesmente não estão fazendo isso.

É uma tarefa difícil porque a maioria das organizações não tem um repositório central para que vários líderes de departamento estejam na mesma página e tenham amplo acesso aos dados que a SINAI fornece – e que são capazes de traduzir tudo isso em percepções que ajudam a mover o ponteiro rapidamente. Em vez disso, eles costumam usar planilhas e colaborar por e-mail com ferramentas de relatórios estáticos.

As empresas que não liderarem o caminho para reduções de emissões sofrerão, já que essa prática será muito mais cara no futuro, além de prejudicar a reputação daqueles que não agirem cedo e rapidamente. O mercado vai definir as regras por si só. A SINAI apenas dará o suporte cada vez mais necessário para surfar essa nova onda verde que se avizinha.

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