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Investidora Que Apostou na Rival do ChatGPT Antes de Todo Mundo Transformou US$ 75 Milhões em US$ 3 Bi

A sócia da Spark Capital apostou cedo na Anthropic quando a maioria dos fundos de venture capital não queria se envolver com a empresa

8 min

Em 2021, pode parecer difícil imaginar, mas os investidores de venture capital ainda não estavam convencidos sobre a Anthropic. Hoje, a gigante da inteligência artificial é avaliada em US$ 380 bilhões (R$ 1,93 trilhão), mas, na época, não tinha produto público, não gerava receita e tentava levantar centenas de milhões de dólares.

“A IA não era vista como algo superatraente ou empolgante para investir”, afirma Daniela Amodei, cofundadora e presidente da empresa. Antes de fundar a Anthropic naquele ano ao lado de seis colegas, ela havia sido uma das primeiras funcionárias da OpenAI.

Seu irmão, Dario Amodei, CEO da companhia, conseguiu captar US$ 1,1 bilhão (R$ 5,58 bilhões) de uma série de investidores bilionários, incluindo Dustin Moskovitz, ex-Facebook, e Sam Bankman-Fried, então estrela do mercado de criptomoedas que mais tarde não iria ter sucesso. O montante foi suficiente para desenvolver uma versão inicial do Claude, chatbot de IA da Anthropic, mas estava longe de cobrir os custos necessários para treiná-lo a ponto de competir com o ChatGPT, da OpenAI, que explodiu em popularidade em novembro de 2022.

Temendo gastar bilhões de dólares apoiando uma empresa que parecia destinada a ficar atrás da concorrência, a maioria dos fundos tradicionais de venture capital preferiu ficar de fora. Uma exceção foi Yasmin Razavi, sócia da Spark Capital.

Em maio de 2023, Razavi liderou uma rodada de US$ 450 milhões (R$ 2,28 bilhões) para a Anthropic, avaliando a companhia em US$ 5 bilhões (R$ 25,35 bilhões). “Foi o maior cheque da história da nossa gestora. Não foi uma aposta pulverizada esperando acertar uma delas por sorte”, afirma Razavi, falando de seu apartamento no bairro do SoHo, em Nova York.

Ela se lembra de ter escrito dois longos memorandos defendendo o investimento perante os demais sócios da Spark. “Foi um grande salto de fé, mas era a equipe que havia construído o GPT-3”, diz.

A aposta

O sucesso impressionante da Anthropic levou Razavi, de 37 anos, a estrear na Midas List, ranking que reúne os 100 principais investidores de venture capital do mundo. Única investidora da Anthropic com assento no conselho de administração, ela é a estreante mais bem colocada da lista deste ano, ocupando a 13ª posição.

O investimento inicial de US$ 75 milhões (R$ 380,25 milhões) realizado pela Spark — somado aos aportes posteriores — vale hoje pelo menos US$ 3 bilhões (R$ 15,21 bilhões). “Esse será lembrado como um dos melhores investimentos desta geração”, escreveu Pauline Yang, investidora da Altimeter Capital, fundo que também investiu na OpenAI e na Anthropic.

Em sua 25ª edição, a Midas List 2026 oferece um retrato de uma indústria que está prestes a registrar os maiores retornos das últimas décadas. Investidores de apenas três empresas privadas — Anthropic, OpenAI e SpaceX — dominam boa parte do ranking.

Se as três abrirem capital nas avaliações atuais, poderão gerar um lucro estimado de US$ 815 bilhões (R$ 4,13 trilhões), valor superior ao de todos os demais investimentos de venture capital da última década somados. A Anthropic, em particular, vive um momento extraordinário.

O lançamento, há pouco mais de um ano, de uma ferramenta de programação com capacidades próximas às humanas atingiu o setor de tecnologia como uma bomba atômica. Segundo Daniela Amodei, Razavi incentivou os fundadores, nos bastidores, a concentrar esforços em programação.

“Yasmin nos pressionou bastante para enxergar programação como uma vertical própria”, afirma. “Nós já tínhamos uma ideia do que o Claude Code poderia se tornar um dia, mas ela dizia: ‘Esse será um mercado enorme e vocês podem dominá-lo completamente’.”

Fenômeno Claude

Ela estava certa. Em abril, a Anthropic informou que apenas o Claude Code já gerava uma receita anualizada de US$ 2,5 bilhões (R$ 12,68 bilhões). A ferramenta é tão avançada que investidores tentam descobrir quais empresas de software podem se tornar obsoletas nos próximos anos.

O Claude Code deu origem ao Claude Cowork, um agente de IA capaz de executar tarefas típicas de escritórios, como criar apresentações, analisar dados e montar planilhas. Em fevereiro, o lançamento provocou uma liquidação de US$ 285 bilhões (R$ 1,44 trilhão) em ações de empresas de software.

Já o novo modelo da companhia, Mythos, identificou inúmeras vulnerabilidades espalhadas pela internet, que posteriormente foram corrigidas. Dario Amodei afirma que o negócio cresceu 80 vezes apenas no primeiro trimestre deste ano.

A Forbes informou no ano passado que a empresa havia gerado US$ 4,5 bilhões (R$ 22,82 bilhões) em receita efetiva. As projeções de receita anualizada para o segundo trimestre devem superar esse valor e ajudar a companhia a alcançar lucro operacional, segundo o The Wall Street Journal.

Em abril, Amodei afirmou que a receita anualizada da Anthropic está a caminho de atingir US$ 30 bilhões (R$ 152,1 bilhões) em 2026. Esse crescimento exigiu grandes quantidades de capacidade computacional e capital.

De Teerã ao Vale do Silício

Atualmente dividindo seu tempo entre São Francisco e Nova York, Razavi nasceu em Teerã, no Irã. Sua mãe era médica e seu pai administrava uma empresa de fabricação de aço. Durante uma viagem de ensino médio para visitar um irmão que estudava no Canadá, ela tomou uma decisão impulsiva: não voltaria para casa.

Segundo Razavi, a escolha foi motivada tanto pelo desejo de deixar o conservadorismo do Irã quanto pela intenção de evitar o rigoroso vestibular do país. “Sempre soube que queria viver no Ocidente.” Ela ingressou na Universidade de Toronto, mas logo sua atenção se voltou para outro lugar.

Enquanto estudava engenharia industrial e programação, observava o crescimento acelerado do ecossistema de startups impulsionado por empresas como Instagram, Uber e Shopify. Ela queria fazer parte daquele movimento. Após uma passagem por projetos internos de consultoria na McKinsey, candidatou-se a uma vaga na Index Ventures.

O escritório londrino da gestora procurava um especialista em games com experiência de negócios na região nórdica. Razavi não tinha nenhuma das duas qualificações. Mesmo assim, foi contratada.

“Yasmin sempre teve um foco implacável em grandes oportunidades e em trabalhar com os melhores empreendedores”, afirma Ben Holmes, seu ex-chefe na Index Ventures. Depois da Index, ela passou pela Harvard Business School — onde estagiou na equipe de monetização da Snap — antes de ingressar na Spark Capital.

Foi atraída pelo histórico da gestora em investimentos como Plaid e Oculus, startup de realidade virtual fundada por Palmer Luckey, além da liberdade dada aos investidores para desenvolver suas próprias teses.

Nos primeiros anos na Spark, dedicou-se a entender como as fintechs estavam transformando os fluxos financeiros. Essa análise levou ao investimento na Marqeta, empresa de tecnologia para pagamentos, em 2019, quando era avaliada em US$ 1,9 bilhão (R$ 9,63 bilhões).

Apenas dois anos depois, a companhia abriu capital avaliada em US$ 15 bilhões (R$ 76,05 bilhões), embora hoje seu valor de mercado tenha recuado para US$ 1,6 bilhão (R$ 8,11 bilhões). Em seguida, apostou na globalização do trabalho remoto e liderou, em 2020, um investimento na Deel, plataforma de contratação remota então avaliada em US$ 200 milhões (R$ 1,01 bilhão).

Hoje, a empresa vale US$ 17 bilhões (R$ 86,19 bilhões). A tese construída em torno da Anthropic também a levou a ampliar suas apostas em inteligência artificial.

Seu portfólio inclui a Crusoe, desenvolvedora de data centers avaliada em US$ 10 bilhões (R$ 50,7 bilhões); a fabricante de chips de IA MatX; e uma startup de litografia para semicondutores que ainda não foi anunciada publicamente.

“Yasmin faz apostas pouco óbvias e de altíssima convicção”, afirma Alex Bouaziz, cofundador da Deel. “Ela faz parte da próxima geração dos grandes investidores.”

Disputa pelo topo

Desde que ingressou no conselho da Anthropic, em 2023, a empresa viveu uma trajetória intensa.

A companhia entrou em conflito não apenas com sua principal rival, a OpenAI, mas também com o secretário de Defesa Pete Hegseth e com o governo Trump devido ao uso do Claude pelo Pentágono em programas de vigilância doméstica em massa.

E, embora hoje esteja à frente da corrida da IA, os concorrentes trabalham para recuperar terreno. Elon Musk acaba de apostar US$ 60 bilhões (R$ 304,2 bilhões) na aquisição da ferramenta de programação Cursor para fortalecer seu modelo Grok.

O Codex, da OpenAI, também é competitivo, e o Google continua sendo um adversário relevante. Nada disso abalou a confiança de Razavi em Dario Amodei.

“Todos os anos ele apresenta projeções absurdas, mas de alguma forma elas acabam se tornando realidade”, afirma. “Dario nunca erra.”

*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com

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