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“Eu Não Via Ninguém Parecido Comigo”: a Brasileira Que Levou a Adyen a Crescer 26% na América Latina

Sob a liderança da brasileira Thais Fischberg holandesa de pagamentos por trás de empresas como Uber, iFood e Amazon registrou maior crescimento global na real

6 min

A maioria dos brasileiros talvez nunca tenha ouvido falar da Adyen. Mas provavelmente já usou a tecnologia da empresa holandesa ao pedir um carro por aplicativo, fazer uma compra no iFood, assinar um streaming ou pagar em uma maquininha de cartão em restaurantes e lojas.

Especializada em infraestrutura de pagamentos para grandes empresas, a Adyen opera nos bastidores do varejo digital e físico. A companhia está por trás das transações de empresas como Uber, Amazon, iFood e Estapar, conectando pagamentos online, presenciais e serviços financeiros em uma única plataforma.

Em 2025, a empresa processou € 1,4 trilhão (R$ 8,2 trilhões) em pagamentos no mundo, registrou receita líquida de € 2,4 bilhões (R$ 14,1 bilhões) e EBITDA de € 1,2 bilhão (R$ 7 bilhões). Entre as quatro regiões globais da companhia, a América Latina foi a que mais cresceu, com avanço de 26% na receita anual, sendo 34% no segundo semestre.

Quem lidera essa operação é a brasileira Thais Fischberg, presidente da empresa para a América Latina há três anos e meio. Ela chegou à companhia em outubro de 2021, depois de construir uma carreira de mais de duas décadas no mercado de pagamentos, um setor que se transformou profundamente desde que ela começou.

Antes da Adyen, passou por empresas como Mastercard, Santander e Worldline, acumulando experiência em produtos, tecnologia e experiência do consumidor. Seu primeiro cargo na companhia holandesa foi como vice-presidente de produtos, área que considera central para sua formação como executiva.

“Meu background principal é produto”, afirma. “Eu sempre tive um olhar muito focado no cliente e na jornada final dele.”

A promoção para a presidência regional veio rapidamente. No segundo ano na empresa, foi convidada para assumir a liderança da América Latina após a mudança do então presidente para outra posição interna.

O desafio era manter o ritmo de crescimento da operação em uma região estratégica para a companhia e, ao mesmo tempo, construir uma cultura local dentro de uma multinacional presente em mais de 40 países.

“É uma empresa holandesa, super multicultural, mas o mercado de pagamentos é muito local”, afirma. “Para ter sucesso no Brasil, eu preciso fazer o time entender o Brasil e traduzir isso nas nossas soluções.”

Brasil exporta conhecimento em pagamentos

Essa necessidade de adaptar uma plataforma global às especificidades brasileiras ganhou ainda mais relevância nos últimos anos com a explosão do Pix e a aceleração da digitalização financeira no país.

Hoje, o Pix já está entre os três principais métodos alternativos de pagamento da Adyen globalmente. Segundo Thais, o sistema brasileiro se tornou também uma vitrine internacional sobre como pagamentos instantâneos podem transformar comportamento de consumo.

“O Pix virou um fenômeno cultural”, afirma. “O Brasil exporta muito conhecimento hoje em pagamentos.”

A empresa participou desde o início da implementação do sistema e segue envolvida em discussões com o Banco Central sobre novas funcionalidades, como Pix recorrente e jornadas sem redirecionamento.

“A gente entende que faz parte do nosso papel trazer input para o regulador e participar dessa evolução do mercado”, diz.

Parte importante dessa estratégia passa pelo Tech Hub criado pela companhia em São José dos Campos. A estrutura reúne desenvolvedores brasileiros que ajudam tanto na adaptação das soluções para o mercado local quanto no desenvolvimento de projetos globais.

Segundo a executiva, o centro nasceu da necessidade de garantir a “brasilidade” das soluções da empresa em um dos mercados mais sofisticados do mundo em pagamentos digitais.

“O regulador brasileiro é muito presente, o mercado evolui muito rápido e a gente precisa refletir tudo isso nas soluções”, afirma.

Ao mesmo tempo, o hub também passou a exportar tecnologia. Desenvolvedores brasileiros participam hoje de projetos usados nos Estados Unidos e na Europa, algo que, para Thais, reforça a relevância do país dentro da companhia.

Executiva ouvia que precisava ter “postura executiva”

A trajetória da executiva também foi marcada por desafios menos visíveis do que tecnologia e crescimento.

Thais diz que passou boa parte da carreira sem encontrar referências parecidas consigo em posições de liderança. Hoje, ela é a primeira pessoa LGBTQIA+ a liderar a operação latino-americana da Adyen.

“Representatividade importa muito”, afirma. “As pessoas precisam entender que podem chegar lá.”

Ela lembra que, no início da carreira, frequentemente recebia feedbacks dizendo que precisava desenvolver uma “postura mais executiva”.

“Eu tentava entender o que era essa postura executiva sendo uma pessoa tão diferente do que eu via naquela sala fechada de escritório”, afirma.

Para a executiva, diversidade deixou de ser apenas uma pauta institucional para se tornar uma questão diretamente ligada aos resultados de negócio. Segundo ela, empresas que refletem diferentes perspectivas conseguem reduzir pontos cegos e tomar decisões melhores.

Hoje, a Adyen tem 44% de mulheres na liderança global e metade do Conselho Fiscal é composto por mulheres.

“A hora que você considera a verdade, não existe nenhuma empresa que possa dizer que está 100% resolvida em diversidade”, afirma. “É uma jornada constante.”

Sob sua gestão, a companhia também ampliou investimentos em inteligência artificial, especialmente na prevenção a fraudes. A empresa utiliza modelos de aprendizagem de máquina há anos, mas vem acelerando o uso de IA para melhorar autenticação e análise de comportamento.

Segundo a companhia, quando uma marca recebe um novo cliente, existe mais de 90% de chance de a Adyen já conhecer aquela combinação de dados em algum ponto da sua rede global. Isso permite validar transações mais rapidamente e reduzir fraudes sem aumentar barreiras para consumidores legítimos.

“A gente usa o poder da nossa rede de dados para aumentar a capacidade de tomada de decisão dos clientes”, afirma.

No comércio agêntico, a IA compra em nome do consumidor

Agora, a empresa se prepara para uma nova transformação no varejo: o chamado “comércio agêntico”, em que agentes de inteligência artificial poderão realizar compras em nome dos consumidores.

Na prática, isso significa que ferramentas de IA poderão pesquisar produtos, comparar preços e concluir transações automaticamente a partir de comandos mais amplos dos usuários.

“A gente está caminhando para um momento em que você delega decisões de compra para agentes inteligentes”, diz. “Isso vai transformar completamente o varejo.”

Segundo Thais, essa mudança exigirá uma reorganização profunda das empresas, desde estoque e catálogo até autenticação e prevenção a fraudes.

Embora considere que o movimento ainda esteja em estágio inicial, ela acredita que o Brasil pode ter novamente um papel relevante nessa transformação por causa da velocidade de adoção tecnológica dos consumidores locais.

“O brasileiro adota tecnologia muito rápido”, afirma. “A gente vê isso acontecer o tempo inteiro no mercado de pagamentos.”

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