No coração do Parque Ibirapuera, o emblemático prédio da Bienal estava em plena transformação. Operários circulavam com ferramentas, andaimes subiam, o concreto revelava a pressa dos dias que antecedem este 6 de setembro, quando a 36ª Bienal de São Paulo será inaugurada (em cartaz até 11 de janeiro de 2026).
No meio da obra, mas em contraste com a agitação ao redor, a sala da presidência se manteve como um espaço de concentração e decisão. É ali que Andrea Pinheiro recebeu a Forbes para a entrevista antes da abertura. É como se o barulho do lado de fora não a afetasse – talvez porque já tenha internalizado que liderar a maior mostra de arte do hemisfério sul exige conviver com ruídos, pressões e expectativas.
A administradora de empresas e gestora cultural é a primeira mulher a ocupar o cargo de presidente durante a realização de uma Bienal (Maria Rodrigues Alves esteve no comando da Fundação no início da década de 1990, mas não liderou a instituição durante o evento). O peso simbólico do cargo é sublinhado por Andrea: “É impressionante pensar que, em 70 anos, nunca houve uma mulher nesse papel. Não é apenas sobre mim, mas sobre abrir espaço para que outras venham. A Bienal pertence ao Brasil e à sociedade, e precisamos que diferentes vozes estejam à frente dela.” O tema da 36ª Bienal de São Paulo (Nem Todo Viandante Anda Estradas – Da Humanidade como Prática) tem inspiração feminina: no poema Da Calma e do Silêncio, de Conceição Evaristo.
Conselheira do Masp, Andrea foi sócia-fundadora do BR Partners e diretora do Banco BMC. Com graduação e MBA em administração de empresas (cursado na Universidade de Nova York) e especialização em governança corporativa pela Wharton School, ela atuou como a segunda vice-presidente das últimas duas gestões da diretoria executiva (2019-2023) – durante o período, a quantidade de patrocinadores da Fundação Bienal passou de 18 para 48, além de mais 13 apoiadores internacionais e 16 parceiros.
Natural de Fortaleza, Andrea fala com orgulho do Ceará: “Tenho um afeto enorme pelo meu estado e muito orgulho do momento que ele vive nas artes. A Pinacoteca do Ceará está maravilhosa, com investimentos significativos, e há artistas incríveis, como Chico da Silva, e tantos outros talentos que acompanho desde jovem. Cresci em um ambiente em que a arte regional, o artesanato e a tradição se misturavam, e isso me marcou profundamente. Me considero profundamente cearense. Ser nordestina é parte fundamental de quem sou.” Apesar do orgulho de suas raízes, São Paulo é sua casa profissional e pessoal. “Hoje não me imagino morando em outro lugar. É aqui que eu quero estar.”

Às vésperas de abrir a Bienal, Andrea resume seu desejo de forma direta: “O maior elogio seria que o público se emocionasse. E emoção pode ser pela beleza, pelo incômodo, pela surpresa. O que não pode é passar em branco. O que quero é que a Bienal mexa com as pessoas, que a arte toque de verdade.” Na conversa exclusiva a seguir, ela fala sobre arte, diversidade, a experiência de liderar a mostra e aspectos de sua vida pessoal.
Forbes – Você é a primeira mulher a presidir a Bienal. Como essa perspectiva influencia a curadoria e a exposição?
Andrea Pinheiro – É uma responsabilidade enorme, mas tento encarar de forma prática e estratégica. Nossa equipe e o comitê de curadoria trabalharam muito para que a Bienal fosse plural, diversa e acessível. Isso se traduziu na escolha do curador, o camaronês Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, que compartilha nossa visão de abrir espaço para artistas de diferentes origens, gêneros e trajetórias. Minha gestão é sobre continuidade e fortalecimento. Ampliamos a duração da Bienal de três para quatro meses, algo inédito, permitindo melhor experiência a escolas e visitantes. Paralelamente, modernizamos e digitalizamos nosso arquivo, que recebe pesquisadores do mundo inteiro. Outro foco principal da minha administração é o programa educacional da Bienal, que existe desde 1953. Em abril deste ano, fizemos um jantar para arrecadar recursos, e o volume que conseguimos está sendo investido justamente nessa área. Ele é muito amplo: na última Bienal, recebemos cerca de 70 mil crianças, incluindo estudantes de escolas distantes da periferia e de escolas privadas de São Paulo. É um projeto caro, porque muitas vezes precisamos custear transporte e alimentação para essas crianças, mesmo com o apoio das prefeituras. Por isso, ampliar o programa educacional é uma prioridade para nós. Nosso objetivo agora é aumentar significativamente o programa, em torno de 30 a 40%. Queremos trazer 100 mil crianças nesta edição.

O que a levou a ser escolhida para presidir a Bienal? Há semelhanças entre gerir um banco e uma mostra de arte tão complexa?
O principal motivo de eu ter sido escolhida para presidir a Bienal foi a minha experiência em gestão. Gerenciei bancos por mais de 20 anos, e a Bienal, na prática, funciona como uma grande empresa: possui um orçamento considerável, uma equipe ampla e movimenta parte da economia de São Paulo. Acredito que essa experiência foi o meu diferencial na escolha. No fim das contas, as coisas se conectam. Ao longo da vida vamos acumulando experiências, e em cada novo desafio elas se encontram, permitindo que a gente enfrente o que vier. E, sim, vejo muita similaridade entre gerir um banco e conduzir a Bienal: são estruturas complexas, exigem liderança, planejamento, coordenação de equipes e uma visão estratégica que contemple o todo, sem perder a atenção aos detalhes.
Você mencionou diversidade e inclusão. Como isso se materializa nas ações da Bienal?
Criamos o programa Vozes da Bienal, envolvendo 40 influenciadores que não necessariamente falam de arte – da TV ao rap, advocacia, lifestyle. Queremos atingir públicos diversos, mostrando que a Bienal é para todos. Além disso, lançamos um piloto de realidade aumentada: 20 obras poderão ser apreciadas com o celular, sem aplicativo, com explicações via avatar em linguagem casual. É uma experiência interativa e inclusiva, que aproxima as pessoas da arte de forma inédita. A comunicação também é central. Quase 700 mil pessoas seguem a Bienal nas redes sociais, mas queremos ir além. Investimos em posts patrocinados, conteúdos educativos e campanhas de engajamento para tornar a experiência da arte contemporânea acessível, emocionante e próxima.
Quais foram os maiores desafios e as surpresas ao levantar esta Bienal tão ambiciosa em duração, escala e diálogo com o público?
Olha, estou no board da Bienal há sete anos e já acompanhei duas edições anteriores. Se você pensar que a mostra ocupa 30 mil metros quadrados de área expositiva, com 135 artistas de 49 países, mais de mil obras, algumas monumentais e comissionadas especificamente para a Bienal, a complexidade é grande. Além da produção artística, há toda a logística envolvida, o programa educativo, o arquivo – investir e coordenar tudo isso é um desafio gigantesco. Mas agora, vendo tudo se materializar, sinto uma felicidade enorme. O time trabalhou incansavelmente nos últimos anos para que tudo acontecesse, e é gratificante ver cada detalhe tomando forma. Os desafios são muitos, diários, e ao longo da Bienal surgem outros imprevistos, mas as surpresas e o aprendizado fazem parte desse processo intenso e incrível.
Pessoalmente, como a arte faz parte da sua vida?
A arte sempre esteve presente. Meus pais me levavam a museus desde criança, e crescer no Ceará me permitiu conhecer tanto a arte regional quanto a arte clássica. Hoje, compro obras que me tocam, mas não coleciono com intenção de investimento. Ultimamente, meu foco tem sido artistas mulheres, uma forma de apoiar sua visibilidade e empoderamento. Entre minhas favoritas estão Ana Maria Maiolino, Mira Schendel, Sandra Cinto e Leonor Fini. Cada obra conversa com um momento da minha vida; a experiência de ver e sentir é muito mais importante do que a posse.
Qual foi a primeira obra que realmente marcou você?
As Nenúfares, de Monet, me impactaram muito na adolescência. A arte conversa com o momento da vida: o que me tocava aos 15 anos não me emocionaria da mesma forma hoje.

E entre as obras da Bienal, há algumas que a emocionam de forma especial?
Temos muitas peças monumentais. A obra da Precious ocupa mais de 200 metros quadrados na entrada, uma savana com lago, totalmente sustentável. Song Dong fará uma instalação externa com espelhos e luzes refletindo o prédio da Bienal. Também teremos obras icônicas de Frank Bowling, artista com 91 anos, incluindo quadros de sete metros de altura. Cada obra é impactante e potente; a energia dessas instalações vai contagiar o público.
Como você equilibra essa rotina intensa com a vida pessoal?
Gosto de silêncio, de estar no sítio com meu marido, caminhando, lendo, cuidando da horta e das orquídeas. Trabalho é minha paixão, mas recarrego minhas energias nesses refúgios. Viajar é outro prazer: adoro revisitar lugares como Capri e Roma, mas sempre buscando experiências novas, como exposições ou espaços culturais inéditos.

Como é sua relação com a maternidade?
Tenho dois filhos adultos, Isabella e Gabriel. Sempre quis ser mãe, foi o maior desafio e a maior realização da minha vida. Hoje, meu trabalho de mãe é permitir que eles sigam suas vidas com autonomia, sem excesso de proteção, o que exige equilíbrio constante.
Já sentiu que precisava se provar mais em espaços historicamente masculinos?
Sim. Trabalhei 12 anos em bancos de investimento, ambientes extremamente masculinos. Era necessário mostrar competência constantemente, enquanto colegas homens não enfrentavam o mesmo. Hoje vejo evolução, mas ainda há desafios, mulheres ainda precisam se afirmar em muitos espaços.
Algum mantra ou filosofia que guia suas decisões?
Tudo passa. Momentos bons e ruins são passageiros, e estar presente em cada um deles é essencial. Nos momentos difíceis, lembro que eles passarão, e muitas vezes é nesses momentos que amadurecemos e crescemos.