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“Quero Desafiar Expectativas e Fugir do Óbvio”, Diz Marina Ruy Barbosa sobre Nova Série

À Forbes, atriz falou sobre nova fase da carreira e os desafios de interpretar Suzane von Richtofen na série "Tremembé", do Prime Video

11 min

Aos 30 anos, Marina Ruy Barbosa vive um momento de se desafiar. Após duas décadas construindo uma trajetória sólida na televisão e no cinema, a atriz afirma estar voltada para papéis que ampliem seu repertório e a coloquem diante de experiências inéditas. O próximo trabalho segue justamente nessa direção: em outubro, a atriz estreia na série “Tremembé“, produção original do Amazon Prime Video, interpretando Suzane von Richthofen, acusada de envolvimento no assassinato dos pais em 2002.

O projeto marca não apenas uma mudança no tipo de personagem que costuma representar, mas também uma nova etapa em sua atuação no mercado audiovisual. “Meus próximos passos profissionais seguem no caminho de desafiar expectativas e construir uma trajetória mais plural”, conta ela à Forbes.

Prevista para estrear em 31 de outubro, a trama de “Tremembé” se passa na penitenciária homônima — conhecida como “a prisão dos famosos”, com detentos como Elize Matsunaga e os irmãos Cravinhos — e é inspirada nos livros do jornalista Ulisses Campbell. A produção aborda tanto as dinâmicas internas do sistema prisional quanto casos criminais que marcaram a memória nacional.

A série marca o encerramento do contrato de Marina com a TV Globo, onde já fez fez sucessos como “Belíssima” (2005) e “Totalmente Demais” (2015). Agora, além de atuar, a carioca assina como produtora associada da produção do Prime Video.

Nesta nova fase, Marina conversou com a Forbes sobre como se preparou para o papel de Suzane, quais os maiores desafios de interpretar uma personagem tão intensa e quais os próximos passos em sua carreira – como o longa “Antártida”, dirigido por Bruno Safadi, em que interpreta uma cientista que vai para a base brasileira no continente gelado estudar as mudanças climáticas.

Confira os melhores momentos da entrevista:

Forbes: Muitas pessoas ainda têm lembranças muito vivas do caso Richthofen. Qual foi a sua principal preocupação em evitar cair em caricatura ou julgamento pessoal ao interpretar a Suzane?

Marina Ruy Barbosa: Sem dúvida, tive um cuidado em deixar de lado qualquer opinião ou julgamento pessoal. Eu me baseei no texto, especialmente no trabalho do Ulisses Campbell, que investigou profundamente os condenados de Tremembé. Eu tinha os livros à minha disposição com detalhes para a composição e o roteiro. O meu processo não passou por um contato direto com a Suzane, nem me interessava que fosse assim. O foco era construir a personagem a partir da dramaturgia, respeitando a proposta da roteirista e da diretora. No set, o desafio foi me despir de sentimentos e pudores para servir apenas à narrativa.

Divulgação/Amazon Prime VideoMarina Ruy Barbosa como Suzane von Richtofen na série Tremembé

Ao longo da sua carreira, você transitou por papéis muito distintos — de protagonistas em novelas a personagens mais densos no cinema. O que Tremembé acrescenta ao seu repertório que nenhum outro trabalho havia trazido?

Tremembé me trouxe a oportunidade de explorar um gênero que eu já admirava como espectadora, o True Crime. Foi um desafio inédito: interpretar uma personagem baseada em fatos, dentro de um contexto tão marcante para a memória coletiva brasileira. Esse trabalho me trouxe exatamente o que eu estava buscando, causar surpresa e estranheza, e acredito que posicionou artisticamente em um lugar de densidade distinta. Não é o lugar onde o público está acostumado a me enxergar. Eu entendo que isso pode gerar uma certa curiosidade, e isso é uma percepção que eu quero abraçar. Quero mostrar que, aos 30 anos (e com 22 de carreira), eu estou pronta para mergulhar em outros desafios artísticos além dos que já me foram propostos.

“Depois de mais de 20 anos de carreira, tenho a liberdade e o privilégio de poder escolher. Tremembé representa justamente esse desejo de fugir do óbvio”

Ao longo da preparação, houve algum momento específico em que você sentiu que “encontrou” a chave da personagem? Qual foi esse ponto de virada?

Acho que foi uma descoberta diária. São 5 episódios e a personagem passa por diversos momentos. E precisa se adaptar a cada situação procurando e buscando uma posição melhor. Ela é estrategista. Eu estudo muito para qualquer papel, gosto de traçar um perfil psicológico com um psicanalista, eu amo esse processo de preparação e descobertas. E nesse trabalho não foi diferente. Mesmo que não fosse inspirado em histórias reais, uma personagem tão complexa me interessaria.

O caso da Suzane envolve não só a figura dela, mas também discussões sobre gênero e poder dentro das relações familiares. Como esses elementos influenciaram sua abordagem para o papel?

O meu trabalho é muito focado no nosso roteiro. A nossa história não é focada no crime em si nem no que antecede a ele. Tremembé é o retrato desses personagens cumprindo suas penas dentro da penitenciária. É sobre o que acontece com eles dentro do presídio, é sobre essas dinâmicas de relacionamentos e vivências. Por isso, para mim, foi muito importante o material do Ullisses, o nosso roteiro. Ele realmente foi o meu norte nesse processo. Eu busquei muito os elementos através dos diálogos, das situações de cada cena, para descobrir as complexidades da personagem, entender quem é ela dentro daquele contexto que estamos retratando. E sempre entender o que a personagem queria naquela determinada cena, porque é alguém que traça planos pra alcançar objetivos claros.

Quais semelhanças e diferenças você enxerga entre preparar uma personagem real e uma totalmente fictícia?

A principal diferença é que quando existe uma figura real, por mais que o projeto seja ficcional, existe uma memória coletiva ligada a ela – e, portanto, expectativas. Já em uma personagem fictícia, você parte do zero. Mas, nos dois casos, o que me guia é sempre o roteiro e a visão criativa de toda a equipe. Mas no projeto Tremembé eu tinha tanto material à minha disposição pra me basear, que isso torna instigante.

Você encontrou liberdade artística ou se sentiu “presa” a uma expectativa externa?

Não me senti limitada para criar de maneira nenhuma, até porque esse projeto não tem a intenção de simplesmente recontar o crime. Ele parte de um outro recorte: o cotidiano dentro da prisão. Isso me deu espaço para construir uma narrativa única, sem me prender ao imaginário coletivo já cristalizado. E foi como já disse anteriormente: mesmo que não fosse baseado em uma pessoa real, ainda assim eu me interessaria por interpretar uma personagem como essa – cheia de camadas.

Muitos atores falam sobre a dificuldade de “voltar para si” após viver papéis tão intensos. Houve alguma estratégia ou ritual seu para se desconectar da Suzane no fim do dia?

Não tenho um ritual fixo, mas a consciência de que estou interpretando um papel me ajuda a separar a Marina da personagem. Claro que é intenso e exige um mergulho emocional, mas, no meu processo criativo, consigo fazer essa dissociação para deixar o que pertence ao set dentro dele. É um exercício.

“Quero colaborar mais em projetos que enxerguem a minha contribuição de uma maneira mais ampla, não apenas na frente das câmeras”

Essa série lida com uma memória coletiva brasileira. Você acredita que projetos como esse ajudam o público a entender ou até ressignificar episódios tão marcantes da nossa história?

Acredito que sim. Quando revisitamos casos como esse, não é apenas sobre lembrar, mas também sobre abrir espaço para reflexões importantes. Muitas vezes, esse tipo de narrativa provoca debates que podem até influenciar mudanças sociais ou legais. É nesse sentido que o audiovisual ganha potência: não para glamorizar, mas para provocar reflexão. E acho que a gente nunca pode normalizar crimes tão complexos enquanto sociedade.

Marina aos 9 anos, interpretando Ana na novela “Começar de Novo”

Você já declarou em entrevistas que tem buscado expandir seus horizontes profissionais, inclusive internacionalmente. Esse trabalho, mais denso, foi também uma maneira de se posicionar artisticamente nesse novo momento?

Eu busco bons papéis. Boas equipes. Bons atores. Bons textos. Isso é o que eu sempre quis e o que eu quero. Não importa o formato do projeto, série, filme, novela… Ou se é nacional ou internacional. Claro que ter a oportunidade de ter atuado na série Rio Connection foi interessante – atuar em inglês  em uma produção que tinha a Sony Internacional associada foi super instigante. Mas mais uma vez, minha busca é por contar histórias com qualidade. E hoje, depois de mais de 20 anos de carreira, eu tenho a liberdade e o privilégio de poder escolher. Tremembé representa justamente esse desejo de fugir do óbvio e de me colocar em territórios diferentes a serviço da arte.

“Meus próximos passos profissionais seguem no caminho de desafiar expectativas e construir uma trajetória mais plural”

Que tipo de personagem ainda falta na sua trajetória e que você tem vontade de interpretar?

Eu não sinto que exista um molde de personagem que eu queira viver. O que realmente me instiga são as boas histórias — porque são elas que dão sentido e criam personagens inesquecíveis. Quando um roteiro é bem construído, quando há profundidade e verdade, as personagens se tornam naturalmente interessantes e desafiadoras. Então, mais do que buscar um “tipo” específico, o que eu procuro são narrativas que me provoquem, que tragam relevância e que me façam sair transformada do processo. Estou aberta a diferentes caminhos, desde que a história tenha potência para emocionar, provocar reflexão e se conectar com o público.

E olhando para a Marina produtora e empreendedora, você pensa em se envolver também nos bastidores?

Sim. Inclusive, nesse projeto já assumi a função de produção associada, o que me deu a chance de participar de forma mais ativa no projeto. É uma extensão natural da minha inquietude criativa: não quero apenas atuar, quero também colaborar na escolha das histórias que acredito que fazem sentido ser contadas. Ao longo da minha carreira, já tive diversas oportunidades de participar nesses processos de forma mais tímida, mas sinto que estou pronta para dar esse passo de maneira mais sólida. Quero colaborar mais em projetos que enxerguem a minha contribuição de uma maneira mais ampla, não apenas na frente das câmeras.

Qual é a maior expectativa que você carrega para a recepção do público com Tremembé?

O meu desejo é que o público se surpreenda e que reforce a ideia de que o Brasil é uma grande potência criativa em séries, inclusive no gênero True Crime.

Depois dessa série, você já tem próximos planos? Pode antecipar alguma novidade?

Estou vivendo uma fase em que busco escolher projetos que me movam. Tenho recebido convites diferentes dos trabalhos que já fiz e isso me anima muito. Por exemplo, nesse momento, estou gravando um filme chamado “Antártida”, com um grande elenco (Andrea Beltrão, Leandra Leal, Lázaro Ramos, Gero Camilo, entre outros talentosos atores), que aborda temas sensíveis como o machismo estrutural, violências… Interpreto uma cientista, formada em geologia e que vai pra Antártida para a base brasileira pra estudar as mudanças climáticas… Não posso dar muito spoiler ainda. Mas a Inês, minha personagem, com certeza segue esse mesmo caminho que estou buscando para ir além do que já fiz. Além da atuação, quero seguir explorando os bastidores, seja como produtora ou em colaborações criativas.

O que posso dizer é que os próximos passos seguem nesse caminho de desafiar expectativas e construir uma trajetória mais plural e conectada com esse momento da minha vida e da minha carreira.

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