Minha jornada pelos três Four Seasons do Japão começou em Quioto: lá, tradição e silêncio dialogam com o tempo, criando um cenário harmônico. Depois, segui para Tóquio, na vibrante Otemachi, distrito financeiro da capital japonesa: a modernidade pulsa em equilíbrio com a sofisticação discreta do hotel. Por fim, cheguei a Osaka, a mais nova joia da rede, no bairro de Dojima, onde a energia contemporânea se mistura à história da cidade.
Cada Four Seasons do Japão oferece uma experiência singular, mas todos carregam a mesma essência: traduzir a cultura japonesa em luxo sutil, atenção aos detalhes e, claro, o genuíno omotenashi – a arte da hospitalidade japonesa.
Four Seasons Kyoto
De todos os Four Seasons em que já me hospedei, o de Quioto foi, sem dúvida, o mais impactante. Escondido no bairro de Higashiyama, entre templos históricos e ruas silenciosas, o hotel se revela aos poucos – como tudo na cidade japonesa. Construído em madeira e cercado por um jardim japonês de mais de 800 anos, o projeto honra os princípios da arquitetura tradicional japonesa: linhas simples, integração total à natureza e um respeito quase cerimonial pelos materiais. O espelho-d’água no pátio central reflete o céu e o templo do século 17 que integra a propriedade. À noite, a iluminação suave transforma o jardim em um cenário quase irreal. Os interiores seguem o mesmo espírito do lado de fora: madeira, papel, pedra, tecidos naturais. Tudo convida à contemplação.

Entre os destaques da estadia, o jantar no Emba, a steakhouse japonesa do hotel, foi um ritual em si. O menu começou com tartare de atum bluefin, wasabi defumado e abacate em uma combinação delicada. Depois, couve-flor gratinada, pães artesanais e manteiga defumada, que deixou um rastro sutil no paladar. A sopa de lagosta antecedeu o prato principal: um corte de Wagyu selado à perfeição, servido com quatro tipos de molho – o de mostarda defumada foi o meu favorito, por seu equilíbrio e intensidade. O toque defumado aparecia aqui e ali, como uma assinatura sensorial ao longo do jantar. A sobremesa trouxe um merengue leve com morangos japoneses – doces, vermelhos, quase uma joia comestível. Os morangos, aliás, são uma obsessão nacional e, em Quioto, estão por toda parte: mercados, sobremesas, lembrancinhas embaladas como presentes.

Four Seasons Tokyo
No alto do 39º andar de um prédio moderno com estação de metrô integrada, o Four Seasons Hotel Tokyo at Otemachi parece suspenso entre dois mundos: de um lado, o verde sereno dos jardins do Palácio Imperial; do outro, o ritmo frenético da capital japonesa, com seus arranha-céus e letreiros luminosos.
Os quartos são moldados com a elegância sutil e muito conforto, marca registrada da rede canadense, mas é do lado de fora das janelas que se revela um espetáculo à parte: a vista panorâmica de Tóquio muda conforme o horário do dia, oscilando entre o dourado suave do amanhecer e o brilho intenso da cidade à noite.

A experiência fica ainda mais especial quando se entra no universo gastronômico do hotel. No VIRTÙ, bar eleito um dos melhores do mundo pela Forbes Travel Guide 2025, Keith Motsi lidera com carisma e precisão uma coquetelaria que une Paris a Tóquio em técnica, ingredientes e alma. Entre um gesto e outro, ele observa se todos estão se divertindo e, quando a música sobe, não hesita em assumir a pista de dança com passos que já viraram sua assinatura.
No restaurante est, com uma estrela Michelin, o chef Guillaume Bracaval propõe uma cozinha francesa contemporânea comprometida com o Japão, mais precisamente com seus produtores locais, pescadores artesanais e estações do ano. Com 95% dos ingredientes vindos de diversas regiões do país, cada prato é uma ode à origem e ao propósito. Já as sobremesas, criadas pelo chef pâtissier Michele Abbatemarco, seguem o ritmo das 72 microestações do calendário japonês, com doces leves, precisos e equilibrados.
O compromisso com a sustentabilidade vai além da cozinha: louças feitas por artesãos locais, práticas de aproveitamento integral dos ingredientes e uma carta de bebidas que valoriza vinhos naturais e águas japonesas completam essa jornada sensorial.

Four Seasons Osaka
O Four Seasons Osaka é o mais novo da rede no país, inaugurado em agosto de 2024, e está localizado no bairro de Dojima, área que combina modernidade e tradição no coração da cidade. Osaka é conhecida como a “cozinha do Japão”, com suas ruas estreitas cheias de izakayas e mercados de rua, além dos arranha-céus que lembram que ali quem dita o ritmo é o trabalho.
Assim como em Tóquio, o hotel ocupa os andares superiores de uma torre moderna, oferecendo vistas amplas da metrópole e do Rio Dotonbori, famoso pelas luzes néon. A arquitetura traduz essa dualidade de Osaka: contemporânea, leve, mas profundamente enraizada em materiais naturais e no espírito japonês.
O spa, no 36º andar, tem vista panorâmica da cidade e reúne piscina coberta, ofurô e salas de tratamento onde o silêncio parece parte do cuidado. Escolhi uma massagem com técnica japonesa tradicional, profunda, precisa e surpreendentemente restauradora, daquelas que parecem reorganizar o corpo inteiro, camada por camada.
Antes de sair, levei comigo um pequeno frasco de pó de incenso vendido no spa. Ele serve para afastar o mau-olhado e purificar a energia. O aroma é sutil, mas tem presença. Trouxe para o Brasil como quem carrega um talismã.

‘O Japão que vive em mim’
Depois de 20 dias mergulhada no Japão, precisei de algumas semanas para digerir tudo o que vi, vivi e senti. Sempre tive um fascínio inexplicável por esse país. Amava a comida, conhecia pouco da cultura, mas algo lá no fundo sempre me dizia: um dia você vai.
Esse dia chegou. E não poderia ter vindo de forma mais especial: recebi um convite da Cartier para cobrir a Expo Osaka 2025 (leia matéria na página 110) e decidi estender a viagem para tirar férias no Japão. Já vi belezas e curiosidades pelo mundo. Mas nada – absolutamente nada – se compara ao Japão.
A começar pela forma como eles pensam: o coletivo está sempre em primeiro lugar. Um exemplo simples, mas emblemático: você não encontra toalhas de papel nos banheiros públicos. Em compensação, todos carregam na bolsa uma pequena toalhinha para secar as mãos.
O país é feito de beleza, silêncio e disciplina. Tudo é milimetricamente pensado: a estética das cidades, o design das casas, o modo de vestir das pessoas. Os tons são neutros: bege, marrom, cinza, preto, madeira. O exagero é exceção. A harmonia é a regra.

Uma guia brasileira que vive em Quioto, Ilana Lichtenstein, me contou um provérbio japonês que ajuda a entender essa lógica: “O prego que se destaca é martelado”. Quioto foi, talvez, a cidade que mais me tocou. É ali que o Japão mostra seu coração tradicional, com ruelas silenciosas, templos ancestrais e uma reverência ao tempo. Curiosamente, ali também se paga tudo em dinheiro – moedas e cédulas continuam vivas, em uma espécie de resistência afetiva à modernidade que está em toda parte.
Tóquio, por sua vez, é um espetáculo à parte. A cidade mais populosa do mundo é um organismo frenético, mas sempre organizado. O metrô, complexo e eficiente, é uma aula de funcionamento coletivo. Mas não se engane: é fácil se perder. Uma saída errada e você estará a quilômetros de onde queria ir. No entanto, mesmo isso se torna uma aventura.