Na fachada de cobogós projetada por Arthur Casas, a luz atravessa em retângulos que parecem recortar o tempo. É nesse espaço, na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, que a +55 Design se consolida como ponto de encontro entre arquitetura, arte e mobiliário brasileiro. À frente do projeto está Ticiana Villas Boas Batista, que, após 17 anos no jornalismo e na televisão, encontrou no design um novo caminho — construído ao lado da sócia Tatiana Amorim, designer de interiores de longa trajetória no setor.
Em uma tarde de setembro, Ticiana recebeu a Forbes para um almoço na sede da +55, onde compartilhou sua transição da televisão para o universo do design brasileiro. O primeiro gesto foi servir um copo de suco de cacau fresco, vindo diretamente da Fazenda Lealdade, herdada de sua família em Maraú, no sul da Bahia. “Pouca gente conhece o sabor do cacau puro, mas ele faz parte da minha história desde a infância”, disse, antes de conduzir a conversa entre pratos leves servidos no jardim da loja.

Do jornalismo ao empreendedorismo

Por quase duas décadas, a televisão foi seu palco. Ticiana começou como estagiária na TVE da Bahia, passou pela Band Bahia como repórter de rua e, em 2006, já estava em São Paulo. Dois anos depois, assumiu a bancada do Jornal da Band. “Eu tinha 25 anos, era muito jovem e, de repente, estava no horário nobre. Foi uma escola intensa e transformadora”, lembra.
O público se acostumou a vê-la tanto no Jornal da Band quanto no Bake Off Brasil. Mas a maternidade mudou o rumo. Em 2015, grávida do primeiro filho, ela decidiu deixar o jornalismo diário, com sua rotina exaustiva de plantões e madrugadas. “Eu queria estar presente para os meus filhos.” O convite do SBT para comandar o reality de confeitaria trouxe leveza à carreira e a chance de conciliar trabalho e família até 2017, quando fez uma pausa para cuidar da saúde mental e da vida pessoal. Poucos anos depois, durante a pandemia, retornou brevemente à TV, mas já estava envolvida em outro universo: o do design.

O nascimento da +55 Design

Foi nesse período que a vida apresentou outro caminho. Ao lado da amiga de infância Tatiana Amorim, designer de interiores com longa trajetória no setor, nasceu a +55 Design. “Eu não era do universo da arquitetura, mas entendi rápido que minha experiência em comunicação podia ajudar a contar a história da marca”, explica Ticiana.
O showroom, de 500 m2 na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, concebido por Arthur Casas, é ao mesmo tempo vitrine e manifesto. Ali se encontram peças assinadas por nomes como Studio MK27, Marina Linhares, Guto Requena, Bruno de Carvalho e Metro Arquitetos, além de colaborações especiais com Sig Bergamin e Vik Muniz. São móveis e objetos que trazem a marca de cada autor, mas que também carregam o DNA da empresa: brasilidade, inovação e o diálogo constante entre o artesanal e o industrial.
Para sustentar esse projeto, a marca estruturou sua própria fábrica em Campinas, unindo escala industrial a acabamento artesanal. “No começo, erramos muito. Compramos máquinas erradas, contratamos gente sem experiência. Mas aprendi que empreender é isso: insistir, ajustar e seguir em frente.”
Fazenda Lealdade: tradição e futuro

Paralelamente ao design, Ticiana herdou de seu avô a gestão da Fazenda Lealdade, no sul da Bahia, uma propriedade com mais de cem anos de história dedicada ao cacau. “Minha bisavó começou em 1935, depois veio meu avô, e agora sou eu. A responsabilidade de dar continuidade a essa história é enorme”, diz.
Quando assumiu, a fazenda estava enfraquecida, após a morte do avô, e ela decidiu iniciar um processo de recuperação. Há mais de um ano, conduz obras de renovação da infraestrutura, constrói novas áreas e se dedica a entender a fundo o universo do cacau. “Estou renovando a fazenda, recuperando a produção e aprendendo cada detalhe desse ciclo.”
A ideia é transformar a propriedade em um hub de experiências imersivas. O visitante poderá acompanhar a colheita, conhecer o processo de fermentação e provar o chocolate feito ali mesmo. “É um Brasil que quero mostrar”, resume. Inicialmente, a proposta é receber grupos para passar o dia na fazenda, em roteiros integrados com hotéis de Itacaré e Ilhéus: visita guiada, degustação de suco e de chocolate, almoço na casa principal e imersão no processo produtivo. Em paralelo, ela estuda ampliar a estrutura com quartos de hóspedes e uma pequena pousada.
O projeto inclui ainda a criação de uma marca própria de chocolate, prevista para ser lançada no próximo ano. O nome — inspirado em Jorge Amado, escritor que eternizou o cacau e o sul da Bahia em sua obra — ainda não pode ser revelado por questões de registro.
O vínculo, porém, vai além da produção. Em parceria com a prefeitura de Maraú, Ticiana apoia programas de alfabetização em escolas públicas da região. “Educação é o maior legado que podemos deixar. O cacau me dá esse elo com a terra, mas também com a comunidade.”
