Em time que está ganhando não se mexe. Nem mesmo quando o técnico não está mais no comando. A ideia se aplica perfeitamente à coleção de inverno 26 da Giorgio Armani, agora sob a batuta de Leo Dell’Orco, por quatro décadas o fiel escudeiro do designer italiano, falecido no ano passado. Era o primeiro desfile sem o fundador, mas seu legado permaneceu intacto na passarela.
A tão incensada identidade que Armani construiu ao longo de 50 anos, inabalável e perene à dança das tendências, estava presente na silhueta confortável e elegante, com o perfume oitentista potencializado pelas calças amplas e pregueadas e pelos paletós de ombros desestruturados, com o tradicional abotoamento baixo, reto ou cruzado. Tampouco mudou o formato da apresentação, dividida em blocos, com fartura de looks e ritmo nonchalant.
Texturas, muitas delas, assim como il signor Armani gostava, temperaram uma coleção sóbria e clássica, de cartela enxuta, na qual predominaram cáquis, cinzas e o azul-marinho – com um penchant para o roxo em determinado momento. O veludo “molhado” e os relevos felpudos de tricôs em lã e cashmere pontuaram looks urbanos de leve perfume oriental, intercalados pela melhor alfaiataria e arrematados com chapéus – hit da temporada milanesa.
Foi possível reconhecer as referências ao filme Gigolô Americano (1980) e ao figurino de Richard Gere no filme, assim como pipocaram algumas referências a Diane Keaton. A atriz foi a primeira celebridade a usar Giorgio Armani no tapete vermelho do Oscar, em 1978, ao vencer pelo filme Annie Hall. O estilo andrógino e revolucionário solidificou a presença do estilista na moda e no cinema, universo que ele admirava profundamente e que contribuiu demais para a construção do mito.
Leo Dell’Orco produziu uma coleção e um desfile extremamente respeitosos, com pitadas pessoais discretas, para uma transição suave. Ele conseguiu inserir ainda uma collab com a grife Alanui, reconhecida pelo knitwear luxuoso, com um cardigã sem gênero feito em jacquard listrado em tons de roxo, vinho e azul.