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Por Que Bad Bunny Não Vai Receber Por Show no Super Bowl

O filho mais famoso de Porto Rico será o primeiro artista de língua espanhola a liderar o principal show do maior jogo do ano

7 min

Em setembro passado, depois de uma residência de verão esgotada, com 31 shows em sua cidade natal, San Juan, Bad Bunny anunciou que não faria apresentações nos Estados Unidos durante sua turnê mundial de 2026 por causa da ameaça iminente do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) ao seu público majoritariamente hispânico. Mas, duas semanas depois, outro anúncio marcou uma grande exceção: o Rei do Latin Trap, de 31 anos, havia sido escolhido para ser a atração principal do show do intervalo do Super Bowl LX, em San Francisco.

A escolha de Bad Bunny também sinaliza a consolidação da música latina como uma força cultural e sua importância para as ambições cada vez mais globais da NFL. Segundo o Spotify, o gênero cresceu 2.500% em popularidade na última década, passando de 8% de todos os streams na plataforma para impressionantes 27% atualmente. Bad Bunny, que acumulou 19,8 bilhões de reproduções em 2025, foi o artista mais ouvido do ano no Spotify.

“Acho que houve, sem dúvida, uma decisão de mercado por trás da escolha do Bad Bunny”, afirma Jorell Meléndez-Badillo, professor de estudos latino-americanos da Universidade de Wisconsin, que já colaborou com o artista para incorporar a história de Porto Rico em seus shows e videoclipes. “A NFL quer se expandir internacionalmente, então está tentando atingir um mercado mais amplo além dos Estados Unidos. Ele tem um público enorme no país, mas esse palco também será amplificado internacionalmente ao colocar alguém como ele.”

A apresentação do intervalo do Super Bowl, em 8 de fevereiro, coroará um ano excepcional na carreira do astro vencedor do Grammy — nascido Benito Antonio Martínez Ocasio — que, além da residência esgotada em Porto Rico, também atuou em dois filmes de Hollywood ao lado de Adam Sandler (Happy Gilmore 2) e Austin Butler (Caught Stealing). No total, a Forbes estima que Bad Bunny tenha faturado US$ 66 milhões (R$ 363 milhões) em 2025, antes de impostos e taxas, valor que lhe garantiu o 10º lugar na lista dos músicos mais bem pagos do mundo. Mas o show do intervalo não vai colocar um centavo em seu bolso.

NetflixCom sua atuação em “Happy Gilmore 2” no ano passado, Bad Bunny quase roubou o filme de Adam Sandler — e ainda teve a chance de besuntar Travis Kelce com mel

Como acontece há muitos anos, os artistas que comandam o intervalo do Super Bowl se apresentam gratuitamente — fora o pagamento mínimo exigido por sindicatos, de algumas centenas de dólares — em troca do que é considerado talvez a oportunidade de marketing mais valiosa do entretenimento: uma vitrine promocional de 12 a 15 minutos assistida por centenas de milhões de pessoas. A apresentação do ano passado, de Kendrick Lamar, teve uma média de 133,5 milhões de espectadores e já soma 157 milhões de visualizações no YouTube.

O retorno econômico pode ser gigantesco. O Spotify informou que a música “Not Like Us”, de Lamar, teve um aumento de 430% nos streams após o jogo do ano passado. Ele aproveitou o embalo para lançar uma turnê em estádios com a co-headliner do Super Bowl, SZA, que arrecadou quase US$ 360 milhões (R$ 1,98 bilhão) em vendas de ingressos em 2025, segundo a Pollstar. Isso foi suficiente para tornar Lamar o quarto músico mais bem pago do mundo no ano passado, com ganhos de US$ 109 milhões (R$ 599,5 milhões) antes de impostos e taxas. E 2025 também foi um ótimo ano para SZA: ela terminou o ano como a 20ª artista mais bem paga, com US$ 34 milhões (R$ 187 milhões).

O “efeito Super Bowl” é tão valioso que artistas recentes do intervalo, como The Weeknd em 2021 e Dr. Dre em 2022, chegaram a gastar milhões de dólares do próprio bolso para tornar a produção ainda mais memorável, complementando um orçamento bancado pela NFL e pela Apple Music que frequentemente ultrapassa US$ 10 milhões (R$ 55 milhões).

Desde 2019, a NFL e a Apple delegaram grande parte da responsabilidade pela escolha dos artistas à Roc Nation e a seu cofundador, Jay-Z, que ampliou a diversidade entre os headliners. A escolha de Bad Bunny para o show deste ano leva essa iniciativa um passo adiante, já que será o primeiro show do intervalo do Super Bowl realizado majoritariamente em outro idioma. “O espanhol faz parte de mim; está no meu DNA”, disse Bad Bunny à Forbes em 2023. “Gosto de falar espanhol onde quer que eu vá — não para impor isso às pessoas, mas porque é quem eu sou.”

Meléndez-Badillo acredita que a paixão de Bad Bunny pela língua e pela cultura de Porto Rico conquistou fãs não apenas na ilha, mas ao redor do mundo, que veem sua falta de concessões como um ato desafiador de orgulho. “Benito é como aquele primo que venceu”, diz o professor. “Quando o vemos se apresentar em palcos como o Super Bowl, estamos nos vendo ali.”

Dadas as posições de Bad Bunny sobre a política de imigração do governo Trump, muitos especulam que ele usará o holofote global não apenas para vender ingressos de turnês e promover sua música, mas também para fazer uma declaração política. Vanessa Diaz, professora da Loyola Marymount University e autora do livro How Bad Bunny Became the Global Voice of Puerto Rican Resistance (Como Bad Bunny se tornou a voz global da resistência porto-riquenha), afirma que “tudo nessa apresentação será político”.

A inclusão do Green Day no lineup só aumentou as especulações, já que o vocalista Billie Joe Armstrong tem sido vocal em sua oposição a Trump e às políticas do ICE em Minnesota. O presidente disse ao New York Post na semana passada que não comparecerá ao jogo e expressou sua insatisfação com os artistas do intervalo. “Sou contra eles”, afirmou Trump. “Acho que é uma escolha terrível. Tudo o que faz é semear ódio. Terrível.” (E, segundo o conselheiro de Segurança Interna Corey Lewandowski, o ICE estará em operação durante a apresentação de Bad Bunny no intervalo.)

“Normalmente, artistas que se posicionam de forma muito política acabam sendo criticados por isso, o que pode impactar negativamente a recepção do público”, diz Diaz. “Mas, no caso de Bad Bunny, aconteceu o oposto. É como se ele tivesse ficado mais popular e mais político — e mais político e mais popular.”

Isso provavelmente continuará no Super Bowl LX, que o colocará diante de milhões de espectadores que talvez nunca tenham ouvido sua música — ou, aliás, qualquer música em espanhol. E, se a história servir como um bom indicador, essa plataforma levará Bad Bunny a novos patamares em sua carreira. “Acho que o Super Bowl é realmente a última coisa que faltava para quem ainda não sabia quem é Bad Bunny passar a saber”, diz Diaz.

“Esse é um show do intervalo sobre o qual vamos falar pelo resto da minha vida, porque será extremamente significativo em termos do que representa no contexto mais amplo da história do intervalo do Super Bowl, mas também especificamente neste momento. Ninguém mais poderia fazer o que Bad Bunny está prestes a fazer.”

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