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O Luxo da Desaceleração: por Dentro da Ascensão do Wellness Imobiliário

Em um cenário de hiperconexão e rotina acelerada, empreendimentos passam a vender bem-estar, hospitalidade e experiências sensoriais

13 min

Em uma manhã fria de Curitiba, o elevador se abre diretamente para uma residência cercada por floreiras exuberantes, madeira natural, aromas suaves e uma iluminação desenhada para acompanhar o ritmo do corpo ao longo do dia. No spa do condomínio, a água aquecida dissolve o silêncio urbano enquanto, poucos metros adiante, um concierge organiza compras de mercado, manutenção doméstica e tarefas pessoais dos moradores. Cercado por Mata Atlântica preservada, o empreendimento foi concebido para reduzir ao máximo as fricções da rotina: da governança da casa durante viagens à organização da vida cotidiana. Esse cenário descreve o Ícaro Casa-Térrea, lançado em 2024, projeto da incorporadora curitibana AG7.

Os apartamentos chegam a quase 1,5 mil metros quadrados, mas o que está sendo vendido ali vai muito além de espaço.

O empreendimento simboliza uma transformação que começa a ganhar força no mercado imobiliário brasileiro. Em vez de apenas metragem generosa, acabamentos sofisticados ou áreas de lazer tradicionais, uma nova geração de empreendimentos de luxo passou a vender bem-estar, hospitalidade e qualidade de vida como eixo central da moradia. O conceito, conhecido globalmente como wellness, mistura arquitetura, serviços, saúde, hospitalidade e experiências sensoriais em projetos desenhados para funcionar quase como refúgios privados dentro das cidades.

Academias, spas e piscinas aquecidas continuam presentes, mas agora aparecem integrados a soluções mais amplas: conforto acústico, iluminação natural, biofilia, operação de concierge, espaços de recuperação física, áreas contemplativas e serviços inspirados na hotelaria de luxo.

A AG7 foi uma das incorporadoras brasileiras que mais avançaram nesse conceito. Segundo Melissa Barbosa, diretora de sucesso do cliente da companhia, a empresa não nasceu originalmente focada em wellness, mas sempre teve a inovação como parte central de sua cultura. Há 15 anos, quando lançou seus primeiros empreendimentos em Curitiba, já incorporava soluções pouco usuais no mercado brasileiro, como infraestrutura para carregamento de carros elétricos.

A virada, de fato, aconteceu no ano de 2019, antes mesmo da pandemia – quando a companhia lançou o Ícaro Jardins do Graciosa.

“Foi um projeto desenvolvido com o ser humano no centro. Mapeamos comportamentos, rotinas e necessidades ligadas ao bem-estar para desenhar cada detalhe do empreendimento”, conta Barbosa.

O projeto acabou se tornando um marco interno da companhia, e também uma referência para o mercado.

Depois vieram empreendimentos como o AGE360, o Pace e, mais recentemente, o Ícaro Casa-Térrea, que consolidou a estratégia da incorporadora sob o slogan “Building Wellness”. Nele, a hospitalidade virou parte estrutural do condomínio.

Os moradores contam com concierge, assistência para compras, suporte de manutenção doméstica, governança durante viagens e uma operação concebida para funcionar como extensão da rotina pessoal dos residentes.

“A gente costuma dizer que não vende metro quadrado, mas tempo de qualidade. O objetivo é eliminar fricções do dia a dia”, afirma Barbosa.

O empreendimento é um dos únicos com a certificação internacional Fitwel, voltada a edifícios focados em saúde e bem-estar, uma espécie de selo de padrão comprovado. Para desenvolver o empreendimento, são necessários consultorias internacionais especializadas em spa, hospitalidade, saúde e academias.

Viver cercado por esse nível de hospitalidade, no entanto, ainda é um privilégio restrito à altíssima renda. O Ícaro Casa-Térrea, da AG7, possui VGV estimado em cerca de R$ 600 milhões para apenas 38 residências distribuídas em quatro torres em um terreno de 20 mil metros quadrados.

Em São Paulo, a Lindenberg passou a incorporar o wellness como eixo central de seus novos lançamentos em Moema.

Na visão dos executivos da companhia, o conceito deixou de ser um “acessório encaixado no projeto” para se tornar parte da própria concepção arquitetônica dos empreendimentos.

Os projetos incluem piscinas de recovery, múltiplas saunas, salas de massagem, academias de alta performance, iluminação desenhada para relaxamento e áreas comuns distribuídas como pequenos resorts privados verticais.

“Hoje, o cliente quer exclusividade e conveniência. Quanto menos ele precisar sair do prédio, melhor”, afirma Adolpho Lindenberg, CEO da empresa.

O novo Edifício Adolpho Lindenberg tem VGV estimado em R$ 1,2 bilhão, distribuído em um tolde 75 unidades que possuem de 330 a 875 metros quadrados. Os preços começam em R$ 14 milhões por unidade.

O projeto tem lançamento previsto para daqui três meses, em agosto deste ano.

Trata-se de um empreendimento que ajuda a ilustrar como o wellness passou a funcionar também como vetor de valorização imobiliária no segmento de altíssimo padrão.

Mas existe uma limitação importante para a expansão desse modelo em grandes capitais: espaço. Projetos wellness exigem áreas generosas, um desafio crescente em cidades adensadas como São Paulo e Rio de Janeiro, justamente onde a busca por refúgios urbanos se tornou mais intensa.

O novo empreendimento da Lindenberg ocupa um terreno de cerca de 30 mil metros quadrados, algo considerado raro na capital paulista.

Para Fábio Tadeu Araújo, CEO da consultoria Brain Inteligência Estratégica, uma das soluções que o mercado começa a estudar para viabilizar projetos wellness em capitais densas como São Paulo é integrar hotéis boutique aos empreendimentos residenciais.

A lógica é ampliar a infraestrutura e os serviços disponíveis sem depender exclusivamente da área privativa do condomínio residencial.

“Quando o empreendimento incorpora uma operação de hotel boutique, ele consegue compartilhar estruturas de spa, wellness, gastronomia, hospitalidade e serviços que exigiriam áreas muito maiores dentro de um condomínio tradicional”, afirma.

O modelo permite diluir a limitação física dos terrenos urbanos ao criar um ecossistema híbrido entre moradia e hotelaria de luxo – combinação que ajuda a sustentar experiências mais completas de bem-estar mesmo em cidades altamente adensadas.

Do condomínio ao ecossistema de lifestyle

Dentre os vários impactos, essa tendência também começa a extrapolar o conceito tradicional de condomínio vertical.

Em vez de apenas prédios com áreas comuns sofisticadas, algumas incorporadoras passaram a desenvolver verdadeiros ecossistemas privados de lifestyle, combinando moradia, hospitalidade, esportes, gastronomia, clubes e contato com a natureza em um único endereço.

A JHSF está entre as empresas que mais avançaram nessa lógica. Projetos como Fazenda Boa Vista, Boa Vista Village, Boa Vista Estates e a futura Fazenda Santa Helena foram concebidos não apenas como residenciais de alto padrão, mas como destinos de uso recorrente, desenhados para integrar diferentes dimensões da vida cotidiana.

“O entorno passou a ter peso cada vez maior na decisão de compra. Empreendimentos inseridos em ecossistemas mais completos, com clubs, hospitalidade e serviços, tendem a gerar maior identificação com o estilo de vida buscado pelo público de alta renda”, afirma a companhia.

A ideia é que o morador consiga concentrar, dentro do próprio empreendimento, atividades que antes exigiam deslocamentos constantes pela cidade: prática esportiva, encontros sociais, experiências gastronômicas, lazer, descanso e até networking.

Esse conceito aparece de forma particularmente inédita no São Paulo Surf Club, projeto da JHSF que mistura esporte, lazer, hospitalidade e desenvolvimento imobiliário em um único complexo privado na capital paulista.

No centro do empreendimento está uma praia artificial com tecnologia de geração de ondas para surfe. Em torno dela, o projeto reúne clubes, restaurantes, espaços de convivência, áreas wellness e residenciais integrados ao ecossistema do empreendimento.

Distribuídos em três torres com entrega prevista para 2029, os apartamentos variam entre 181 e 258 metros quadrados e têm preços entre R$ 6 milhões e R$ 9 milhões.

O wellness virou diferencial competitivo

O movimento acontece em um momento em que os empreendimentos de luxo se tornaram, visualmente, cada vez mais parecidos – fachadas assinadas, acabamentos importados, áreas gourmet sofisticadas e academias completas já viraram pré-requisito no segmento premium.

Nesse contexto, o wellness passou a figurar como uma nova camada de diferenciação no ramo, e por consequência uma variável que pode causar valorização dos imóveis.

Segundo levantamento do Global Wellness Institute, principal entidade de pesquisa sobre a economia do bem-estar, imóveis com foco em wellness conseguem atingir prêmios de preço de 10% a 25% maiores em relação a projetos convencionais equivalentes. Na prática, isso é um reflexo direto da crescente disposição dos consumidores de alta renda em pagar por conforto, hospitalidade, conveniência e experiências integradas de bem-estar.

O avanço desse modelo também aparece nos números globais do setor. O mercado de wellness real estate movimentou US$ 548,4 bilhões em 2024 e vem crescendo em ritmo muito superior ao da construção civil tradicional.

Entre 2019 e 2024, o segmento avançou 19,5% ao ano, enquanto a construção convencional registrou crescimento médio de 5,5% no mesmo período.

Após o mercado ter multiplicado de tamanho na última década, com a ascensão do wellness como tendêncai e sua escalada nas listas de prioridade, o instituto mira que esse mercado chegue a US$ 1,1 trilhão até 2029.

Crescimento do mercado de wellness, segundo o Global Wellness Institute

  • 2013: US$ 100 bilhões
  • 2017: US$ 148 bilhões
  • 2019: US$ 225 bilhões
  • 2024: US$ 584 bilhões
  • 2025: US$ 876 bilhões

Quando o bem-estar virou mercado

O wellness nasceu como um conceito ligado à ideia de equilíbrio entre corpo, mente e qualidade de vida. O termo começou a ganhar força nos anos 1960 dentro do meio acadêmico, mas levou décadas para sair dos livros e se transformar em uma indústria bilionária. Hoje, ele já não está restrito a spas, academias ou retiros de saúde. Virou uma lógica de consumo que atravessa praticamente todos os setores – da hotelaria à gastronomia, do turismo à tecnologia, da moda ao mercado imobiliário.

A mudança ajuda a explicar por que empresas passaram a vender menos “produtos” e mais sensação de bem-estar. Um dos nomes centrais nessa popularização foi o empresário italiano Nerio Alessandri, fundador da Technogym. A empresa ajudou a redefinir a relação entre luxo, performance e saúde ao transformar academias em espaços de design, tecnologia e experiência. Em 2024, a plataforma brasileira Gympass abandonou uma das marcas mais conhecidas do setor fitness para se reposicionar globalmente como Wellhub – justamente para refletir uma atuação mais ampla ligada a saúde mental, mindfulness, terapia, nutrição e qualidade de vida.

Existe também um componente cultural importante por trás desse movimento. O wellness cresce justamente em um momento em que as pessoas vivem mais cansadas, hiperconectadas e pressionadas pela lógica de produtividade permanente. Nos últimos anos, viralizou nas redes sociais uma frase do empreendedor Justin Welsh que resume bem essa sensação: “O luxo moderno é a capacidade de pensar com clareza, dormir profundamente, se mover lentamente e viver tranquilamente em um mundo projetado para impedir todos os quatro.”

Talvez seja justamente por isso que o conceito tenha encontrado terreno tão fértil no mercado imobiliário. Em um cotidiano marcado por trânsito, excesso de telas, ruído e falta de tempo, a casa deixou de ser apenas patrimônio ou símbolo de status. Aos poucos, passou a ser vendida como refúgio.

Casa virou sinônimo de refúgio

A pandemia apenas acelerou uma transformação que já começava a surgir globalmente: a casa deixou de ser apenas um endereço para se tornar um espaço de recuperação física, mental e emocional.

Ventilação natural, conforto acústico, iluminação solar adequada, integração com áreas verdes e ambientes silenciosos passaram a ganhar importância quase terapêutica dentro da experiência residencial. Em um cenário de hiperconexão, excesso de estímulos e rotina urbana acelerada, o imóvel passou a ser percebido também como ferramenta de desaceleração.

“Hoje vivemos hiperestimulados por telas e pela velocidade da vida urbana. O wellness aparece justamente como resposta a isso”, afirma Gabriel Gollnick, fundador da Where Consulting, consultoria especializada em branding e posicionamento para o mercado imobiliário de alto padrão.

Segundo ele, o setor imobiliário apenas absorveu um comportamento que já vinha transformando outras indústrias, como alimentação saudável, fitness, estética e hospitalidade. “O setor imobiliário sempre espelha movimentos de outras indústrias, e normalmente é o último a absorvê-los”, diz.

O conceito vai muito além de spas instagramáveis ou piscinas climatizadas. Nos projetos considerados verdadeiramente wellness, o bem-estar começa em elementos muitas vezes invisíveis da construção: orientação solar, circulação de ar, qualidade acústica, iluminação indireta, escolha de materiais, paisagismo e conexão com natureza.

A proposta é que o edifício funcione quase como um refúgio privado dentro da cidade. Corredores mais silenciosos, iluminação mais acolhedora, presença de vegetação, ambientes contemplativos e espaços desenhados para relaxamento passaram a ser planejados de forma intencional para reduzir a sensação de desgaste cotidiano.

O wellness contemporâneo também deixou de ser apenas individual para incorporar uma dimensão social. Áreas comuns passaram a ser desenhadas para convivência multigeracional, integração comunitária e desaceleração coletiva. “Os projetos tentam criar um gostinho de segunda residência dentro da primeira residência”, afirma Gollnick.

‘Wellness deixou de ser apenas piscina e academia’

Mas criar ambientes silenciosos, iluminados de forma acolhedora e cercados por natureza é apenas parte da equação. Para especialistas do setor, o wellness imobiliário começa na arquitetura, mas depende cada vez mais da operação cotidiana do condomínio para funcionar de maneira completa.

Segundo o CEO da Brain Inteligência Estratégica, Fábio Tadeu Araújo, um dos principais erros do mercado é reduzir o conceito a áreas de lazer sofisticadas. “Wellness não é apenas ter academia, piscina ou spa. Existe uma construção de experiência e serviços em torno disso”, afirma.

Ou seja: não basta apenas construir o espaço físico; é preciso que exista uma estrutura operacional capaz de ativar aquela experiência no dia a dia dos moradores.

“A academia pode nascer integrada a uma marca fitness. O spa pode operar em parceria com empresas especializadas. O incorporador entrega uma infraestrutura preparada para receber serviços associados ao wellness”, diz.

O wellness, portanto, deixa de ser apenas uma estética arquitetônica para se transformar em um modelo de moradia baseado em conveniência, desaceleração e qualidade de vida contínua.

Segundo levantamento da Brain, o conceito já exerce influência positiva na decisão de compra em praticamente todas as faixas de renda. Mas é entre os consumidores de maior poder aquisitivo que ele ganha força como elemento decisivo de valorização imobiliária.

Entre entrevistados com renda superior a R$ 20 mil mensais, 39% afirmam que atributos ligados a bem-estar influenciam “muito positivamente” a compra de um imóvel. Nas faixas de renda de até R$ 5 mil, esse percentual cai para 22%, uma diferença de 77%.

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