Portugal, Espanha, Estados Unidos, Uruguai, Paraguai e outros. O mapa da migração da alta renda brasileira muda mais rápido do que se imagina, e questões tributárias estão longe de ser o único fator na decisão
A busca por qualidade de vida, segurança e estabilidade jurídica tem levado um número crescente de brasileiros de alto patrimônio a estabelecer residência no exterior. Segundo estudo da consultoria Henley & Partners, o Brasil foi o país da América Latina que mais perdeu milionários em 2025. Foram 1.200 pessoas de alta renda deixando o país — uma saída que representa uma transferência estimada de US$ 8,4 bilhões (R$ 43 bilhões) em patrimônio.
O movimento, porém, não conta a história toda. De acordo com o Global Wealth Report 2026 do UBS, o Brasil também ganhou 9.215 novos milionários em 2025. Ou seja, mesmo somando fortunas, o país segue perdendo uma fatia de sua elite econômica para o exterior.
O que pesa na decisão?
Portugal, Espanha e Estados Unidos seguem no topo das preferências, mas o radar tem se ampliado para vizinhos como Uruguai e Paraguai, ação que reflete tanto o ambiente político brasileiro quanto o apelo de regimes tributários mais competitivos e a proximidade geográfica com o país de origem. “O movimento de avaliação de redomicílio é cíclico e, no Brasil, costuma se intensificar em épocas próximas a eventos macroeconômicos relevantes, como eleições, por exemplo”, explica Yuri Freitas, Head de Wealth Planning para o Brasil no UBS Global Wealth Management.
O especialista comenta que, ainda assim, nem todos os clientes que buscam informações acabam tomando a decisão — os que, de fato, se mudam, são no geral minoria. Fatores como proximidade com familiares e amigos, acesso a médicos e hospitais de confiança e círculos sociais já estabelecidos costumam pesar na palavra final. “Mudar de país é uma decisão multifatorial e, idealmente, não deveria ser tomada apenas por questões fiscais”, destaca Yuri Freitas.
Além disso, há a proximidade geográfica. Para famílias que deixam conexões no Brasil, o país vizinho pode ser uma alternativa. No entanto, Freitas do UBS alerta que essa praticidade pode gerar viagens frequentes que, dependendo do tempo passado em solo brasileiro, acabam configurando residência fiscal no Brasil de forma inadvertida. “Isso pode trazer consequências tributárias complicadas mesmo sem a intenção”, afirma.
Para entender o que está por trás de toda essa movimentação, a Forbes Brasil conversou comYuri Freitas. Confira a entrevista completa a seguir.
Onde brasileiros de alta renda preferem morar?
A maioria das pessoas costuma concentrar o interesse em regiões como Europa, Estados Unidos e até em alguns destinos vizinhos. Dentro desses polos, países comoItália, Portugal,Estados Unidos,UruguaieParaguaicostumam aparecer entre as possibilidades, embora não sejam os únicos na mente dessas famílias.
Portugal ainda aparece no topo da lista ou já perdeu espaço?
Portugal segue sendo um dos destinos que tradicionalmente despertam interesse, especialmente entre brasileiros. A similaridade cultural e o fato de compartilharmos o mesmo idioma são fatores que, por si só, já contribuem para essa atratividade histórica.
Além disso, aspectos como a percepção de segurança e a facilidade de acesso a outros países da zona Schengen (área que abrange 29 países europeus que permite a livre circulação de pessoas).Por estes motivos, diria que o interesse por Portugal é uma constante na última década.
Que país apareceu mais no radar dos milionários nos últimos 2 anos?
Alguns países da América Latina, comoUruguai e Paraguai, passaram a aparecer com mais frequência nas conversas. É um movimento que pode estar associado a fatores como a proximidade geográfica, a percepção (correta ou não) de maior estabilidade política e jurídica, e regimes tributários considerados competitivos.
O que influencia na escolha do país?
A decisão envolve uma combinação fatores. Isso inclui estabilidade política e jurídica, segurança pública, oportunidades de educação e negócios, aspectos culturais, tipo de convívio social desejado, proximidade ou distância do Brasil e o local onde os negócios da família estão estruturados.
Alémdesses elementos, é indispensável um planejamento pré-imigratório. Esse processo envolve uma análise do planejamento patrimonial, sucessório e de governança da família e de como essas estruturas se relacionam com as leis vigentes no país de destino.
Como os Estados Unidos entram nessa decisão, considerando diferenças entre estados, impostos e legislação?
Assim como Portugal, o interesse pelos EUA é sempre uma constante.Inclusive, o paístende a ser o principal destinoentre as gerações mais jovens, que tiveram uma formação bilíngue e acabam se mudando para lá para cursar o ensino médio ou a faculdade.
No mesmo sentido,parte dosempresários tambémavalia os Estados Unidos sob a ótica do acesso a ummercado consumidoramplo e a um ambiente que costuma ser percebido como um bom local pra empreender e/ou desenvolver negócios.De toda forma, o cuidado com a tomada de decisão o com o devido planejamento pré-imigratório persiste. É um paíscom sistemas jurídico e regulatório com forte componente estadual, podendo gerar impactos relevantes. Direito de família, por exemplo, é assunto de lei estadualporlá.Dito isso,assinar um pacto “pós-nupcial”, por exemplo,que observe a lei do estado onde se pretende morar é um ponto relevante e que costuma ser desconsiderado.
Também,o sistema tributário norte-americano é um dos mais complexos do mundo, assim como o nosso, reforçando a importância de uma análise das estruturas patrimoniais e de governança antes de tomar uma decisão.
Quando o assunto é educação para os filhos, quais destinos aparecem no topo da lista?
Os EUA frequentemente aparecem como um dos principais lugares de interesse, em grande parte pela diversidade e reconhecimento internacional de suas instituições de ensino.
Ainda assim, outros lugares também podem ser considerados, especialmente na Europa, a depender das preferências da família, do perfil acadêmico desejado e do momento de vida dos estudantes. Como nos demais casos, a escolha tende a refletir uma combinação de fatores, e não um único critério isolado.
Se você tivesse que apontar três destinos para ficar de olho nos próximos cinco anos, quais seriam?
Difícil prever. O interesse pelos países muda muito rapidamente conforme mudanças jurídicas, políticas, tributárias e sociais. O movimento de resistência a estrangeiros que temos visto em alguns países europeus, por exemplo, foi uma mudança que não poderia ter sido antecipada.
De todo modo, acredito que os destinos que já aparecem tradicionalmente no radar devem continuar em alta nos próximos anos, ainda que o nível de interesse possa variar ao longo do tempo.