O israelense Uri Levine odeia congestionamento. Foi essa irritação, e não uma epifania tecnológica, que o levou a criar o Waze, aplicativo que o Google comprou em 2013 por US$ 1,1 bilhão. Anos depois, o mesmo raciocínio gerou o Moovit, plataforma de mobilidade urbana vendida à Intel em 2020 por US$ 1 bilhão. Entre as duas transações, Levine construiu uma tese que hoje ensina a milhares de fundadores: startups não morrem por falta de ideia. Morrem por excesso de apego à solução e falta de obsessão pelo problema.
Essa tese virou o best-seller Fall in Love with the Problem, Not the Solution (“Apaixone-se pelo problema, não pela solução”) , elogiado por Steve Wozniak, cofundador da Apple, como “a bíblia dos empreendedores”. Investidor ativo em startups em estágio inicial e professor de prática nos programas de MBA da IE University, na Espanha, e da Universidade de Tel Aviv, agora ele vira professor em escala. Levine escolheu o Brasil, não os Estados Unidos nem Israel, para lançar a Uri Levine Startup Academy, plataforma de ensino que estreia em cerca de um mês com a promessa de treinar 100 mil empreendedores.
A escolha tem lógica de investidor, não de gesto simbólico. Quando o Waze chegou ao país, em 2011, o Brasil não tinha um único unicórnio, e a América Latina inteira tinha apenas um, o Mercado Livre. Hoje, são mais de 50 na região, vários deles brasileiros: Nubank, Stone, Ifood, e outros que Levine cita como prova de um ecossistema que amadureceu rápido demais para ensinar a si mesmo. “O Brasil me ajudou a alcançar o sucesso; agora, eu quero ajudar o Brasil a ser ainda mais bem-sucedido.”
Nesta entrevista, Levine detalha por que a métrica que decide o destino de uma startup não é crescimento, é retenção; por que todo fundador deveria esperar fracassar – e fracassar rápido; e por que a inteligência artificial, na visão dele, não elimina a vantagem competitiva de uma empresa, apenas desloca essa vantagem da tecnologia para os dados exclusivos e o conhecimento do cliente.
“Se você não estiver usando IA para aumentar sua produtividade, vai perder para alguém que esteja.”
Ele também aponta onde nascerão os próximos unicórnios brasileiros, e o setor mais óbvio, fintech, não é um deles. Na visão dele, o Brasil já resolveu a parte fácil do problema financeiro; falta atacar previdência, planejamento de aposentadoria, além de agricultura, educação e saúde, áreas que ele considera ainda pouco tomadas por tecnologia. “Acredito que o Brasil ainda verá muitos outros unicórnios no setor financeiro, mas também acredito que veremos mais unicórnios nos segmentos de agricultura, educação e saúde.”
Há ainda a pergunta que todo fundador em dificuldade se faz: quando é a hora de desistir. Levine é direto: para ele, fundador não desiste, salvo em uma única circunstância. “Quando o problema deixa de existir. Nesse caso, faz sentido desistir.” Ele também explica por que, segundo ele, faltam ao Brasil apenas dois ingredientes para repetir o Waze em escala – educação de longo prazo e experiência prática de quem já construiu unicórnios. E por que a corrupção, apontada com frequência como entrave ao empreendedorismo local, não é, na visão dele, desculpa para não empreender. “Se você é empreendedor e diz para si mesmo: ‘Não vou abrir uma empresa aqui por causa da corrupção, dos juros altos ou de qualquer outro problema’, essa não é a atitude correta.”
A seguir, veja a conversa completa.
Forbes: Qual problema vocês estavam tentando resolver quando criaram o Waze e o Moovit?
Uri Levine: No caso do Waze, eu odeio congestionamentos. Sempre tive a sensação de que estava desperdiçando meu tempo e, ao mesmo tempo, não sabia qual caminho escolher. Qual era a rota mais rápida naquele momento? Foi por isso que começamos. Criamos o Waze porque eu odeio congestionamentos. E a decisão foi: vamos ajudar os motoristas a evitarem o trânsito.
Agora, quando você olha para o impacto do Waze no Brasil, ele acaba sendo muito maior do que imaginávamos. No início, pensávamos que o principal valor seria economizar tempo, ajudando os motoristas a evitar congestionamentos. Mas depois percebemos que, se você perguntar às pessoas por que elas usam o Waze, mesmo em trajetos curtos, a resposta costuma ser outra: “Porque ele me diz o horário estimado de chegada. Eu sei exatamente quando vou chegar.” Ou seja, nós criamos previsibilidade. E previsibilidade tem um valor muito maior do que simplesmente economizar tempo.
No Brasil, em especial, essa previsibilidade permite que as pessoas planejem melhor a rotina. Se você pensar no trânsito de São Paulo, que é realmente muito ruim, essa informação faz com que você consiga chegar no horário. Você sabe se conseguirá estar em uma reunião às 10 horas da manhã do dia seguinte. Essa capacidade de planejamento acabou criando muito mais valor no Brasil do que em muitos outros lugares. Foi isso que fez o Waze gerar tanto impacto no país.
Forbes: Você sempre acreditou que o Waze e o Moovit poderiam se tornar empresas globais?
Uri Levine: Sim, com certeza. O problema que estávamos resolvendo é global. É muito simples. Congestionamentos existem em qualquer lugar onde existam pessoas e motoristas. Da mesma forma, onde há transporte público, há falta de informação para os usuários. Por isso, sabíamos que o produto tinha potencial global. Nós sabíamos que, se conseguíssemos resolver esse problema com sucesso, a empresa poderia se tornar uma companhia global muito relevante.
Forbes: Quais foram os maiores desafios durante a construção dessas soluções?
Uri Levine: Construir uma startup – ou construir uma empresa desde o começo e transformá-la em um unicórnio – é uma jornada. Você precisará realizar muitos experimentos para comprovar sua tese ou encontrar uma forma de gerar valor. É uma jornada longa. Uma verdadeira montanha-russa de fracassos. Por isso, você precisa aprender a passar por diferentes fases dessa jornada. É preciso aceitar que haverá altos e baixos o tempo todo, e é preciso aceitar que essa será uma trajetória marcada por fracassos. Se você tem medo de fracassar, na verdade já fracassou, porque simplesmente não vai tentar. Se você tentar fazer coisas novas, inevitavelmente vai fracassar em algum momento. Espere fracassar e, em segundo lugar, fracasse rápido, porque quando você fracassa rapidamente, ainda tem bastante tempo para fazer uma nova tentativa, depois outra, e mais outra.
Espere fracassar e, em segundo lugar, fracasse rápido, porque quando você fracassa rapidamente, ainda tem bastante tempo para fazer uma nova tentativa, depois outra, e mais outra.
Forbes: O que diferencia quem consegue superar os desafios de quem fracassa?
Uri Levine: A primeira fase é encontrar o chamado product-market fit. Product-market fit significa que você criou valor para seus clientes. Se você não encontrar o product-market fit, sua empresa vai morrer. Você nunca ouviu falar de uma empresa que não encontrou product-market fit. Essas empresas simplesmente desapareceram. Ao longo desse processo, existe apenas uma métrica realmente importante: retenção. É muito simples. Se você cria valor, as pessoas voltam a usar o seu produto. Se elas não voltam, significa que você não está criando valor. E o valor não está na sua cabeça. O valor está na cabeça dos seus clientes, dos seus usuários. São eles que precisam dizer: “Sim, isso é valioso para mim.”
Forbes: Mas por que você escolheu o Brasil para lançar a Founders Academy em vez de outro país da América Latina?
Uri Levine: Porque eu gosto do Brasil.
Forbes: Só por isso?
Uri Levine: Só isso já seria um motivo suficiente. Mas eu diria o seguinte: eu tive muito sucesso com o Waze no Brasil. O mesmo aconteceu com o Moovit. E também com este livro, “Apaixone-se pelo problema, não pela solução”. O livro acabou fazendo mais sucesso no Brasil do que em outros países. Acho que descobri uma forma de criar valor para os brasileiros. Então, em primeiro lugar, quero continuar criando valor para as pessoas no Brasil. Em segundo lugar, quero retribuir. O Brasil me ajudou a alcançar o sucesso e agora eu quero ajudar o Brasil a ser ainda mais bem-sucedido.
O Brasil me ajudou a alcançar o sucesso e agora eu quero ajudar o Brasil a ser ainda mais bem-sucedido.
Forbes: Como vai funcionar a Uri Levine Startup Academy?
Uri Levine: A ideia é ajudar empreendedores – e pessoas que desejam empreender ou desenvolver seus negócios – a terem mais sucesso. A academia reúne tudo o que eu aprendi ao longo da minha trajetória: todo o meu conhecimento sobre como construir unicórnios, criar startups bem-sucedidas e também startups que fracassaram. Vou pegar toda essa experiência e compartilhá-la com outras pessoas. Tenho duas características muito fortes. Uma delas é que sou empreendedor. A outra é que sou professor.
Sinto a mesma satisfação tanto quando construo algo quanto quando ajudo outra pessoa a construir. Aliás, foi exatamente por isso que escrevi outro livro, “Simple Wins”. Esse livro, inclusive, por enquanto foi publicado apenas no Brasil. Depois será lançado em outros países. Mas comecei pelo Brasil. E a academia também vai começar pelo Brasil. Porque há uma boa notícia: o Brasil é um mercado enorme. Há muitas pessoas que querem empreender. Há muitas pessoas que estão se tornando empreendedoras. E o que elas precisam é de orientação, experiência e conhecimento que aumentem suas chances de sucesso. É por isso que estamos lançando a academia no Brasil. Ela será inaugurada em cerca de um mês. A Uri Levine Startup Academy nasce com um objetivo muito simples: ajudar as pessoas a terem mais sucesso.
Forbes: O que mais chama sua atenção no ecossistema de startups brasileiro?
Uri Levine: É interessante. Quando você faz parte de um ecossistema, olhando de dentro, muitas vezes não percebe as mudanças. Ou leva muito tempo para enxergá-las. Eu observo o Brasil de fora. E, dessa perspectiva, fica muito mais fácil perceber tanto as mudanças quanto a velocidade com que elas aconteceram. Quando lancei o Waze no Brasil, em 2011, não existia sequer um unicórnio brasileiro. Nem um. Se olharmos para toda a América Latina, havia apenas um unicórnio: o Mercado Livre. Hoje existem mais de 50 unicórnios na América Latina. E vários deles são brasileiros. Mais do que isso, são empresas extremamente bem-sucedidas. Do Nubank à Stone e a tantas outras companhias que nasceram como startups e se transformaram em grandes empresas. E continuamos vendo cada vez mais casos como esses.
Quando lancei o Waze no Brasil, em 2011, não existia sequer um unicórnio brasileiro. Se olharmos para toda a América Latina, havia apenas um unicórnio: o Mercado Livre. Hoje existem mais de 50 unicórnios na América Latina.
Forbes: Quais os pilares que ajudaram nessa evolução?
Uri Levine: Se pensarmos no que compõe um ecossistema de inovação bem-sucedido, o primeiro elemento são os empreendedores. Sem empreendedores, não existe inovação. Não existem startups. Não existe nada. Hoje, no Brasil, esse medo é muito menor do que era há 15 anos. Esse é um avanço muito importante do ecossistema brasileiro.
O segundo elemento é o investimento. Os investidores procuram boas oportunidades de investimento e, naturalmente, buscam empresas que tenham potencial para gerar bons resultados. Acho que o Brasil mudou muito nesse aspecto. Hoje é muito mais simples investir em startups no país. O resultado é que existem muito mais investidores hoje do que havia 15 anos. Ainda não estamos na mesma escala dos Estados Unidos, nem de ecossistemas como Londres, Berlim ou Tel Aviv, mas a situação é muito melhor do que era antes.
O terceiro elemento, que era fundamental até cerca de três anos atrás, era a engenharia. E digo “era” porque, com a inteligência artificial, hoje é possível fazer muito mais em engenharia do que era possível até pouco tempo atrás. No Waze, tínhamos uma equipe de pesquisa e desenvolvimento (P&D) muito forte. Mas, se eu tivesse que construir o Waze hoje, provavelmente faria isso com apenas 20% das pessoas e em 20% do tempo. É uma melhoria de ordem de grandeza.
Se eu tivesse que construir o Waze hoje, provavelmente faria isso com apenas 20% das pessoas e em 20% do tempo.
O quarto elemento talvez seja o mais importante de todos: a experiência. Se pensarmos nesses quatro pilares – empreendedores, investidores, engenharia e experiência – percebemos que aquilo que realmente falta hoje ao ecossistema brasileiro é justamente a experiência. Já começamos a ver iniciativas sendo criadas para preencher essa lacuna, como a P55, desenvolvida com André Street, da Stone, além dos fundadores do Nubank e da XP Investimentos. A ideia é justamente reunir experiência em uma estrutura capaz de ajudar empresas a terem mais sucesso.
Forbes: Como a Uri Levine Startup Academy pretende trabalhar esses pilares?
Uri Levine: Pretendemos fazer isso em uma escala muito maior, simplesmente porque será uma plataforma online. Obviamente, não é a mesma coisa que um encontro presencial. Mas é muito melhor ter 100 mil pessoas aprendendo pela internet, participando de aulas e, em alguns casos, de encontros regulares pelo Zoom, do que reunir apenas 100 pessoas em uma sala. O formato presencial é mais poderoso, sem dúvida. Mas ele não é escalável. Nossa proposta é levar essa experiência, esse conhecimento prático e esse know-how para 100 mil pessoas no Brasil, ajudando-as a aumentar suas chances de construir negócios bem-sucedidos.
Forbes: O Brasil e a América Latina enfrentam muitos desafios econômicos, como juros elevados e instabilidade política. Isso preocupa quem está construindo uma startup ou, de certa forma, acaba ajudando porque incentiva as pessoas a resolverem esses problemas?
Uri Levine: O Brasil provavelmente tem um dos maiores potenciais do mundo para se tornar uma potência econômica. Quando você olha para o território brasileiro, percebe que praticamente tudo o que pode ser cultivado no planeta cresce aqui. O país possui recursos naturais extraordinários. Tem uma população incrível. São cerca de 220 milhões de habitantes. Por tudo isso, o Brasil poderia estar entre as três ou cinco maiores economias do mundo.
O país possui recursos naturais extraordinários. Tem uma população incrível. São cerca de 220 milhões de habitantes. Por tudo isso, o Brasil poderia estar entre as três ou cinco maiores economias do mundo.
Então, a pergunta é: o que está impedindo isso? Eu diria que existem alguns fatores. Parte disso é algo bastante comum: praticamente em qualquer lugar do mundo as pessoas não estão satisfeitas com seus governos. Acho que isso acontece em Israel, no Brasil e na maioria dos países. Mas o que realmente faz falta é uma liderança com visão de longo prazo, disposta a investir durante uma década ou mais em educação. Esse é o tipo de decisão que muda completamente a trajetória de um país.
Espero que surja alguém capaz de assumir essa liderança e conduzir o Brasil para um caminho completamente diferente. É claro que, quando olhamos para a América Latina, a corrupção aparece como um problema. Mas a corrupção não é um desafio exclusivo desta região. Ela também existe em Israel e em diversos outros países. Por isso, quando analisamos o ambiente de negócios, o mais importante é assumir que somos responsáveis pelo nosso próprio destino. Se você é empreendedor e diz para si mesmo: “Não vou abrir uma empresa aqui por causa da corrupção, dos juros altos ou de qualquer outro problema”, essa não é a atitude correta. O pensamento deveria ser outro: “Vou construir uma empresa de sucesso independentemente do ambiente em que estou inserido.” E vou empreender aqui porque, se houver muitas pessoas fazendo o mesmo no Brasil, todas criando empresas e resolvendo problemas, então conseguiremos transformar o país em um lugar mais bem-sucedido.
Forbes: O Brasil tem muitas fintechs. Na América Latina, é o país com o maior número de startups desse setor. Você acredita que é necessário criar startups em outras áreas?
Uri Levine: Com certeza. O motivo de existirem tantas fintechs no Brasil e na América Latina é que esse era um problema relativamente fácil de resolver. Quando olhamos para um problema, precisamos nos perguntar: o que podemos resolver por conta própria, independentemente do ambiente e dos governos? Não queremos depender de ninguém.
Queremos simplesmente agir rápido. Então você pode pensar: agricultura. Uma das minhas startups, por exemplo, chama-se SeeTree. Ela ajuda produtores rurais a enxergarem cada árvore individualmente por meio de tecnologia e análise de dados. Essa empresa acabou sendo muito bem-sucedida no Brasil, porque o país é um dos maiores produtores de árvores do mundo. E existem muitas outras oportunidades. Qualquer problema que você enxergue, eu diria que deve ser visto como uma oportunidade. Pergunte a si mesmo: E se conseguirmos eliminar esse problema?
Qualquer problema que você enxergue, eu diria que deve ser visto como uma oportunidade. Pergunte a si mesmo: E se conseguirmos eliminar esse problema?
Agora, se você disser: “Espere um pouco, eu não tenho nenhum poder para mudar isso. Não estou em posição de fazer algo porque tudo depende do Banco Central ou de outra autoridade”, então eu responderia: Não tente resolver esse problema. Mas, se você pode gerar algum impacto, então comece.
Forbes: Quais setores existem as melhores oprotunidades?
Uri Levine: Educação. Saúde. Essas são áreas em que certamente podemos fazer muito. E eu iria além. O Brasil não é o único país que enfrenta dificuldades na educação ou no sistema de saúde. Todos os países têm problemas nessas áreas. Outro setor importante é o de energia. Aliás, o Brasil está muito à frente nesse campo. O país utiliza etanol, ou seja, transforma cana-de-açúcar em combustível para movimentar veículos. É o único país do mundo que faz isso em larga escala. Se você pensar nisso, perceberá que a cana-de-açúcar é um recurso renovável. Ela pode ser cultivada repetidamente, ano após ano. Isso coloca o Brasil em uma posição muito forte do ponto de vista energético. Ao mesmo tempo, eu diria: talvez existam outras áreas da energia nas quais possamos gerar um impacto significativo. Portanto, sim, vejo muitas áreas nas quais vale a pena empreender. Sempre procuro identificar problemas que realmente merecem ser resolvidos, que afetam um número grande de pessoas. Se houver um público suficientemente grande sofrendo com esse problema e se for possível gerar impacto, então vale a pena tentar resolvê-lo.
Sempre procuro identificar problemas que realmente merecem ser resolvidos, que afetam um número grande de pessoas.
Forbes: Se você fosse criar uma startup hoje, que tipo de empresa construiria?
Uri Levine: A Uri Levine Startup Academy (risos). Sou um professor apaixonado. Dou aulas em diversas universidades. E, quando ensino, tenho um único objetivo: que meus alunos levem dali algo que realmente os ajude a se tornar mais bem-sucedidos. Quando isso acontece, sinto que fui recompensado. Então esse projeto nasce da minha paixão. Também nasce de uma necessidade muito clara. Quando converso com empreendedores brasileiros, às vezes fico surpreso com o quanto eles ainda desconhecem sobre empreendedorismo. Então existe a paixão. Existe a oportunidade. E, no fim das contas, todas as minhas startups compartilham um mesmo princípio: fazer o bem e, ao mesmo tempo, construir um bom negócio.
Quando converso com empreendedores brasileiros, às vezes fico surpreso com o quanto eles ainda desconhecem sobre empreendedorismo
Forbes: Quando você analisa uma ideia, qual é o principal detalhe que faz você pensar: “Isso tem potencial para dar certo”?
Uri Levine: Validar o problema. E você valida um problema conversando com as pessoas e entendendo como elas o percebem. Se elas enxergam aquele problema como algo realmente doloroso, algo que precisam resolver, então você começa a fazer outras perguntas. O que isso significa na prática? Como elas lidam com esse problema hoje? Quais alternativas utilizam? Aliás, na academia existe um módulo inteiro dedicado à validação de mercado. E ele não começa pelo mercado. Começa pelas pessoas, porque você quer entender como elas percebem o problema. Quer medir o quanto aquele problema realmente dói. Quer saber o que fazem hoje para lidar com ele. Elas conseguem contar a própria história sobre esse problema? Quando alguém consegue descrever claramente a dificuldade que enfrenta, isso costuma ser um sinal de que existe um problema muito forte.
Quando alguém consegue descrever claramente a dificuldade que enfrenta, isso costuma ser um sinal de que existe um problema muito forte.
Na maioria das vezes, porém, o que encontramos são problemas que as pessoas ainda nem perceberam claramente. Depois de validar o problema, o passo seguinte é medir o seu tamanho. É preciso entender qual é a dimensão dessa dor. Depois disso, você pergunta: “Se eu resolver esse problema, quanto as pessoas estariam dispostas a pagar para que ele desaparecesse?” Validar o problema é sempre o primeiro passo da minha jornada. Eu sempre começo pelo problema. Em muitos casos, parto de problemas que eu mesmo vivi ou observei de perto, porque é mais fácil compreendê-los. Mas existe um aspecto ainda mais importante na validação.
Validar o problema é sempre o primeiro passo da minha jornada. Eu sempre começo pelo problema.
Sempre comece pelo “quem”. Quem é a pessoa? Quem é a empresa? Quem é a organização que realmente sofre com esse problema? Se você simplesmente me disser que “existe um problema no mercado”, isso não significa muita coisa. O mercado não sente dor. Pode haver ineficiências no mercado, mas, se as pessoas não acreditam que têm um problema, elas não vão agir. E, se você quer construir uma startup de sucesso, precisa fazer com que as pessoas ajam. Elas precisam sentir necessidade de fazer alguma coisa para resolver aquele problema.
O mercado não sente dor. Pode haver ineficiências no mercado, mas, se as pessoas não acreditam que têm um problema, elas não vão agir.
Forbes: Você acredita que a inteligência artificial pode mudar a forma como as startups são criadas e escaladas?
Uri Levine: Com certeza. A inteligência artificial representa uma verdadeira revolução em produtividade. No desenvolvimento de software, por exemplo, hoje é possível fazer as coisas cinco ou até dez vezes mais rápido. Isso significa que o desenvolvimento de produtos – especialmente a fase de criação de protótipos – será muito mais ágil. Ao mesmo tempo, essa tecnologia também cria novos desafios para o mercado. Se um empreendedor me disser: “Olha o que consegui construir em duas semanas”, eu responderei: “Isso é realmente impressionante.” Mas também direi que provavelmente existem outras cem pessoas que construíram exatamente a mesma coisa nas mesmas duas semanas.
O verdadeiro desafio passa a ser levá-lo ao mercado. É fazer com que as pessoas realmente utilizem esse produto. É executar uma boa estratégia de go-to-market, conquistar usuários e crescer. Os desafios continuam existindo. O que muda é a forma como eles se apresentam. O mais importante é entender que, se você não estiver usando inteligência artificial para aumentar sua produtividade, acabará perdendo para alguém que esteja. Por isso, você precisa usar IA. Se existe alguma atividade de escritório que você ainda realiza sem recorrer à inteligência artificial, provavelmente está cometendo um grande erro. Você definitivamente deveria utilizá-la. Eu diria, inclusive, que as pessoas precisam aprender muito mais sobre tudo o que podem fazer com essa tecnologia.
De maneira geral, se você pretende construir uma empresa cuja oferta seja baseada em inteligência artificial, precisará encontrar uma forma clara de se diferenciar. Será necessário ter dados exclusivos ou uma vantagem competitiva única que ninguém mais possua. Porque, se aquilo que sua empresa faz puder ser facilmente incorporado ao OpenAI, ao ChatGPT, ao Gemini, ao Claude ou a qualquer outro grande modelo de IA, você provavelmente perderá essa disputa. Essas empresas já têm milhões de usuários. Mas, se a sua vantagem estiver baseada em dados exclusivos ou em uma tração que ninguém mais consegue replicar, então a história é diferente.
Forbes: O Brasil já criou unicórnios no segmento financeiro, de delivery e em outros segmentos. Na sua opinião, quais setores podem dar origem aos próximos unicórnios brasileiros?
Uri Levine: Acredito que o Brasil ainda verá muitos outros unicórnios no setor financeiro, mas também acredito que veremos mais unicórnios nos segmentos de agricultura, educação e saúde. Pense no Nubank: ele resolveu uma parte do mercado. A XP Investimentos resolveu outra. Mas e a previdência? E o planejamento para a aposentadoria? Hoje praticamente ninguém está atacando esse problema. O problema é o mesmo no mundo todo, porém os mercados financeiros e as regulamentações variam de país para país. Por isso, para ter sucesso em um determinado mercado, é preciso desenvolver uma solução específica para aquele país. Na área de educação já existem muitas empresas inovando, mas boa parte delas ainda não é realmente orientada por tecnologia. Acredito que veremos cada vez mais soluções tecnológicas nesse setor. Também veremos um crescimento importante das healthtechs. Hoje já existe a possibilidade de realizar diagnósticos médicos remotos. Além disso, a inteligência artificial permite tornar os diagnósticos mais rápidos e mais precisos. Por isso, veremos cada vez mais empresas surgindo nessa área. Portanto, vejo muitas áreas com problemas que realmente valem a pena ser resolvidos. E continuaremos vendo novas empresas surgirem para enfrentar esses desafios.
Acredito que o Brasil ainda verá muitos outros unicórnios no setor financeiro, mas também acredito que veremos mais unicórnios nos segmentos de agricultura, educação e saúde.
Existem muitas oportunidades no Brasil. E elas surgem, basicamente, de duas formas. A primeira é identificar problemas que ainda não foram resolvidos. A segunda é observar soluções que deram certo em outros países e adaptá-las às necessidades do mercado brasileiro. O iFood, por exemplo, não foi o primeiro serviço de entrega de comida. Antes dele vieram empresas como a Deliveroo, depois DoorDash, Uber Eats e várias outras plataformas ao redor do mundo. Mas uma coisa é copiar uma ideia. Outra, completamente diferente, é se tornar líder de mercado.
Existem muitas oportunidades no Brasil. E elas surgem, basicamente, de duas formas. A primeira é identificar problemas que ainda não foram resolvidos. A segunda é observar soluções que deram certo em outros países e adaptá-las às necessidades do mercado brasileiro.
Forbes: Em algum momento da sua trajetória você pensou em desistir enquanto construía o Waze e o Moovit? E o que fez você continuar?
Uri Levine: Como eu disse antes, construir uma startup é uma montanha-russa. Há momentos de alta e momentos de baixa. E isso acontece muitas vezes. Em vários desses momentos, você olha para a situação e se pergunta: “Por que escolhi esse caminho?” Porque é doloroso. Há momentos em que você realmente odeia essa jornada. Mas você não desiste. Não desistir é, talvez, a característica mais importante de um fundador de startup, especialmente no início.
Na prática, quando você monta a equipe certa e consegue atrair pessoas para compartilhar essa jornada com você – pessoas verdadeiramente comprometidas com a missão da empresa -, fica muito mais difícil desistir. Você não vai desistir por causa delas. E elas também não vão desistir por sua causa. Por isso, formar uma equipe forte é uma das melhores maneiras de continuar seguindo em frente.
Formar uma equipe forte é uma das melhores maneiras de continuar seguindo em frente.
Forbes: Existe um momento certo para desistir?
Uri Levine: Para um fundador, não. Fundadores simplesmente não desistem. Agora, se você me perguntar se existe uma boa razão para abandonar uma startup, eu diria que sim. Quando o problema deixa de existir. Nesse caso, faz sentido desistir. Minha primeira startup, criada há mais de 25 anos, trabalhava com e-mail em dispositivos móveis.
Quando o problema deixa de existir. Nesse caso, faz sentido desistir.
Hoje isso parece algo absolutamente comum. Você pega o celular e lê seus e-mails sem nem pensar no assunto. Mas, naquela época, isso era praticamente impossível. Nós desenvolvemos uma solução para esse problema. Depois, a Research In Motion lançou o BlackBerry. O BlackBerry mudou completamente a percepção do mercado. O problema que estávamos resolvendo simplesmente deixou de existir. E, quando o problema desaparece, aí sim eu diria: é hora de desistir.
Forbes: Que conselho você daria para alguém que está criando sua primeira startup hoje?
Uri Levine: No início de uma startup, tudo parece ter a mesma prioridade. Mas, de repente, você percebe que não é assim. Eu diria: “Espere um pouco. Isso não é importante agora.” Não desperdice esforço. Não desperdice recursos. Não desperdice tempo com isso, porque simplesmente não é prioridade. Ou, em alguns casos, aquilo até é importante, mas não neste momento. Agora você precisa concentrar sua atenção em outra coisa. Mais adiante haverá tempo para lidar com o restante. Por exemplo, se você tentar vender seu produto antes que ele esteja pronto, provavelmente vai fracassar.
Se você tentar vender seu produto antes que ele esteja pronto, provavelmente vai fracassar.
Porque o produto ainda não está pronto. Isso significa que você ainda não conquistou retenção. E, sem retenção, mesmo que consiga clientes, eles não permanecerão com você. Eles irão embora. Portanto, não faz sentido gastar energia trazendo clientes que você inevitavelmente perderá. Esses são exatamente os tipos de coisas que você não sabe quando está começando. Se você confiar apenas na sua intuição, em alguns casos poderá acertar. Mas, na maioria das vezes, quando falta experiência, essa intuição simplesmente não existe.
Se você confiar apenas na sua intuição, em alguns casos poderá acertar. Mas, na maioria das vezes, quando falta experiência, essa intuição simplesmente não existe.
Por isso, acredito que esse é o caminho mais rápido para adquirir conhecimento sobre a jornada de construir uma startup. Você ficará dez vezes mais preparado para entender esse processo e saber o que realmente precisa fazer. E terá cinco vezes mais chances de construir uma empresa bem-sucedida.