A inteligência artificial costuma ser apresentada como uma das principais forças capazes de elevar a produtividade global, reduzir custos e ajudar bancos centrais a controlar a inflação. Para Janet Yellen, porém, esse cenário ainda está distante. Na avaliação da ex-secretária do Tesouro dos Estados Unidos e ex-presidente do Federal Reserve, o efeito imediato da IA tem sido justamente o oposto: aumentar as pressões inflacionárias.
Em entrevista à Forbes Brasil, durante o XP Expert, Yellen afirmou que o atual ciclo de investimentos em infraestrutura para inteligência artificial está criando novos focos de pressão sobre preços ao impulsionar a demanda por semicondutores, eletricidade e grandes centros de processamento de dados. “No curto prazo, acho que está claro que os efeitos da inteligência artificial são, se alguma coisa, aumentar a inflação, e não reduzi-la.”
A avaliação contrasta com uma narrativa que ganhou força entre investidores e formuladores de política econômica de que a IA poderá repetir o efeito de outras revoluções tecnológicas, elevando a produtividade da economia e permitindo crescimento com menor inflação. Segundo Yellen, esse processo pode até ocorrer, mas ainda não começou em escala suficiente para alterar o comportamento agregado da economia americana.
A produtividade ainda não apareceu
Para a economista, a inteligência artificial já afeta alguns setores específicos e influencia decisões de contratação de empresas mais expostas à tecnologia. No entanto, seus ganhos ainda não aparecem nos indicadores agregados de produtividade dos Estados Unidos. “Até agora, embora a IA esteja afetando alguns setores muito expostos à tecnologia e influenciando contratações, ainda não vemos um impacto agregado sobre a produtividade da economia americana.”
Ela lembra que grandes transformações tecnológicas costumam demorar anos para produzir efeitos macroeconômicos, porque exigem mudanças profundas na organização das empresas.
“Normalmente, isso leva bastante tempo. As empresas precisam passar por mudanças organizacionais para capturar os ganhos de produtividade.” Embora reconheça que alguns analistas acreditam que a inteligência artificial poderá acelerar esse processo, Yellen afirma que ainda é cedo para concluir que isso ocorrerá.
O custo da revolução da IA
Enquanto os ganhos de produtividade permanecem incertos, os investimentos necessários para sustentar a expansão da inteligência artificial já produzem efeitos concretos sobre preços. Segundo Yellen, a corrida para construir data centers e ampliar a capacidade computacional tem impulsionado uma onda de investimentos que pressiona diversos segmentos da economia.
“Estamos vivendo um boom de investimentos, tanto em infraestrutura quanto em data centers.”
Na avaliação dela, esse movimento aumenta a demanda por semicondutores, encarece a eletricidade e eleva o custo de diversos bens de consumo. “Isso está elevando os preços dos semicondutores. Também está pressionando os preços da eletricidade.”
Como os chips estão presentes em praticamente todos os equipamentos eletrônicos atuais, os efeitos acabam se espalhando por diferentes cadeias produtivas. “Os semicondutores estão incorporados aos iPhones e praticamente a todos os dispositivos eletrônicos consumidos hoje. Todos esses custos acabam pressionando a inflação.”
O efeito riqueza também impulsiona os preços
Além da expansão dos investimentos, Yellen destaca outro canal pelo qual a inteligência artificial pode estar contribuindo para manter a demanda aquecida: a valorização das empresas de tecnologia nas bolsas de valores. O forte avanço das ações ligadas à IA elevou o patrimônio das famílias americanas, estimulando o consumo. “Houve uma enorme alta no mercado acionário. Isso gerou riqueza para as famílias e impulsionou os gastos dos consumidores.” Na prática, esse chamado efeito riqueza ajuda a sustentar a demanda em um momento em que o Federal Reserve ainda tenta trazer a inflação de volta à meta de 2%.
O efeito pode mudar no futuro
Apesar das pressões atuais, Yellen não descarta que a inteligência artificial se torne uma força desinflacionária nos próximos anos.
Se os ganhos de produtividade se espalharem pela economia, será possível produzir mais utilizando a mesma quantidade de trabalho e capital, reduzindo custos e permitindo taxas de juros estruturalmente menores. “Se esse aumento de produtividade for significativo, ele poderá reduzir a inflação e justificar juros mais baixos.” Mas ela faz uma ressalva importante. “No médio prazo isso pode acontecer. Mas, neste momento, simplesmente não sabemos.”
Um possível alívio para as contas públicas
Yellen também vê um benefício potencial para a política fiscal. Caso a inteligência artificial acelere o crescimento econômico de forma consistente, a expansão da atividade pode ampliar a arrecadação de impostos e aliviar parte da pressão provocada pelo aumento da dívida pública americana. “Se a IA realmente impulsionar o crescimento da produtividade, poderá gerar mais receitas tributárias por meio de um crescimento econômico mais forte.”
Ainda assim, ela pondera que esse efeito dificilmente será suficiente para resolver sozinho o desafio fiscal enfrentado pelos Estados Unidos. “Provavelmente não será suficiente para eliminar o problema fiscal, mas certamente ajudaria.”
Ao separar os efeitos de curto e longo prazo da inteligência artificial, Yellen oferece uma leitura menos otimista do atual ciclo tecnológico. Antes de entregar ganhos permanentes de produtividade, a revolução da IA pode impor um custo temporário à economia: mais investimento, maior consumo de energia e uma inflação mais resistente justamente quando o Federal Reserve ainda busca consolidar a estabilidade dos preços.