O marketing construiu uma indústria em torno de uma premissa simples: quem controla a audiência controla a influência. Durante décadas, compraram-se páginas em revistas, espaço na televisão, mídia digital, seguidores, creators e milhões de impressões. A tecnologia tornou essa máquina eficiente. Mas alguma coisa mudou.
Nunca foi tão fácil alcançar pessoas, e talvez nunca tenha sido tão difícil conquistar sua confiança. Essa foi uma das discussões do Open CASA, encontro promovido pela CASA IMA, em São Paulo, reunindo a cantora Claudia Leitte, Mariana Rhormens, ex-CMO global da Havaianas, e Carlos Arruda, CEO da CASA IMA.
O tema era a nova era da influência. Mas a conversa chegou a uma questão maior: o que significa influenciar alguém em 2026?
Alcance não é influência. Uma celebridade pode oferecer escala; um creator de nicho, autoridade; e um consumidor pode ter credibilidade dentro de uma comunidade. Influência deixou de ser privilégio de quem possui audiência, porque ela está sendo distribuída.
Claudia Leitte trouxe a perspectiva de quem construiu uma relação com o público antes das redes sociais. Sua experiência aponta para algo que os dashboards têm dificuldade de medir: fãs não se conectam apenas com conteúdo, mas com histórias, memória, identidade e emoção.
Mariana Rhormens chegou ao mesmo ponto pelo universo das marcas. “Confiança, pertencimento, emoção, memória… ainda são construídos entre pessoas”, escreveu, ao refletir sobre o encontro.
Se conteúdo virou commodity, confiança virou ativo. A inteligência artificial reduz o custo de produzir texto, vídeo, imagem e personalização, mas a atenção humana continua limitada. Quanto mais conteúdo existe, mais valiosa se torna a capacidade de decidir em quem acreditar.
Por isso, uma provocação de Rhormens resume parte do desafio: “Quem mira em tudo não alcança nada”. O desafio deixa de ser produzir mais e passa a ser significar mais.
Para Arruda, se a influência está sendo descentralizada, o investimento das marcas também pode mudar. Consumidores, funcionários, especialistas, fãs e microcomunidades são capazes de criar, reinterpretar e recomendar.
É a passagem de uma economia da audiência para uma economia da participação. Enquanto empresas ainda separam publicidade, influência, experiência, social e commerce, o consumidor não reconhece essas fronteiras. “O consumidor já integrou tudo”, resume Arruda.
No fim, o paradoxo é claro: quanto mais tecnologia, dados, creators, canais e conteúdo existem, mais escassa se torna a confiança. Como diz Arruda, “audiência pode ser comprada. Alcance pode ser otimizado. Conteúdo pode ser gerado por inteligência artificial. Confiança, não”.
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