Na COP30, Marcele Oliveira representa a voz da juventude. Escolhida como jovem campeã climática desta edição da conferência, em Belém (PA), a carioca de 26 anos participa das negociações internacionais com a missão de articular, fortalecer e conectar redes de jovens em torno da agenda ambiental e climática. “As decisões não foram tomadas por nós, mas somos nós que sofremos as consequências”, diz em entrevista à Forbes Brasil. “A expectativa é de que a COP30 seja a grande mobilização por justiça climática da nossa geração.”
A posição ocupada por Marcele, à frente de uma equipe de 12 pessoas, foi criada na COP28, em Dubai, para ampliar a representação juvenil nas políticas climáticas e garantir que suas vozes influenciem as presidências da COP e a UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima).“A justiça climática não é um luxo, é um direito básico”, afirma a produtora cultural formada pela Universidade Federal Fluminense. “Não adianta uma Marcele. Precisamos de várias, espalhadas pelo Brasil e pelo mundo.”
O caminho até a liderança na COP30
Nascida em Realengo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, Marcele iniciou sua trajetória no ativismo ambiental há quase 10 anos, ao perceber, no caminho para a faculdade, como a desigualdade também se refletia no acesso a áreas verdes. “Reparei que determinadas partes da cidade tinham praças, parques e árvores, e outras não”, relembra. “Trabalhava com produção cultural e percebi como podia ajudar a trazer visibilidade para essa luta e mobilizar outros jovens.”
Esta edição marca sua quarta participação em COPs, mas tem acompanhado a pauta climática desde 2019 com a Agenda Realengo 2030, que atua na Zona Oeste do Rio. Também é diretora executiva do Perifalab, rede que acelera lideranças da periferia para ocupar espaços de destaque e liderança, é cofundadora da coalizão “O Clima é de Mudança” e integra o time de Jovens Negociadores pelo Clima da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima do Rio de Janeiro. “No cenário em que vivemos, entendo que ou você é ativista, ou é conivente.”

“Na COP30, espero que histórias como a minha sejam ouvidas. Porque elas já são contadas.”
A seguir, confira os destaques da entrevista com Marcele Oliveira, jovem campeã climática da COP30
Forbes: Esse ano, você foi escolhida como jovem campeã climática da COP30. O que resume esse papel?
Marcele Oliveira: A nomenclatura é “jovem campeã climática” porque “champion”, no inglês, quer dizer líder, coordenador. Nessa função, faço muitas reuniões, consultas e ações para explicar o que é a Conferência do Clima para as juventudes, porque a realidade é que uma conferência conduzida em inglês, do outro lado do mundo, não era o “top assunto” do momento.
Agora, ela é aqui, no coração da maior floresta tropical que existe. Existe um interesse, e esse interesse precisa se transformar em concentração ambiental, para ter impacto depois que a COP passar. É um papel de mobilização, de acompanhamento das negociações, mas principalmente de chamar atenção para a importância de todas as gerações olharem para as questões climáticas e ambientais com urgência e compromisso.
Qual é a importância de ter a juventude na liderança pelo combate à crise climática?
As pessoas falam: “As juventudes estão desmobilizadas, é a geração nem-nem”. Mas somos os maiores “arregaçadores de manga”. Se você for numa comunidade indígena, quilombola ou numa periferia, você vai ver os jovens mobilizados, porque não é uma questão de escolha, é de sobrevivência. As decisões não foram tomadas por nós, mas somos nós que sofremos as consequências.
A participação da juventude não se dá só em mobilização; ela se dá também trazendo nossa realidade e colocando soluções na mesa – porque soluções existem. Elas moram nas ações de florescimento, nas limpezas das praias e dos rios. O que não falta é tarefa.
O que está faltando é a gente conseguir fazer esse mutirão na prática: mobilizar as pessoas para, todo dia, entender que existem responsabilidades que são individuais, mas também existem responsabilidades que são coletivas. E existem pessoas que precisam ser responsabilizadas e cobradas.
Quais são suas expectativas para a COP30?
A expectativa para essa COP é a de que histórias como a minha sejam ouvidas. Porque elas já são contadas. Os acordos internacionais estão sendo desenhados, mas a implementação deles ainda é algo que não vai chegar em Realengo. Como é que a gente vai combater a onda de calor, adaptar as cidades, lidar com as questões dos incêndios e da insegurança alimentar, que é o que chega na vida das pessoas, de fato?
A COP30 é parte de um processo, não é a linha de chegada. Mas, sendo no Brasil, ela ganha uma proporção de ser a maior mobilização política climática da nossa geração. A COP30 vai ser, como foi a Rio-92, marcada para a história como um momento onde houve uma mudança. Porque se construíram as convenções e o começo dos acordos. A COP30 precisa ter o início dessa fase de implementação que envolve todos os setores. Vai envolver as universidades e o setor privado, mas vai também falar com as comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombolas e com as juventudes.
Independentemente de conseguirmos conter 1,5ºC ou não, não dá para ficar assistindo a ciência acontecer sem olhar para o lado social da situação. A COP30 vai ser uma COP de participação, independentemente de credencial ou de estar na zona da negociação. Ela vai ter participação na Zona Verde, nas mais de 60 casas que existem na cidade de Belém com ativações, no Acampamento da Juventude e tantas outras mobilizações. A expectativa, para mim, é de que seja a grande mobilização por justiça climática da nossa geração.

Quais temas devem estar em alta nessa edição?
Falar de clima é também falar de economia. O quanto de dinheiro, de fato, os países colocam nesse tema, principalmente os mais ricos, vai ser um assunto muito importante.
A gente também deve ouvir sobre as soluções baseadas na natureza, na cultura e no conhecimento ancestral. Com financiamentos, essas soluções também podem contribuir para uma adaptação mais imediata.
Políticas públicas talvez nasçam dessa conferência, como é o caso do Fundo Florestas Tropicais, o Brasil já anunciou o seu investimento e espera que outros países anunciem.
Assim como a gente também tem questões mandatadas da conferência, como as Contribuições Nacionalmente Determinadas, onde cada país deveria dizer o que fará para conter o aquecimento global, e muitos deles sequer entregaram o seu plano.
Qual a sua visão sobre por onde começar a enfrentar a crise climática?
É necessário planejamento e cooperação entre os países. Esse é um outro assunto que vai aparecer muito forte na conferência: a importância de fortalecer o multilateralismo como um espaço de construção. Não adianta só o Brasil sair do mapa do risco climático. O Brasil precisa sair e levar o Sul Global inteiro junto. E não adianta só o Sul Global se manifestar e provocar mudança se o dinheiro para fazer essas adaptações está no Norte Global.
Acho que, dos assuntos que a conferência traz, daqueles que são mais técnicos, o mais importante acaba sendo essa volta da conferência a olhar para as pessoas e para a importância de uma celeridade na implementação dos acordos, quaisquer que sejam. Seja o de Paris, que é o mais famoso, seja o que anda ao redor desse acordo. As questões de gênero, a inclusão dos afrodescendentes, o protagonismo das comunidades indígenas e das juventudes.
Como começou a sua história com o ativismo climático?
Aos 18 anos, enquanto eu ia para a faculdade, percebi que a desigualdade também se relacionava com o meio ambiente, quando determinadas partes da cidade tinham praças, parques e árvores, e outras não.
Dentro desse contexto, olhei para uma luta de mais de 50 anos no meu bairro: a luta do Parque Realengo Verde, para que uma última área militar do bairro virasse um parque verde. A especulação imobiliária queria que virasse um condomínio, com o argumento de que seria um desenvolvimento econômico importante para Realengo. Só que esse desenvolvimento movimenta a economia, mas não chega para a juventude. Logo, um parque verde teria muito mais relação com uma possibilidade de direito à cidade, que naquele momento, era algo muito importante.
Como isso te movimentou?
Trabalhava com produção cultural e percebi como podia ajudar a trazer visibilidade para essa luta do parque. Junto com outros jovens, conseguimos fazer essa luta viralizar. Hoje, o Parque Realengo Verde, junto com outros parques em periferias urbanas do Rio, são uma política pública.
Minha história se parece com a de muitos outros jovens da nossa geração. São várias crises, e a crise climática é mais uma delas. Porém, está conectada diretamente com a qualidade – ou não – da nossa vida. Falar sobre meio ambiente não pode ser assunto só para o outro. Tem que ser assunto também para a gente. A justiça climática não é um luxo, é um direito básico.
Como foi encontrar a sua voz como líder e assumir essa posição como ativista climática?
Entendo que todo mundo tem algo a emprestar para a luta, que é coletiva. O que eu tinha era a minha capacidade de falar português e a de organizar os meus colegas – desde a quadrilha na igreja até esse mandato de jovens.
Emprestei minha indignação e a vontade de organizar o meu grupo mais próximo. Primeiro em Realengo, depois na cidade do Rio, depois no estado, denunciando a questão da negligência com as enchentes, a importância da adaptação, o raciocínio ambiental, e partindo para a questão da justiça climática.
Participei do programa dos Jovens Negociadores pelo Clima da Secretaria do Meio Ambiente do Rio para aprender sobre negociação. Depois, me dediquei a aprender inglês – não porque eu queria entender, mas porque eu queria falar e ser entendida.
A posição de ativismo é muito importante na nossa geração. Ou você é ativista, ou você é conivente. Vão ter pessoas que vão poder se dedicar mais, outras menos, mas é importante que todo mundo entenda que os nossos direitos são garantidos pela mobilização.

Olhando para frente, o que você ainda espera conquistar?
Trabalhar com juventude é um processo de esperança. Fico sempre com essa sensação de que a responsabilidade é muita, mas é compartilhada, e a gente consegue fazer. Estamos vivendo uma mudança de cultura: de destruição para regeneração, reconstrução e memória.
Vou continuar sendo produtora cultural, mas vou continuar sendo ativista climática. Não vou escolher uma coisa ou outra. O meu mandato como campeã dura até o final do ano que vem. O que vem depois é a colheita dos frutos que a gente está plantando.
Se pudesse deixar uma mensagem para os jovens, o que diria?
É necessário parar de normalizar os absurdos e valorizar a nossa memória. Assim como um território periférico que não tem árvore, mas um dia já teve, isso deve causar indignação.
Tudo que tem a ver com o nosso planeta é da nossa conta. Não podemos deixar as injustiças ficarem lá “porque sempre foi assim”. Isso começa separando o lixo, mas termina cobrando melhores decisões climáticas na COP30.