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Como Raquel Zagui Transformou o RH da Heineken em Benchmark Global

Executiva passou sete anos liderando a reestruturação da área no Brasil; agora, assume a liderança de pessoas na fabricante de produtos de saúde Haleon

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Engenheira de formação, Raquel Zagui entrou no RH meio por acaso. “Um gestor que me contratou lá atrás me trouxe para esse mundo”, conta a vice-presidente de pessoas da cervejaria Heineken, de 47 anos. “Gostei da brincadeira e nunca mais saí.”

Apesar da paixão pelas exatas (chegou a cogitar estudar matemática), suas matérias favoritas na faculdade eram as de humanas. “Para os engenheiros, eu sou do RH e para o RH sou uma engenheira.” A combinação entre olhar analítico e sensibilidade para pessoas moldou um perfil pouco convencional. “Minha formação me ajuda a ter uma visão não tão óbvia do papel de recursos humanos.”

Foi esse mix que a ajudou a construir uma trajetória global em mais de duas décadas de carreira. Raquel passou por Ambev, Whirlpool – onde se tornou diretora global de RH, nos Estados Unidos – e Bacardi, também em uma posição global. Ali enfrentou um de seus maiores desafios: “Precisei fechar dez fábricas no mundo. E a primeira, inclusive, no Brasil. Foi doloroso, mas um dos meus momentos de maior aprendizado.”

Liderança com visão sistêmica

A complexidade ajudou a prepará-la para o que viria a seguir. Raquel chegou à Heineken em 2017, logo após a aquisição da Brasil Kirin, quando a operação saltou de cerca de 2 mil para mais de 14 mil funcionários. “Brincava que tinha ganhado uma Ferrari, mas sem velocímetro e odômetro”, diz. “As coisas eram feitas no Excel e a empresa tentava focar em tudo ao mesmo tempo.”

Sob sua liderança, a área ganhou estrutura orientada por dados e virou benchmark global. “Quando você chega numa posição de número um de qualquer área em qualquer empresa, primeiro você é um executivo daquela empresa e depois você é o executivo da função”, afirma. “Sou uma pessoa que senta no board da Heineken e toma a melhor decisão para a companhia.”

Ela rejeita a ideia de que o RH precisa provar sua relevância estratégica. “Toda área pode ter profissionais ou abordagens mais ou menos estratégicos”, diz. “Não admito colocar minha área numa posição menor do que as outras porque todos temos papéis diferentes.”

Precisei fechar dez fábricas no mundo. E a primeira, inclusive, no Brasil. Foi doloroso, mas um dos meus momentos de maior aprendizado.

Raquel Zagui

Depois dessa trajetória vitoriosa, a executiva está deixando a multinacional holandesa. Vai assumir como head de RH da fabricante de produtos de saúde Haleon na América Latina. Na Heineken, sua gestão ficou marcada tanto pelo uso de inteligência artificial e análise de dados para prever turnover e controlar custos quanto pelo avanço das agendas de diversidade e bem-estar.

Por mais lideranças femininas

Essas pautas ganharam uma visão mais pessoal a partir da sua experiência com a maternidade. Quando engravidou, ouviu do chefe que se tornaria uma profissional ainda melhor. “Eu era aquela pessoa que trabalhava até tarde e entendi que precisaria me organizar.” Hoje, ela quer mostrar que é possível. “Tive que abrir mão de coisas na minha carreira que não sei se um homem teria. Foi uma escolha minha”, afirma, sobre oportunidades internacionais. “Contanto que você esteja em paz com as suas escolhas, tudo bem, mas negar que isso traz algum tipo de consequência é mentira e não ajuda a agenda.”

Com esse olhar, Raquel liderou a ampliação da liderança feminina na companhia, que saltou de 29% para 44%. “A mulher bebe cerveja e toma decisões de compras. Com cada vez menos gente querendo trabalhar com consumo e bebida alcoólica, como ampliar esse hall de talentos?” Os resultados a levaram a assumir também como head global de diversidade e inclusão do grupo, em 2024. “Era um momento muito polarizado no mundo e meu papel era entender como a gente iria se posicionar.”

No Brasil, a meta é chegar a 50% de mulheres na liderança em 2026 e 40% de pessoas negras em cargos de liderança até 2030 (hoje são 36%). “Trouxe a conversa para um motivo de negócio, e não só ‘vamos fazer porque é o certo a se fazer’.”

A pedido do CEO, ela criou na Heineken uma diretoria de felicidade. “Não são mesas de pingue-pongue nem a carreta furacão no nosso happy hour”, brinca. “É um conceito baseado na ciência da felicidade.” A companhia faz treinamentos e pesquisas quinzenais com os funcionários para monitorar o bem-estar. “Se queimou a máquina de café de Jacareí, eu já estou sabendo. E, realmente, sem café não dá para ser feliz mesmo.”

Raquel também vê como avanço o fortalecimento da NR-1, que amplia a responsabilidade das companhias sobre saúde mental e riscos ocupacionais. “Nenhuma empresa vai para lugar nenhum se as pessoas não estiverem bem. Não é sustentável a longo prazo; você deixa de pagar aqui e vai pagar lá na frente.”

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