Moradora de Capão da Canoa, no litoral norte do Rio Grande do Sul, a farmacêutica Ana Helena Ulbrich cansou de presenciar erros – potencialmente graves – em prescrições médicas no hospital onde trabalhou por 10 anos. “O farmacêutico clínico tem o papel de barrar falhas”, afirma a gaúcha de 44 anos, um dos destaques da lista Forbes Mulheres Mais Poderosas do Brasil 2026. Mas faltava tempo para revisar histórico, exames e evolução clínica dos pacientes com a profundidade necessária para evitar erros de dosagem e interações medicamentosas.
Em um domingo, provocou seu irmão, o cientista de dados Henrique Dias, então doutorando em inteligência artificial: “Como você pode usar todo esse conhecimento só para fins acadêmicos?”. Em 2017, começaram a desenvolver uma ferramenta baseada em IA para sinalizar riscos em prescrições.
Publicaram o estudo, mas queriam ir além. Dois anos depois, fundaram a NoHarm (sem danos). Hoje, a solução é usada em mais de 200 hospitais e unidades de saúde no Brasil e também na Argentina, revisando cerca de 5 milhões de prescrições ao mês. “A decisão final é sempre do profissional de saúde”, diz.
A inovação chamou a atenção da imprensa internacional. Em 2025, a gaúcha foi listada pela revista Time como uma das líderes globais em inteligência artificial, ao lado de ícones da tecnologia como Elon Musk e Mark Zuckerberg. Com uma diferença: Ana comanda uma organização sem fins lucrativos. “Nunca tivemos a ambição de ser milionários.” Ela manteve seu cargo concursado até conseguir cobrir o salário. “Já era suficiente. Trabalhei de graça até agosto de 2022.”
Na pandemia, com dois filhos pequenos, Ana enfrentava o caos do hospital durante o dia e trabalhava na NoHarm de madrugada. “Estava exausta. Chegava em casa e chorava, mas sabia que poderíamos impactar muitas vidas.” O projeto nasceu com R$ 150 mil de um prêmio do Google para inovações na América Latina. Depois, recebeu apoio de AWS, Oracle, Fundação Gates, Umane, BNDES e de editais como os do CNPq. O atendimento ao SUS é financiado por uma taxa cobrada dos hospitais privados. “Essa conta não fecha. Por isso precisamos de apoio.”
O primeiro hospital parceiro foi a Santa Casa de Porto Alegre. “São mais de 1.200 leitos. Todos os problemas possíveis foram validados lá.” Com os primeiros resultados a demanda disparou e hoje supera a capacidade da equipe de 20 pessoas, instalada no Tecnopuc, ecossistema de inovação da PUCRS.
Não foi a primeira sociedade dos irmãos: ainda na faculdade, desenvolveram e venderam um software para farmácias de manipulação. “Enxergo dores e encontro uma forma de melhorar processos”, diz Ana Helena. Ter o próprio negócio permitiu que ela criasse os espaços que queria ocupar. “Após o doutorado, recebi um ‘não’ em um processo seletivo por estar recém-casada e em idade fértil”, lembra. “Foi duro, mas decisivo.”
De 2024 para 2025, os atendimentos da NoHarm dobraram, superando 1,6 milhão. A ferramenta chegou a áreas remotas da Amazônia e despertou o interesse de países como Austrália, Estados Unidos e Portugal. Por ora, porém, o foco segue no Brasil. “Temos muito trabalho aqui.”
*Reportagem publicada na edição 138 da revista Forbes, em fevereiro de 2026.