Quando Manzar Feres, um dos destaques da lista Forbes Mulheres Mais Poderosas do Brasil de 2026, assumiu a diretoria de comercialização da Globo (as empresas de audiovisual do grupo), em 2019, o desafio ia além do comercial. Tratava-se de reposicionar a maior empresa de mídia da América Latina em um cenário em que a publicidade migrava rapidamente para plataformas digitais universais, fragmentando audiências e pressionando receitas históricas.
A resposta não foi defensiva, foi estrutural. Dois anos depois, o resultado positivo a levou para um novo desafio dentro da empresa: a diretoria-geral de negócios, a primeira mulher neste cargo.
Engenheira eletricista especializada em sistemas e computação, Manzar construiu sua carreira na interseção entre tecnologia e transformação de negócios. Iniciou a trajetória desenvolvendo sistemas e migrou, de forma intuitiva, da construção tecnológica para sua aplicação estratégica, atuando em setores como varejo e telecomunicações em momentos decisivos de digitalização e automação.
“Me coloquei nos espaços de desafios, acumulei repertório, lidero por influência”, afirma. Foi executiva na PwC, onde participou da criação de spin-offs e startups no setor de telecom, e na IBM, empresa na qual se tornou a primeira mulher vice-presidente setorial para a América Latina. Atuou ainda em funções no exterior. E, com olhar de volta ao Brasil, liderou a transição da Experian após a aquisição da Serasa.
Na Globo, Manzar liderou um redesenho profundo do modelo comercial, a partir do diagnóstico de que a concorrência já não estava entre emissoras, mas no ecossistema das big techs. A solução exigiu refletir sobre a integração das empresas Globo, Globosat, Globoplay, globo.com e Som Livre, dados, tecnologia e narrativa em uma proposta única ao mercado anunciante, rompendo com a lógica tradicional de venda por produtos e plataformas.
O novo desenho entrou em operação em fevereiro de 2020. “Um mês depois, a pandemia impôs um teste mais severo”, conta. Com times recém-integrados, processos inéditos e investimentos já aprovados, Manzar manteve o ritmo da transformação. A área comercial deixou de operar em silos para atuar de forma integrada.
A virada consolidou a Globo como uma empresa media-tech. A publicidade passou a ser estruturada com base em jornadas e modelos multiplataforma. O negócio digital ganhou escala, enquanto a TV linear foi reinventada com tecnologia e novos formatos de monetização. A Globo passou a se posicionar como um one-stop shop: o mercado apresenta o desafio, a empresa devolve a solução.
Fora da sala de decisões, Manzar encontra na música uma metáfora de liderança. Pianista, baterista e investidora na School of Rock, vê na dinâmica de uma banda um princípio essencial de gestão: o resultado coletivo sempre importa mais que o individual.
Engajada no combate à violência contra a mulher, atua como membro do conselho consultivo da Bem Querer Mulher, programa que oferece acolhimento 360º para a reconstrução da vida de mulheres e meninas de todo Brasil. Seu poder, como ela bem define, está em redesenhar futuros.
*Reportagem publicada na edição 138 da revista Forbes, em fevereiro de 2026.