Priscyla Laham passou os últimos 25 anos na Microsoft, exceto por uma breve permanência na Meta, controladora do Facebook. Seu primeiro estágio foi na IBM, em meados da década de 1990. Não muito esperado para quem acabara de se formar em marketing. “Meu foco inicial eram empresas de consumo, sempre pensei em maneiras de entender o comportamento do consumidor e gerar demanda”, diz ela.
Ao participar de um processo seletivo para trainees na Unilever, no entanto, foi recusada por não falar inglês. “Esse ‘não’ da Unilever mudou minha vida”, conta. “Fui escolhida em um processo da IBM e isso me levou para o setor de tecnologia.”
Tornou-se gestora de produto da área de mainframes, os atualmente quase obsoletos computadores de grande porte responsáveis por processar os dados que hoje ascenderam às nuvens.
Desde então, as mudanças de área se tornaram praticamente uma rotina – o que lhe permitiu desenvolver uma característica que considera essencial: a capacidade de se adaptar às alterações de cenário, atualmente cada vez mais rápidas e menos previsíveis.
Uma dessas mudanças foi em sua carreira. Há 10 anos, estava na subsidiária da Argentina e recebeu uma proposta da Meta para voltar ao Brasil. Um ano e um mês depois, voltou à Microsoft – sua condição era ter chance de disputar o posto de presidente. A promoção acabou acontecendo no começo do ano passado.
Seu foco hoje é curiosamente o mesmo que pensava em seguir no início da carreira: buscar interpretar as variações na preferência do consumidor. A postura está em linha com uma mudança cultural por que a empresa passou. “Há 15 anos, a abordagem era muito mais técnica, a preocupação era conhecer bem o produto; atualmente, tenho também a preocupação de ler as nuances e entender o mercado.”
Um bom exemplo é o Copilot, ferramenta da IA da Microsoft. Um dos mantras da empresa é a segurança da informação do usuário – o número de barreiras, travas e proteções não é um acaso. “Percebemos que muitos usuários corporativos estavam usando outras ferramentas de IA por serem gratuitas”, diz. “Isso fez com que eu e várias outras Priscylas na Microsoft ao redor do mundo defendêssemos a criação de uma versão gratuita do Copilot.”
Não foi um convencimento fácil, mas a gratuidade facilita a adoção da ferramenta pelas empresas, o que pode garantir a migração para versões pagas. “Isso é muito diferente do que fazíamos 20 anos atrás”, considera. “No fim do dia, nossas metas são garantir que o cliente esteja em primeiro lugar e tornar o Brasil um país mais competitivo por meio da tecnologia.”
Aos 50 anos, casada e sem filhos, Laham diz perceber que as novas gerações têm muita pressa. “A vida não é um sprint, não é preciso correr como se o mundo fosse acabar daqui a dois anos”, opina. “Há momentos em que é preciso correr, mas também é necessário desacelerar e consolidar, pois ninguém consegue construir nada duradouro se não tiver uma perspectiva de longo prazo.”
*Reportagem publicada na edição 138 da revista Forbes, em fevereiro de 2026.