Há um quarto de século, a China tem sido o principal motor da alta das emissões globais de carbono. Sua rápida industrialização, o aumento da demanda por eletricidade e um boom de construção sem precedentes moldaram a trajetória do carbono no mundo mais do que o registrado por qualquer outro país.
Mas os dados mais recentes indicam algo atípico nessa escalada incessante da China: uma pausa nessa emissão.
Uma nova análise do Centre for Research on Energy and Clean Air (CREA) mostra que as emissões de CO₂ da China ficaram essencialmente estáveis no terceiro trimestre de 2025 em comparação com o ano anterior. Isso representa cerca de um ano e meio de emissões em nível estável ou em queda, uma tendência que começou em março de 2024. Para o maior emissor do mundo, estabilidade já é notícia.
A questão central é saber se esse momento representa uma mudança estrutural, já que em duas ocasiões nos últimos 15 anos as emissões da China fizeram uma pausa e depois voltaram a subir.
Um platô com causas mais profundas
O que torna esse desenvolvimento notável é aquilo que não aconteceu. O consumo de energia elétrica na China não estagnou. Ocorreu exatamente o contrário.
A demanda por eletricidade subiu 6,1% no terceiro trimestre, acelerando em relação ao crescimento de 3,7% registrado no primeiro semestre do ano. Historicamente, esse tipo de aumento teria provocado uma alta correspondente no uso de carvão e nas emissões. Mas desta vez, isso não ocorreu.
Um avanço da geração de baixa emissão de carbono, com solar, eólica, hidrelétrica e nuclear, absorveu quase toda a demanda adicional. O ritmo recorde de implantação de fontes renováveis na China transformou sua rede elétrica de forma silenciosa.
Usinas solares em escala de gigawatts estão entrando em operação em um ritmo que não encontra paralelo em nenhum outro lugar do mundo. As instalações de energia eólica, sobretudo em alto-mar, avançaram rapidamente. A geração hidrelétrica se recuperou após dois anos difíceis de seca, e a capacidade nuclear continua a crescer com um fluxo constante de novos reatores.
As emissões do setor de transporte também seguiram em outra direção, com queda de 5% em relação ao ano anterior. A mudança é impulsionada sobretudo pelos veículos elétricos, segmento em que a China lidera as vendas globais. Com mais de 50% dos carros novos vendidos no país já elétricos, as estradas chinesas se tornaram uma peça importante da equação das emissões.
A indústria pesada, em especial aço e cimento, também apresentou retração, apoiada em ganhos de eficiência e em um afastamento gradual das atividades de construção mais intensivas em carbono.
Em conjunto, essas mudanças podem dar conteúdo real a esse platô. Elas não decorrem apenas de uma economia fraca ou de interrupções temporárias.
Uma história global em construção
O momento dessa estabilidade nas emissões da China contrasta com tendências mais amplas no mundo. A edição mais recente do Global Carbon Budget projeta um aumento de 1,1% nas emissões globais de combustíveis fósseis em 2025, impulsionado pela aviação, pelo transporte marítimo e pelo crescimento da demanda de energia em economias em desenvolvimento. Nesse contexto, a estabilização da China pode funcionar como um contrapeso e talvez marcar o início de um pico global há muito esperado.
Mas, como acontece com a maioria dos marcos climáticos, o quadro é misto. As emissões do setor químico da China dispararam no terceiro trimestre, compensando parte do avanço em outras áreas.
E, embora os números gerais sejam animadores, eles seguem vulneráveis a oscilações econômicas e de política pública. A China nunca hesitou em recorrer à indústria pesada e à geração a carvão em períodos de estímulo ou de estresse nas cadeias de suprimento, e pode voltar a fazê-lo.
Sinais de política por trás dos números
O platô também ocorre em um momento em que Pequim recalibra sua estratégia climática. Neste mês de novembro, autoridades chinesas reafirmaram duas grandes metas nacionais. Atingir o pico das emissões de carbono antes de 2030 e alcançar a neutralidade de carbono até 2060.
O que chamou atenção desta vez foi a inclusão explícita do metano e do óxido nitroso, gases que não são CO₂ e que haviam recebido menos atenção em políticas anteriores. Enfrentar essas emissões indica que a China está disposta a adotar uma abordagem mais abrangente de governança climática.
Essa mudança de política chega em um momento estrategicamente importante. Os dados de emissões surgiram justamente quando a COP30 se reúne em Belém, onde negociadores do mundo inteiro lidam com as dificuldades práticas da descarbonização. A capacidade da China de demonstrar avanços, sem abrir mão do dinamismo econômico, fortalece sua posição diplomática nas negociações climáticas.
A China enviou ao Brasil uma delegação oficial de cerca de 110 pessoas, mas no total, com a inclusão de empresários e outras lideranças, são quase 1.000 chineses na COP30, entre eles LI Gao, vice-ministro e membro do Grupo Dirigente do Partido do Ministério da Ecologia e do Meio Ambiente, que tem sido uma espécie de porta-voz.
O que observar nos próximos meses
Se esse platô vai se consolidar como um pico verdadeiro depende de vários fatores dinâmicos.
Ampliação de renováveis e a integração à rede. O pipeline de projetos renováveis da China é enorme, mas gargalos de transmissão e o corte de geração por falta de escoamento seguem como desafios.
Fiscalização industrial. Os setores de aço, cimento e produtos químicos vão determinar se os ganhos de eficiência poderão ser mantidos.
Adoção de veículos elétricos e infraestrutura. O avanço dos veículos elétricos tem reduzido as emissões do transporte, mas a capacidade de recarga e os incentivos ao consumidor vão definir a próxima fase.
Ciclos de commodities e demanda externa. Se a construção ou a manufatura tiverem uma retomada acentuada, as emissões podem acompanhar esse movimento com facilidade.
Para investidores, formuladores de políticas públicas e qualquer pessoa que modele o risco climático de longo prazo, as emissões da China estão no centro das projeções globais de carbono. Os próximos trimestres vão mostrar se se trata de um platô passageiro ou do início de uma inflexão crucial na trajetória das emissões mundiais.