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Jota.pê: “O Futuro do MPB É o Presente”

Aposta da nova geração da música brasileira, artista pode levar duas estatuetas para casa no Prêmio da Música Brasileira, que ocorre dia 4 de junho

9 min

Jota.pê tem vivido um dos momentos mais marcantes de sua carreira. Aos 32 anos, o cantor e compositor celebra três vitórias no Grammy Latino 2024 e duas indicações ao Prêmio da Música Brasileira 2025 — em meio a uma agenda intensa de shows esgotados na Europa, parcerias criativas e novos projetos. Em entrevista à Forbes, ele revisita os caminhos que o trouxeram até aqui: uma trajetória construída entre cidades, palcos e pausas, marcada por experimentações e reinvenções.

“Gosto muito de tocar fora do Brasil. Ao mesmo tempo em que o público é muito diferente, essa troca é riquíssima”, diz, ao comentar a recepção de suas canções em países como Itália, Portugal, Suíça e Cuba. Segundo o artista, o interesse pela música brasileira no exterior é consistente. “A nossa música é muito respeitada e amada no mundo inteiro.”

Apesar do alcance internacional, Jota.pê não se distancia de suas referências locais. Elas continuam a atravessar sua obra, mesmo quando ele explora outros territórios sonoros. “Sempre ouvi de tudo. No meu primeiro disco, por exemplo, a influência do rock era mais evidente”, conta, citando bandas como System of a Down e Incubus. “Gosto desses saltos de dinâmica. Isso vai se misturando — de forma consciente e, às vezes, inconsciente — em tudo que crio.”

Percursos, deslocamentos e raízes

Os deslocamentos que marcaram sua infância aparecem como parte fundamental de quem Jota.pê é hoje. De Osasco para Fortaleza, Salvador e Rio de Janeiro, o cantor conta que as mudanças constantes de cidade e escola moldaram seu olhar. “Foi muito doido perceber que São Paulo não é o mundo. O Brasil é um continente, com estados muito diferentes entre si”, lembra. Ele reforça que essas vivências ampliaram sua percepção sobre as diferenças culturais do país. “O quanto tudo pode ser diferente, o quanto tudo pode ser bonito.”

Ele também menciona episódios de preconceito que enfrentou ainda criança. “Eu morei em alguns lugares em que o único negro era eu. Então, esse contato foi muito louco e às vezes doloroso”, recorda. Hoje, avalia que as experiências, apesar de difíceis, contribuíram para sua formação pessoal. “De maneira nenhuma eu vou dizer que eu achei legal ter sofrido racismo, mas acho que foi muito importante pra mim conhecer tantas realidades assim.”

Acervo pessoalJota.pê é conectado com a música desde cedo

Apesar de a música sempre ter estado presente no imaginário do artista, foi em 2015 que ele verdadeiramente começou sua trajetória e lançou seu primeiro álbum,  “Crônicas de um Sonhador”. Produzido de forma despretenciosa, Jota.pê não imaginava que, dois anos depois, em 2017, participaria do The Voice Brasil e ouviria de Lulu Santos que sua voz era a melhor do reality. “Foi muito importante pra mim, especialmente pelo momento em que aconteceu o programa, porque fazia dois anos que eu tinha largado tudo pra tentar viver apenas de música. Então, foi um período que me ensinou muito a lidar com o meu nervosismo no palco, que é o ápice do nervosismo que eu já vivi na vida: subir no palco do The Voice”.

As raízes, segundo ele, aparecem não apenas no repertório, mas também na sonoridade e nas escolhas estéticas. “Na parte sonora, eu me sinto muito livre sempre de explorar minhas referências, de colocar tudo que eu carrego de música africana, da minha época de ogan de terreiro, de colocar percussão pra caramba”, afirma. Jota.pê reforça que seu trabalho parte de um lugar específico, mas sem limitações temáticas. “Se eu quiser falar sobre amor, eu falo sobre amor; se eu quiser falar sobre fé, que eu fale sobre fé; se eu quiser falar sobre orixá, que eu fale sobre o orixá.”

Composição como tradução de experiências

O texto, para o cantor, é o centro do processo criativo. “Eu sempre me preocupei muito com o texto das coisas que eu faço. Em passar a mensagem que eu queria passar”, explica. Esse cuidado aparece em canções como “Ouro Marrom”, premiada no Grammy Latino. “A ‘Ouro Marrom’ nasceu de uma situação de racismo que não foi diretamente comigo, mas aconteceu e me deixou com muita raiva”, conta. Inicialmente carregada pela emoção bruta, a música tomou outro rumo após uma mensagem recebida de Bruna Black, sua parceira no duo ÀVUÀ. “Eu apaguei 90% da letra e comecei de novo. Porque a gente lembra do óbvio, né? De que ser negro não é sobre racismo, é sobre um monte de outras coisas maravilhosas.”

O processo de gravação reforçou essa decisão. Jota.pê relata que, a princípio, a música teria um piano marcante. “O piano tava tão bacana que a gente tava parando de prestar atenção no texto. E eu acho que é melhor não”, ouviria dos produtores. Hoje, reconhece que abrir mão do arranjo mais elaborado fortaleceu a canção. “Ganhar um Grammy com essa música foi muito bonito”.

Entretanto, esse não foi o único reconhecimento de Jota.pê na noite: no evento de 2024, ele saiu com os prêmios de Melhor Canção em Língua Portuguesa por “Ouro Marrom”, Melhor Engenharia de Som e Melhor Álbum de Música Popular Brasileira/Música Afro Portuguesa Brasileira por “Se o Meu Peito Fosse o Mundo”. Agora, ele concorre ao Prêmio da Música Brasileira 2025, que acontece dia 4 de junho no Rio de Janeiro. O cantor tem a chance de levar as estatuetas por “Melhor Artista de MPB” e “Melhor lançamento de MPB” com o álbum que foi “grammyado” ano passado.

DivulgaçãoJota.pê ganhou 3 prêmios no Grammy Latino 2024

Ele menciona, inclusive, que a construção do álbum seguiu uma lógica semelhante à da música, de cuidado e imersão. “A gente ficou uma semana e meia com todo mundo lá, imerso para fazer o disco, que eu acho que é o melhor jeito de se fazer álbuns na face da Terra”, relata sobre o processo na Gargolândia, estúdio em uma fazenda no interior de São Paulo. Apesar do receio inicial — “ninguém tinha trabalhado junto” —, o resultado, segundo ele, foi uma atmosfera de colaboração intensa.

Entre o palco e o ócio necessário

Ao refletir sobre sua rotina, Jota.pê afirma que busca preservar espaços de descanso para manter a relação com a música saudável. “No começo, eu fazia música para fugir do trabalho, porque o que eu amava era música”, diz. Com a inversão dos papéis, a música passou a ocupar o espaço do ofício. “Pra conseguir que ainda seja gostoso — pelo menos pra mim — eu preciso de um tempo jogando videogame, um tempo saindo com a minha namorada, um tempo passeando com o cachorro.”

Essa prática, que ele chama de “ócio produtivo”, é parte do seu processo criativo. Ao iniciar um novo projeto, o cantor monta playlists no escuro, ouvindo discos de outros artistas. “Aí começo a anotar as coisas que eu mais gostei, depois pego o violão, tento aprender algumas das músicas, e isso me relaxa e me inspira para voltar a compor.”

Parcerias, projetos paralelos e o que ainda virá

Além da carreira solo, Jota.pê mantém o duo ÀVUÀ, com Bruna Black. “O ÀVUÀ é um respiro. É muito bonito estar com a Bruna no palco”, afirma. Para conciliar as agendas, ele conta que os lançamentos são organizados por épocas. “Como eu acabei de lançar um disco solo meu, ela vai fazer o dela agora. Aí depois a gente vai fazer as turnês desse trampo, e aí fazer outro disco do ÀVUÀ.”

Nathalia Gonçalves Jota.pê e Bruna Black fazem parte do duo ÀVUÀ desde 2020

As parcerias recentes também surgiram de encontros espontâneos, como no caso do projeto “Dominguinhos”, com João Gomes e Mestrinho. “Era para ser cinco músicas, virou 12 ali na hora. Foi de um jeito muito natural”, conta sobre a gravação em Recife. O projeto, lançado há menos de um mês, alcança uma média de um milhão de ouvintes diários.

Apesar do reconhecimento, Jota.pê não deixa de projetar novas colaborações. “Quero muito fazer alguma coisa com a Mayra Andrade, que é uma artista cabo-verdiana que eu amo demais”, revela. Ele também cita nomes como Dino D’Santiago, Emicida, Djavan, Gilberto Gil, Rincon Sapiência, Chico César e Os Garotin. “Muita gente que eu quero estar perto e registrar esse encontro musicalmente.”

DivulgaçãoJota.pê, João Gomes e Mestrinho colaboraram no álbum Dominguinho, lançado em abril de 2025

Planos futuros e múltiplos caminhos

O artista também expressa interesse em outras áreas além da música, como moda, audiovisual e educação musical. “Eu tenho vontade de produzir discos de outros artistas, ou produzir eventos, ser um produtor cultural”, conta. Sobre moda, ele admite que a paixão tem crescido, mas ainda sem planos definidos. Já na educação, pensa em criar algum instituto que facilite o acesso ao conhecimento que ele próprio buscou de maneira autodidata. “Eu sou um cara que não estudou teoria musical, por exemplo. Me dá vontade de facilitar esses acessos.”

Ao olhar para o cenário da música brasileira, Jota.pê reforça a importância do agora. Quando solicitado para completar a frase “O futuro do MPB é…”, o cantor respondeu: “O presente. É o presente. A gente tem um monte de gente incrível já fazendo música por aí. E quando eu olho para o lado — não só no MPB, mas quando eu olho a música no geral — e vejo Liniker, Luedji Luna, Os Garotin, Yago Oproprio, Bruna Black, Theodoro Nagô, enfim… Quando eu vejo tudo isso, eu sei que tá tudo bem, sabe? Tá tudo bem”.

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