Em março de 2020, Analu Pimenta estava com a passagem comprada para assumir o papel da sua vida: ser a protagonista do musical de Tina Turner na montagem de Madrid, na Espanha. A pandemia parou o mundo, e também o projeto. Seis anos depois, a oportunidade retornou, desta vez para a versão brasileira da obra. “O sonho me esperou. Costumam dizer que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas, no meu caso, caiu”, diz a atriz em entrevista à Forbes Brasil.
Aos 39 anos — idade próxima àquela em que a própria Tina alcançou o estrelato mundial —, Analu assume a primeira protagonista da sua carreira como a titular do espetáculo, realizando quatro sessões semanais no Teatro Santander, em São Paulo. “Por muito tempo, deixei de sonhar e esperar por isso. A idade vai passando e eu sei que não vou ser cotada para qualquer papel porque sou uma mulher preta”, afirma a atriz, que soma 15 anos de carreira nos palcos e musicais como “Bob Esponja“, “Shrek“, “A Noviça Rebelde” e “Elza” no currículo. “É um sabor de vitória com muito merecimento e batalha poder viver esse protagonismo.”

Ao seu lado nessa jornada está Carol Roberto, que carrega o título de atriz mais jovem do mundo a ser a “Tina Alternante”, aos 20 anos, assumindo três sessões fixas por semana. “Escutei muita coisa no processo: ‘ela é nova demais’, ‘será que vai aguentar?’. Mas idade não é parâmetro para profissionalismo”, diz. A atriz despontou na carreira artística aos 11 anos no The Voice Kids Brasil e, desde então, já acumulou trabalhos em dublagens e no cinema, vindo direto da temporada do musical “Meninas Malvadas“.
Para Analu, poder dividir o papel com uma atriz de outra geração é o reflexo de um mercado em transformação. “Quando comecei, era raro ter pessoas pretas no elenco. Se tinha, era apenas uma pessoa”, afirma. “Hoje, ver meninas da idade da Carol tendo a possibilidade de terem destaque já desde jovens é sinal de que já avançamos muito. Para nos tornarmos melhores artistas, precisamos de oportunidade.”

Em temporada até 12 de julho, “Tina – O Musical” narra a trajetória da cantora americana dos 16 até os 48 anos, quando alcançou o estrelato. “É a história de uma mulher que ralou e sofreu muito. E que, quando ninguém mais imaginava, e nem ela, aos 40 anos, teve uma virada e virou a estrela que a gente conhece”, diz Analu.
A produção, que está em cartaz desde 26 de fevereiro, já atraiu mais de 95 mil espectadores e traz à tona debates sobre racismo e violência doméstica. “Desde muito nova, a Tina só foi rejeitada, e conseguiu, mesmo assim, vencer o sistema com muito esforço e uma quase morte”, afirma Carol. “Se tem alguém na plateia passando pela mesma situação de violência ou rejeição, e essa pessoa conseguir enxergar a luz no fim do túnel por causa do espetáculo, é porque estou fazendo o meu trabalho direito. Minha missão é muito maior do que fazer um show bonito.”
Por trás das cortinas
As atrizes vivem uma rotina intensa para encarar as três horas de peça com mais de 25 números musicais, alcances vocais exigentes, cenas de luta e 700 figurinos entre todo o elenco. “Tina é o papel feminino mais difícil do teatro musical. A gente não sai de cena, canta e dança muito, e tem muita interpretação. É um processo rigoroso dentro e fora do palco”, afirma Carol.
Analu, que também é fonoaudióloga, usou a bagagem acadêmica e de vida para encarnar a voz icônica da cantora. “Não queria simplesmente cantar bonito. Precisava mudar a voz desde a primeira música até a última”, afirma. “Para além da técnica, tem uma característica sobre o que as mulheres pretas passaram nas suas vidas. Nessas vozes, tem muita dor, caminho, experiência, calos e história. Não são vozes limpas ou leves; são sujas e com um peso.”

Com audições que começaram há mais de um ano, o processo de ensaios exigiu uma dinâmica de parceria. Toda a estrutura do espetáculo foi levantada em um mês e meio a partir do corpo de Analu, enquanto Carol assimilava os detalhes. “A peça foi inteira criada baseada em mim e a Carol assistia ao processo, colocando o jeito dela depois”, explica a titular. “A gente precisava se apoiar. Ninguém me entende mais do que a Analu e ninguém entende mais a Analu do que eu”, complementa Carol.
Após o fim da temporada, as duas já têm planos traçados dentro e fora dos palcos. Carol expande sua atuação nas telas com o lançamento do filme “Família de Sorte” no segundo semestre, e já mira sonhos de longo prazo: quer fazer uma novela e cantar em um estádio.
Enquanto isso, Analu deve voltar ao teatro musical com uma produção voltada ao público jovem, ainda sob sigilo, e novos projetos de dublagem. “Os sonhos são o que faz a gente se movimentar. Espero mostrar para as pessoas que esses caminhos e lugares de conquista existem.”