O problema do endividamento no Brasil não é uma abstração estatística. Ele aparece na conversa da família na hora do almoço, na decisão de adiar a troca de um carro ou iniciar uma faculdade, no cálculo silencioso de quem olha para o saldo da conta antes de confirmar uma compra.
Quando o Banco Central divulga, a cada mês, que o endividamento das famílias bateu um novo recorde histórico, muito mais do que números, ele está evidenciando uma tensão que atravessa o cotidiano de milhares de brasileiros.
Em fevereiro de 2026, de acordo com dados do Banco Central, o endividamento das famílias com o Sistema Financeiro Nacional chegou a 49,9% da Renda Nacional Disponível Bruta (RNDB), superando o pico anterior da série histórica, registrado em julho de 2022.
Na minha visão, o problema do endividamento no Brasil não é apenas um problema de disciplina individual, mas um problema de estrutura. E enquanto o debate público não separar essas duas coisas com clareza, continuaremos tratando sintoma como se fosse causa.
O que os números não mostram
Além do endividamento em máxima histórica, o comprometimento de renda das famílias chegou a 29,7% em fevereiro. Excluindo o crédito habitacional, que tem prazo longo e custo menor, esse índice bateu 27,1%, também recorde. Isso significa que, de cada R$ 100 que uma família brasileira ganha, quase R$ 30 saem direto para pagar dívidas, antes de qualquer outra decisão de consumo ou poupança.
O dado que considero mais preocupante é a composição dessa dívida, pois desses 29,7 pontos percentuais de comprometimento da renda, aproximadamente 10,6 pontos correspondem apenas ao pagamento de juros, ou seja, um dinheiro que não amortiza principal, não reduz o saldo devedor, não acumula nenhum patrimônio, ele simplesmente vai embora.
E aqui está o ponto que o debate costuma deixar de lado: esse custo de juros não está distribuído igualmente entre todos os endividados. Ele se concentra justamente nas modalidades mais acessíveis para a população de menor renda: o rotativo do cartão de crédito, o cheque especial e o crédito pessoal não consignado. O Comitê de Estabilidade Financeira do Banco Central apontou, em seu último relatório, que essas carteiras, classificadas internamente como de maior risco, seguem crescendo acima das modalidades de baixo risco. Isso não é coincidência, é o retrato de um mercado de crédito onde os mais vulneráveis acessam o que há de mais caro.
O paradoxo que os índices revelam
A FGV calcula o Índice de Desconforto de Crédito (IDC), que combina comprometimento de renda, inadimplência e perfil das modalidades contratadas. Em janeiro de 2026, esse índice atingiu 0,94, ou seja, 94% do pior momento registrado em toda a sua série histórica.
O que torna esse número desconcertante é o contexto em que ele aparece: desemprego próximo de mínimas históricas, crédito em expansão, renda formal em alta. Na teoria econômica clássica, esse cenário deveria gerar alívio financeiro, mas na prática, estamos vendo o oposto.
Esse é o paradoxo que os pesquisadores do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da Fundação Getulio Vargas (FGVcemif) chamam, com precisão, de paradoxo do crédito: nunca foi tão fácil conseguir crédito no Brasil, e nunca o estresse financeiro das famílias foi tão elevado. A explicação não está no volume de crédito disponível, mas na qualidade do crédito que as famílias, especialmente as mais vulnerárias, são forçadas a acessar por falta de alternativas melhores.
Dados do Banco Central mostram que 39,3% das operações de crédito rotativo no cartão são contratadas por trabalhadores com renda inferior a dois salários mínimos. O produto mais caro do sistema financeiro brasileiro é, paradoxalmente, o de maior penetração entre quem tem menos capacidade de suportá-lo.
Organização financeira: fundamental, mas não suficiente
Há um risco que eu preciso nomear com clareza, até porque vejo esse equívoco repetido com frequência no campo da educação financeira: transformar um problema estrutural em responsabilidade individual exclusiva.
Segundo a pesquisa de endividamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC), mais da metade do endividamento brasileiro tem origem em vulnerabilidades como desemprego, perda de renda e gastos emergenciais com saúde. São choques que qualquer família, por mais organizada que seja, pode enfrentar quando não há reserva suficiente, quando o mercado de trabalho não oferece estabilidade e quando a única linha de crédito disponível cobra 400% ao ano.
Dito isso, organização financeira importa muito e, como educador financeiro há quase trinta anos, a defendo como ferramenta básica e essencial para mudança de vida. Entretanto, colocar toda a responsabilidade no consumidor e nenhuma na estrutura, é um erro, pois são problemas simultâneos que exigem respostas simultâneas.
Do ponto de vista prático, o que vejo como central nesse momento é a questão dos gastos recorrentes invisíveis. A digitalização da economia criou uma camada de despesas que não aparecem no orçamento mental das pessoas: aplicativos, assinaturas, delivery, e o pior de todos, as apostas online. Cada item parece irrelevante, pois são valores pequenos, mas, somados, podem comprometer tanto quanto uma conta de luz, e por serem cobrados automaticamente no cartão, alimentam silenciosamente o saldo que, no fim do mês, migra para o rotativo.
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) de março de 2026 já identificava 80,4% das famílias brasileiras com alguma dívida (recorde histórico da série), e parte relevante desse avanço vem dessas despesas que ninguém contabiliza.
O ciclo que a renegociação não quebra
Em março de 2026, a inadimplência estabilizou em 29,6% das famílias, segundo a CNC. O tempo médio com dívidas atrasadas ficou em 65,1 dias, o maior nível desde dezembro de 2024. Fora do sistema bancário, a Serasa registrou mais de 83 milhões de CPFs negativados, com valor médio de dívida de R$ 6.814 por pessoa.
O Desenrola Brasil 2.0 entra nesse contexto com uma proposta de renegociação que já supera 1,4 milhão de operações e R$ 10 bilhões negociados, e eu entendo a necessidade humana e política de programas como esse, pois quando o rotativo cobra mais de 400% ao ano, negar alívio a quem está sufocando é uma postura difícil de sustentar moralmente.
O ponto que me preocupa é outro: o dado que mostra que 86% dos brasileiros que entram na inadimplência já estiveram negativados nos 12 meses anteriores. Esse número de reincidência é a evidência mais clara de que renegociar a dívida presente sem alterar as condições que a produziram tende a reiniciar o ciclo, não a rompê-lo. Economistas de diferentes correntes divergem sobre quase tudo, mas há consenso raro nesse ponto: programas recorrentes de alívio têm efeito paliativo quando não vêm acompanhados de mudanças estruturais no mercado de crédito.
O que o ambiente exige de quem quer avançar
A CNC projeta que o endividamento das famílias deve continuar crescendo ao longo do primeiro semestre de 2026, até que os efeitos da flexibilização da política monetária cheguem ao consumidor. Isso significa que o ambiente de aperto que já está documentado vai se prolongar antes de melhorar.
Para quem está tentando organizar as finanças nesse cenário, a orientação que eu daria não é nova, mas é mais urgente: o primeiro passo é saber exatamente o que você deve, a quem e a que custo, pois sem esse diagnóstico, qualquer esforço de organização fica comprometido. O segundo passo é, antes de tudo, atacar o crédito caro, como rotativo, cheque especial e crédito pessoal sem garantia. Esses são os produtos que transformam uma dívida gerenciável em uma bola de neve em questão de meses.
O terceiro passo é o mais difícil, porque não tem uma ação simples associada: entender que o ambiente de juros altos não vai melhorar para o consumidor final na mesma velocidade em que o BC eventualmente cortar a Selic. O crédito barato demora a chegar, enquanto o crédito caro, quando você já está dentro, não espera.
Muito mais do que estatística, os dados de 2026 sobre endividamento retratam um mercado de crédito que distribui de forma muito desigual tanto o acesso quanto o custo. Nesse contexto, vejo a educação financeira como uma emergência nacional que deveria fazer parte das políticas públicas de forma efetiva e combinada com medidas de enfrentamento do problema estrutural, pois sozinha, ela não será suficiente.