O petróleo Brent ultrapassou US$ 100 o barril nesta semana, e o mercado brasileiro reagiu positivamente, com Ibovespa fechando em alta, o dólar recuando para R$ 5,08, e a narrativa que se consolidou foi a de que o barril caro beneficia a Petrobras, amplia superávits comerciais e atrai capital estrangeiro para o Brasil.
Essa leitura não está incorreta, mas está incompleta, e a parte que falta é exatamente a que mais preocupa quem investe com horizonte de longo prazo.
O Brasil tem a vantagem incomum de ser autossuficiente em energia numa conjuntura em que o mundo está em guerra pelo controle do fluxo de petróleo. A Petrobras produz e exporta, o setor de óleo e gás ganha fôlego, e o país colhe o dividendo geopolítico de não depender de ninguém para ligar as luzes.
Entretanto, o mesmo barril que valoriza o pré-sal se transmite para combustíveis, transporte, logística e alimentos, e chega ao IPCA no momento em que o Banco Central tenta consolidar a trajetória de queda da inflação.
O choque de oferta que chega ao Copom e ao seu bolso
O Brent atingiu US$ 100,07 nesta terça-feira (9/09), depois de ataques às instalações sauditas e de troca de ataques entre Estados Unidos e Irã que atingiu navios-tanque no Estreito de Ormuz, e o Goldman Sachs já projeta US$ 120 se o conflito se agravar.
Não se trata de um movimento especulativo de curto prazo, e sim de um choque de oferta real, com interrupção física de rotas de transporte e de instalações de produção. Choques assim têm uma característica que os distingue de choques de demanda: eles elevam preços e reduzem crescimento ao mesmo tempo, o que cria um dilema para o banco central, porque a resposta de política monetária para os dois problemas é oposta.
Para o Brasil, o canal de transmissão é direto: o preço internacional do barril se reflete na bomba de gasolina, no custo do frete, no preço dos alimentos que chegam ao supermercado, e no IGP-DI, que já subiu 0,06% em agosto após cair 0,86% em julho.
O Copom se reúne na semana que vem, nos dias 15 e 16 de setembro, e o mercado precifica o quinto corte consecutivo da Selic, que sairia de 14% para 13,75%. O problema é que um choque de petróleo pressiona exatamente os componentes que o Banco Central mais acompanha: combustíveis e serviços, que são os itens de maior difusão inflacionária. Se o barril se mantiver em US$ 100 ou subir, a pergunta que o Copom terá que responder não é se corta, mas se o ritmo de corte que o mercado precifica continua justificável diante de um novo choque de custo que ainda não está nos modelos.
Quem ganha, quem perde com a alta do Petróleo
Do lado dos ativos, a leitura é de geografia: a Petrobras é a beneficiária mais óbvia, porque produz o barril que ficou mais caro e o setor de óleo e gás como um todo ganha com a valorização da commodity. Mas o agronegócio, a indústria e as companhias aéreas sentem o aperto das margens já que dependem da logística e do combustível. E o consumidor, que acabou de receber o alívio da deflação de agosto no IPCA-15, pode ver o ganho de poder de compra evaporar se a gasolina voltar a subir.
O investidor que está posicionado em renda fixa pós-fixada continua bem remunerado, com a Selic em 14%, e tem a vantagem adicional de que um choque de petróleo que pressione a inflação pode desacelerar o ritmo dos cortes, mantendo a remuneração alta por mais tempo. Quem está em prefixados travados antes da queda dos juros futuros está confortável, e quem está em renda variável precisa separar o que é movimento de commodities do que é movimento de mercado: a alta da Petrobras por barril caro é diferente da alta do Ibovespa por fluxo externo, e as duas podem se inverter por motivos opostos.
O que importa para o investidor agora
A pergunta que fica não é se o petróleo vai continuar subindo, porque isso depende de uma guerra cujos caminhos é difícil prever. Então, para ficarmos no campo das coisas que podemos controlar, vejo que a pergunta que você deve se fazer é se a sua carteira está preparada para os dois cenários.
O investidor que montou uma posição só porque o barril subiu e a Petrobras acompanhou está apostando na continuidade de um conflito armado, que é a forma mais volátil de fazer alocação. O investidor que entende que o petróleo a US$ 100 é simultaneamente um incentivo para produtores e um imposto sobre consumidores está em posição de avaliar o trade-off real: o mesmo preço que valoriza um ativo pressiona outro.
A vantagem estrutural que o Brasil tem nesta conjuntura não anula o custo. O mercado reagiu ao barril de US$ 100 como notícia positiva porque o Ibovespa subiu, mas o Ibovespa sobe e desce por fluxo, não por fundamentos de longo prazo. O que fica, quando o fluxo se inverter, é a leitura que você fez do choque. E nessa leitura, a diferença entre ganhar e perder está em distinguir o que é commodity do que é economia, e o que é pregão do que é tendência.
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