No dia 28 de fevereiro, os Estados Unidos e Israel realizaram ataques contra o Irã, em uma operação que matou o líder supremo iraniano Ali Khamenei. Em resposta, o país persa disparou mísseis contra Israel, atacando bases americanas no Oriente Médio e países aliados.
Depois que esses ataques retaliatórios interromperam o transporte marítimo no Estreito de Ormuz — uma das principais vias energéticas do mundo e símbolo de tensões no Golfo — o preço do petróleo ultrapassou os US$ 100 (R$ 524,81).
De acordo com relatório do Goldman Sachs, a disparada da commodity resultou em uma revisão para cima nas estimativas de inflação e uma redução nas projeções de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) nos Estados Unidos. “Com a incerteza geopolítica e pressões inflacionárias renovadas, a probabilidade da economia americana entrar em recessão saltou para 25%”, destaca o estudo.
O relatório também indica que o Banco Central americano — Federal Reserve — será forçado a manter os juros altos por mais tempo, adiando o início de seu ciclo de afrouxamento monetário de junho para setembro.
Segundo o Goldman Sachs, o esperado nos próximos meses é uma estagflação moderada — combinação de crescimento econômico fraco, inflação elevada e aumento do desemprego ao mesmo tempo. A taxa de desemprego projetada subiu, e agora deve atingir um pico de 4,6%, contrapondo-se à marca de 4,44% registrada no mês anterior.
A previsão de crescimento do PIB para o quarto trimestre de 2026 foi rebaixada em 0,3 ponto percentual, fixando-se em 2,2%, ou 2,6% na base do ano completo. Esse arrefecimento econômico reflete o petróleo mais caro, condições financeiras mais restritas e a incerteza geopolítica.
Os fatores negativos são apenas compensados por um aumento nas encomendas da indústria de defesa. Mesmo assim, o incremento na produção será restrito, pois a fabricação do armamento já está sendo esgotada no conflito.
Em cenários muito instáveis, o crescimento econômico desabaria ainda mais, para 2,1% ou 1,9% no quarto trimestre, respectivamente. A previsão para a inflação PCE cheia, acumulada até dezembro de 2026, saltou 0,8 ponto percentual, alcançando 2,9%, enquanto a projeção para o núcleo do PCE foi ajustada para 2,4%.
O que está acontecendo?
O epicentro da turbulência está na precificação global da energia. O banco americano projeta que o barril do petróleo Brent irá atingir uma média de US$ 98 em março e abril. Isso representaria um salto de 40% em relação aos US$ 71 registrados no quarto trimestre de 2026.
Em um cenário no qual o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz seja interrompido por um mês, o Brent poderia alcançar uma média de US$ 110 em março e abril.
Já em uma hipótese extrema, com 60 dias de interrupção logística no Estreito, os preços disparariam para uma média de US$ 145 nos mesmos meses, recuando para US$ 93 apenas no fim do ano.
“Um aumento de 10% no preço do petróleo reduziria o crescimento do PIB dos Estados Unidos em 0,1 ponto percentual e elevaria a inflação PCE cheia e seu núcleo em 0,2 ponto percentual e 0,04 ponto percentual, respectivamente”, destaca a pesquisa. Nesse cenário, o impacto negativo no PIB cai para 0,07 ponto percentual.
Em situações de risco de preços elevados do barril, a inflação cheia poderia atingir de 4,5% a 5% durante a primavera no hemisfério norte, encerrando o calendário anual entre 3,3% e 4,0%.
Blindados?
Em comparação com crises geopolíticas anteriores — como o embargo do petróleo pela OPEP em 1973, a Guerra do Golfo e os ataques de 11 de setembro — os pesquisadores avaliam que a economia dos Estados Unidos hoje está mais protegida contra choques no mercado de energia.
A resiliência deriva da queda na intensidade do uso de petróleo em relação ao PIB americano e da ascensão da indústria doméstica de gás de xisto. O aumento imediato dos investimentos (capex) em energia por parte dos produtores locais ajuda a amortecer o golpe na renda e no volume de gastos das famílias.
Apesar dessa “proteção”, o Índice de Risco Geopolítico do Federal Reserve disparou e já se encontra em um patamar quatro vezes superior à sua média histórica. Enquanto isso, o índice de condições financeiras (FCI) do Goldman Sachs apertou em 0,2 ponto percentual.
Essa elevação do risco geopolítico corrói a confiança do mercado, prejudica o ritmo de contratações e freia os investimentos empresariais. E, o impacto negativo chega a ser em torno de duas vezes maior quando ocorre simultaneamente a um choque nos preços do petróleo.
O estudo ainda analisa que o déficit do orçamento federal americano saltará para 2,05 trilhões de dólares ao longo deste ano. Esse ambiente de estresse se refletirá também no mercado de dívida de longo prazo, onde o rendimento da nota do Tesouro americano de 10 anos (10-Year Treasury Note) deve encerrar 2026 em 4,20% .
Adiando cortes de juros
Outra rota que muda de direção é a trajetória de juros americanos. Agora, a expectativa do mercado de que o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) começaria a entregar seus dois últimos cortes de 25 pontos-base em junho foi descartada.
Isso porque, segundo a pesquisa, a nova rota de inflação e os choques contínuos de custos tornariam uma flexibilização nos próximos meses uma medida precipitada.
“Existe a possibilidade de que o cronograma de cortes seja antecipado, mas apenas se a estrutura de criação de vagas enfraquecer de forma aguda”, avalia o estudo.
Caso o mercado de trabalho colapse com mais força do que o esperado, o Goldman Sachs afirma que o banco central americano colocaria os riscos inflacionários em segundo plano e agiria de imediato para estancar a sangria nos empregos.
O esperado é que o primeiro corte de juros venha em setembro, seguido por um segundo alívio na reunião de dezembro — movimento que levaria a taxa terminal de juros de volta para 3% a 3,25%.