A Casa Branca anunciou pela primeira vez no mês passado seu plano de reforçar a oferta cada vez menor de carne bovina nos Estados Unidos por meio da suspensão das tarifas. O programa entrou em vigor nesta semana, mas o governo Trump havia se recusado a dizer exatamente de onde viria a carne.
No Salão Oval, na sexta-feira, Trump confirmou que a carne está “vindo da Argentina. Está vindo do Brasil”, além de “alguns outros lugares”.
Trump garantiu que a carne é “muito limpa” e “muito boa”, depois que pecuaristas americanos, parlamentares e especialistas demonstraram preocupação de que a entrada em massa de carne estrangeira sobrecarregasse os postos de inspeção e introduzisse carne de qualidade inferior na cadeia de abastecimento alimentar.
Trump anunciou o plano de carne bovina sem tarifas um dia depois de participar de uma reunião a portas fechadas no Salão Oval com o bilionário brasileiro Joesley Batista, que é coproprietário da maior empresa de processamento de carne do mundo.
Exportadores brasileiros de carne bovina, que normalmente estão sujeitos a uma tarifa de 26,4%, recentemente se viram com grandes estoques de carne depois que a União Europeia anunciou que deixaria de aceitar importações do país porque o Brasil não estava cumprindo os padrões de segurança relacionados ao uso de antibióticos.
Na sexta-feira, Trump assinou duas ordens executivas relacionadas à produção de carne: uma permite que pecuaristas e agricultores abatam, processem, embalem e vendam seus próprios produtos; a outra exige a identificação do país de origem de toda carne bovina estrangeira.
Pecuaristas de alguns estados estão reagindo às regras que facilitarão o processamento da própria carne, alertando que o atual sistema federal de inspeção protege tanto a saúde pública quanto a confiança dos consumidores na carne bovina americana e “NÃO é burocracia”.
Os pecuaristas também pediram que seja obrigatória a identificação do país de origem na carne bovina estrangeira de menor preço que está entrando no país e estão incentivando os consumidores a procurar rótulos que indiquem que o produto foi criado nos Estados Unidos.
Por que a carne do Brasil e da Argentina é controversa?
A União Europeia implementou na quinta-feira uma proibição às importações de carne bovina brasileira porque a carne do país não está cumprindo os padrões europeus relacionados ao uso de antibióticos e à segurança alimentar.
A UE proíbe o uso em animais de antimicrobianos utilizados para tratar seres humanos, incluindo antibióticos, porque o uso excessivo pode criar bactérias resistentes que chegam às pessoas por meio de alimentos, contato ou do meio ambiente, tornando algumas infecções humanas mais difíceis de tratar.
A carne argentina ganhou destaque depois que 30 mil libras (13,6 toneladas) foram autorizadas a entrar no Texas e na Flórida sem serem inspecionadas por funcionários americanos.
Em agosto, a China se recusou a aceitar um carregamento de 22 toneladas de carne bovina da Argentina porque os inspetores encontraram evidências de contaminação por cloranfenicol. O cloranfenicol é um antibiótico estritamente proibido em animais destinados à produção de alimentos segundo os padrões dos Estados Unidos.
Como identificar a carne
Procure adesivos que indiquem “Product of USA” (“Produto dos EUA”) ou “Made in the USA” (“Fabricado nos EUA”). Isso significa que o produto vem exclusivamente de animais nascidos, criados, abatidos e processados nos Estados Unidos.
Outros adesivos aos quais os consumidores devem ficar atentos são “Born, Raised, and Harvested in the USA” (“Nascido, criado e abatido nos EUA”) ou “American Grassfed Association (AGA) Certified” (“Certificado pela American Grassfed Association”).
Se a carne for importada ou uma mistura de carnes, a lista do país de origem aparecerá em letras pequenas próxima ao rótulo nutricional ou à lista de ingredientes.
Os consumidores também podem verificar os selos ovais de inspeção do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, que trazem um número de identificação do estabelecimento. Esse número pode ser pesquisado na internet para encontrar a unidade exata onde a carne foi processada.
Contexto
Os pecuaristas americanos estão lidando com o menor número de cabeças de gado em 75 anos, após anos de secas severas e escassez de água nos estados produtores de gado.
Os preços da carne bovina moída atingiram níveis recordes, e grandes empresas do setor, como a Tyson Foods, começaram a fechar ou reduzir o tamanho de unidades de processamento devido à escassez de gado.
O plano de Trump levará aparas magras de carne bovina para serem misturadas com carne americana mais gordurosa, produzindo carne moída convencional, como as versões 80/20 ou 90/10.
Ele prometeu que a carne será vendida aos consumidores com desconto de 25%, mas especialistas afirmaram que é improvável que as importações tenham um impacto significativo sobre a oferta ou os preços.
Parlamentares republicanos e representantes de grandes estados agrícolas criticaram duramente o plano e afirmaram que as importações prejudicarão os pecuaristas americanos. Associações de pecuaristas também alertaram para padrões menos rigorosos de segurança alimentar em outros estados.
Reportagem publicada originalmente em Forbes.com