A FIFA projeta arrecadar US$ 8,9 bilhões (R$ 44,5 bilhões) com a Copa do Mundo de 2026, a maior da história, com 48 seleções e 104 partidas. Mas boa parte dos negócios criados pelo torneio acontece longe dos estádios. Aplicativos esportivos, creators, plataformas digitais, empresas de tecnologia e comunidades online disputam milhões de torcedores que acompanham cada convocação, jogo, polêmica ou gol pelo celular. Além de patrocinadores, emissoras e produtos licenciados, a Copa também alimenta uma economia digital que transforma audiência em receita.
A mudança representa uma nova etapa na monetização dos megaeventos esportivos. Se há pequenos empresários focados em oportunidades na venda de camisetas, bandeiras, cornetas e produtos temáticos, uma nova geração fatura com serviços digitais, conteúdo, comunidades online, dados e experiências personalizadas.
“Estamos atingindo um momento único em que esses negócios paralelos que se desenvolviam ao redor do futebol se tornaram digitais, eminentemente digitais e grandemente digitais”, afirma Moisés Cohen, especialista em finanças e gestão esportiva.
Atenção virou ativo
O torcedor moderno sustenta a nova economia da Copa. Ele assiste ao jogo enquanto acompanha estatísticas em aplicativos, comenta em grupos de WhatsApp, consome vídeos no TikTok, acompanha análises em podcasts, interage com influenciadores e recebe notificações em tempo real. Cada uma dessas interações gera audiência, dados e potencial de monetização.
O tamanho dessa oportunidade aparece nos números da própria FIFA. Dos US$ 8,9 bilhões (R$ 44,5 bilhões) em receitas, os direitos de transmissão devem responder por US$ 3,9 bilhões (R$ 19,5 bilhões), enquanto hospitalidade e venda de ingressos devem movimentar outros US$ 3 bilhões (R$ 15 bilhões). Os contratos de marketing somam mais US$ 1,8 bilhão (R$ 9 bilhões). O torneio terá 48 seleções e 104 partidas, o maior formato da história do Mundial.
Parte desse potencial foi observada antes mesmo do início da competição. A convocação da seleção brasileira para o Mundial alcançou 96 milhões de pessoas em apenas uma semana, segundo levantamento da Aurasight para a CBF. O estudo estimou que seria necessário investir R$ 134,5 milhões em mídia paga para gerar alcance semelhante. Foram ainda 848 mil publicações originais, 2,5 milhões de comentários e mais de 190 milhões de visualizações nas redes sociais da entidade.
Nesta quinta-feira, 12, apesar dos mais de 80 mil torcedores presentes no estádio de Gadalajara, no México, imagens de setores vazios na partida entre Coreia do Sul e República Tcheca reacenderam críticas aos preços dos ingressos. Para empresas que vivem de audiência digital, isso significa mais gente acompanhando o torneio pelas telas.
Não por acaso, a própria FIFA vem ampliando seus investimentos em canais digitais. O orçamento da entidade prevê recursos para tecnologia, produção de conteúdo, distribuição e expansão de plataformas próprias como FIFA.com, redes sociais e FIFA+, numa tentativa de transformar a relação com os torcedores em um vínculo permanente e não restrito aos dias de jogo.
Os creators entram em campo
Essa transformação abriu espaço para uma nova geração de empreendedores digitais. Se antes a Copa movimentava principalmente grandes veículos de mídia, hoje milhares de criadores independentes disputam parcelas da audiência.
Para Reginaldo Diniz, fundador da End to End, agência especializada que atua com clientes como Comitê Olímpico do Brasil (COB), Palmeiras, Atlético-MG, Grêmio e Botafogo, uma das principais mudanças é a descentralização da conversa esportiva.
“Os clubes falam com a torcida. Nós tentamos falar com o torcedor”, afirma. Segundo ele, o crescimento das plataformas digitais criou comunidades com linguagens próprias e exigiu um novo nível de profissionalização do mercado.
“Você tem que saber comunicar para o TikTok, para o Instagram, para o X, para a mídia online e para a mídia offline. Cada canal tem sua dinâmica e sua linguagem.”
A própria End to End decidiu apostar nesse movimento e lançou recentemente o TikTok Labs, iniciativa voltada para identificar e acelerar pequenos criadores de conteúdo esportivo espalhados pelo país. A ideia é conectar esses influenciadores a projetos desenvolvidos para clubes, federações e patrocinadores.
“A sensação é que o digital é para todo mundo, mas ele é para todo mundo dentro das suas respectivas comunidades”, afirma Diniz.
A economia da reação instantânea
Outro fator por trás do crescimento dessa economia é a inteligência artificial. Segundo Celso Camilo, professor de inteligência artificial da Universidade Federal de Goiás, a tecnologia reduziu drasticamente os custos de produção de conteúdo esportivo.
Hoje, um criador consegue gerar cortes automáticos, narrações em diferentes idiomas, análises táticas, traduções e distribuição simultânea para diversas plataformas com ferramentas que até poucos anos atrás estavam disponíveis apenas para grandes empresas.
“Estamos entrando na era da economia da reação instantânea”, afirma. Segundo o pesquisador, um gol, uma polêmica de arbitragem ou uma substituição podem disparar automaticamente vídeos, análises, memes, campanhas publicitárias e ofertas comerciais em poucos segundos.
“O que muda não é apenas a produção de conteúdo, mas principalmente a capacidade de personalização, segmentação e monetização em tempo real.” Para ele, a Copa de 2026 pode marcar uma virada histórica.
“A Copa pode ser o momento em que o futebol deixa de ser apenas um produto de transmissão para virar uma experiência digital personalizada em escala.” Diniz faz avaliação semelhante sobre a tecnologia. “A inteligência artificial é meio, não fim”, afirma.
O jogo bilionário fora do gramado
O alcance registrado antes mesmo do início da competição mostra o potencial de audiência e engajamento que estará em disputa durante o Mundial. Cohen acredita que a transformação ainda está no começo.”Quem diria que nós, torcedores, seríamos nós mesmos os canais de distribuição?”, afirma.
A FIFA estima arrecadar US$ 13 bilhões (R$ 65 bilhões) no ciclo entre 2023 e 2026, crescimento de 72% em relação ao período anterior. Mas uma parcela cada vez maior do valor econômico gerado pelo torneio já não fica apenas com organizadores, patrocinadores e emissoras.
Se nas Copas anteriores a oportunidade estava concentrada na venda de produtos ligados ao evento, em 2026 ela passa pela capacidade de capturar atenção, construir comunidades e transformar paixão em audiência. Para creators, plataformas, empresas de dados e startups esportivas, a disputa mais valiosa do Mundial pode acontecer longe dos gramados.