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Quem Manda no Dinheiro Digital: a Disputa entre Estado e Mercado nos Sistemas de Pagamento Instantâneo

Do Pix ao Zelle, passando pelo controle da China e pela explosão africana, os pagamentos em tempo real revelam escolhas políticas

6 min

Dominante no Brasil, o Pix está longe de ser inédito ou pioneiro. Ao contrário, os sistemas de pagamento instantâneo se tornaram, na última década, uma das infraestruturas mais estratégicas de qualquer economia. 

Quem os opera, o Estado, bancos privados ou uma combinação dos dois, define quem paga taxas, quem tem acesso, quem pode ser rastreado e quem fica de fora. O levantamento a seguir mapeia os principais sistemas do mundo segundo sua natureza de propriedade, separados por grupos de países.

Índia e China integram os BRICS, mas escolheram caminhos radicalmente distintos para organizar seus pagamentos digitais. Na Índia, o sistema Unified Payments Interface (UPI) é operado pela National Payments Corporation of India (NPCI). O NPCI é uma entidade sem fins lucrativos criada pelo banco central hindu e controlada por bancos públicos e privados.

O Estado define as regras, garante a interoperabilidade e proíbe a cobrança de taxas ao usuário final, mas deixa a camada de aplicativos para empresas privadas como PhonePe (grupo Walmart) e Google Pay. Em 2024, o UPI processou 172 bilhões de transações no valor de US$ 2,7 trilhões, sendo o maior sistema de pagamentos em tempo real do mundo por volume.

O governo indiano passou a exportar ativamente o modelo: acordos foram firmados com Gana, Namíbia, Cingapura, Emirados Árabes Unidos e outros países para implantar ou integrar o UPI localmente.

O caso da China é mais complexo. O ecossistema chinês tem quatro camadas sobrepostas. Na base, o Internet Banking Payment System (IBPS), lançado em 2010 pelo banco central é como um Pix, mas é quase desconhecido do público. Foi superado pelas plataformas privadas, o Alipay, do grupo Alibaba e o WeChat Pay, do grupo Tencent. Ambos processam cerca de 90% dos pagamentos digitais do país.

O Estado, porém, não abriu mão do controle: desde 2018, todas as transações dessas plataformas são obrigatoriamente roteadas pelo NetsUnion, câmara de compensação pública na qual o PBOC detém 37% do capital.

Países emergentes: a inclusão

Nos países emergentes fora dos BRICS, o padrão dominante é o de sistemas criados e operados diretamente por bancos centrais, com foco explícito em inclusão financeira.

No México, o Sistema de Pagamentos Eletrônicos Interbancários (Spei) é propriedade e operação do Banco de México desde 2004, tornando-o um dos sistemas estatais de pagamento instantâneo mais antigos do mundo. O Banco de México também criou camadas adicionais sobre ele: o CoDi, em 2019, e o DiMo, em 2023, ambos de titularidade pública.

No Paquistão, o Raast é operado diretamente pelo State Bank of Pakistan, com apoio financeiro da Fundação Bill & Melinda Gates e do Banco Mundial em sua fase de desenvolvimento. É integralmente público. Seu foco inicial foram as transferências do programa social Benazir Income Support Programme, usando o sistema como veículo de distribuição de renda para populações sem conta bancária.

No continente africano como um todo, 36 sistemas de pagamento instantâneo operam em 31 países. A quase totalidade foi criada por bancos centrais ou por câmaras de compensação interbancária reguladas por eles.

Na Nigéria, o sistema National Payment Stack (NPS) é operado por uma empresa criada pelo banco central nigeriano e pelos bancos comerciais em conjunto. Capital misto, regulação pública, mandato de inclusão financeira. O país tem 38 milhões de adultos sem conta bancária que o novo sistema pretende alcançar.

Países desenvolvidos: chegada tardia 

Os países mais ricos foram mais lentos em adotar pagamentos instantâneos. A explicação não é tecnológica — é estrutural. Essa nações contavam há décadas com sistemas bancários robustos, em especial cartões de crédito e débito. Para o consumidor, o custo de não ter um sistema de pagamento instantâneo era baixo. Para os bancos, criar uma infraestrutura que reduzisse as próprias tarifas de transferência era um desincentivo. E não havia urgência na inclusão financeira pelos reguladores.

O Reino Unido criou o Faster Payments Service em 2008, mas ele nasceu como infraestrutura interbancária, não como produto de consumo massivo. Os Estados Unidos chegaram ao FedNow apenas em 2023 — três anos depois do PIX —, e o sistema ainda enfrenta baixa adoção, com a maioria dos bancos participantes operando apenas no modo de recebimento. A Europa criou o padrão SCT Inst em 2017, mas sua adoção foi voluntária até 2024, quando um regulamento do Parlamento Europeu tornou obrigatória a oferta de pagamentos instantâneos por todos os provedores da zona do euro.

O Japão tem o Zengin desde 1973 — o mais antigo do mundo —, mas os pagamentos em espécie ainda representavam 62% do volume total de transações japonesas em 2023.

A natureza de propriedade nos países desenvolvidos também é mais fragmentada e menos estatal. O Zelle americano é um consórcio privado de sete grandes bancos, sem participação do Federal Reserve. O FPS britânico é operado pela Pay.UK, entidade privada sem fins lucrativos.

O NPP australiano pertence à Australian Payments Plus, controlada pelas próprias instituições financeiras. Apenas o FedNow americano e o TARGET Instant Payment Settlement europeu são diretamente operados por bancos centrais — e ambos funcionam como infraestrutura de liquidação de atacado, não como interface de varejo para o cidadão comum.

As vantagens do Pix

Nesse panorama, o PIX ocupa uma posição singular: é um sistema de propriedade e operação integralmente pública, com participação obrigatória para todas as instituições com mais de 500 mil clientes, gratuidade garantida por regulação para pessoas físicas, interoperabilidade plena e adoção que superou o cartão de débito em menos de dois anos.

A comparação internacional sugere que a velocidade e profundidade da adoção do PIX não foram acidentais. Foram o resultado direto de uma escolha regulatória: retirar dos bancos o poder de decidir se participavam ou não, e garantir ao cidadão que o acesso seria gratuito independentemente de qual instituição ele usasse. Onde essa escolha foi deixada para o mercado, o resultado — do Japão aos Estados Unidos — foi uma adoção mais lenta, mais desigual e mais cara.

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