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Governo Quer Taxar Criptomoedas com IOF. O Que Isso Muda para o Investidor

A ideia é equiparar a compra de criptomoedas às operações tradicionais de câmbio

5 min

A equipe econômica estuda aplicar uma alíquota de 3,5% de IOF sobre a compra de criptomoedas no Brasil. A proposta ainda está em fase de minuta e deve passar por consulta pública, então, nada entrou em vigor por enquanto, mas o simples anúncio já gerou ruído no mercado.

A ideia é equiparar a compra de criptomoedas às operações tradicionais de câmbio. Hoje, quando alguém compra moeda estrangeira ou envia recursos ao exterior, paga IOF. No caso das criptos, especialmente stablecoins atreladas ao dólar, essa conversão ocorre sem essa cobrança específica. O governo entende que existe uma distorção aí.

Segundo dados da Receita Federal, brasileiros declararam cerca de R$ 388 bilhões em criptoativos nos três primeiros trimestres de 2025. Mais de 70% desse valor estava em stablecoins. Ou seja, o uso de ativos digitais como ponte para o dólar deixou de ser marginal e se tornou prática relevante. É nesse ponto que entra a proposta do governo.

Por que o governo quer cobrar IOF

O argumento central é a neutralidade tributária. Se a compra de dólar paga IOF, a conversão de reais para stablecoins também deveria pagar. Do ponto de vista fiscal, a lógica é simples: evitar arbitragem tributária e ampliar arrecadação.

O Banco Central já havia dado um passo nessa direção ao equiparar determinadas operações com ativos virtuais a operações de câmbio. A tributação seria, portanto, uma consequência dessa classificação.

Há também um componente arrecadatório, pois o IOF é um imposto de fácil cobrança e rápida implementação via decreto. Em momentos de pressão fiscal, ele costuma aparecer como instrumento de ajuste. Entretanto, teoria e prática nem sempre caminham juntas.

O que pode acontecer na prática

Se a alíquota de 3,5% for aplicada sobre a compra direta de criptomoedas em exchanges que operam no Brasil ou que utilizam o sistema financeiro local, essas plataformas perdem competitividade.

Corretoras nacionais seriam obrigadas a reter o imposto e exchanges internacionais que operam via Pix também entrariam no radar. Com isso, o custo da operação subiria imediatamente.

Qual seria a reação natural do mercado?

Provavelmente, haveria migração para o mercado peer to peer (P2P), em que as transações são feitas de forma direta entre pessoas físicas, sem intermediação formal e que, portanto, escapam do agente arrecadador. Isso reduz a eficácia da medida e desloca parte do mercado para fora do ambiente regulado.

Além disso, teríamos o aumento da demanda por ETFs de criptomoedas, pois, ao investir via fundo listado em bolsa, o investidor compra cotas desses fundos sem precisar fazer a conversão direta de reais para o ativo digital. Dependendo do desenho final da regra, isso pode criar uma assimetria tributária e favorecer produtos estruturados em detrimento da compra direta.

Uma outra consequência possível seria o fortalecimento da autocustódia. Como o Bitcoin e outras criptos operam em rede descentralizada, a fiscalização fora das exchanges reguladas é complexa. Embora a obrigação tributária se aplique também aqui, claramente haveria grande dificuldade de fiscalização.

Em suma, se a medida for implementada, pode gerar efeitos colaterais importantes, como deslocamento de liquidez, perda de competitividade de empresas locais e aumento de informalidade.

O impacto para o investidor

O Brasil já possui tributação sobre ganho de capital em cripto, a exemplo do que é praticado nos Estados Unidos, União Européia e Reino Unido. A ideia agora é tributar a aquisição via imposto semelhante ao do câmbio, o que altera o custo inicial da alocação. Um IOF de 3,5% na compra significa que o investidor já começa com uma perda implícita que precisa ser compensada pela valorização futura.

É fundamental deixar claro: ainda não é regra em vigor. O texto deve passar por consulta pública e pode sofrer alterações ou até mesmo não avançar. Antecipar decisões sobre suas alocações com base em possibilidades não é recomendável

Se cripto faz parte da sua carteira, ela deve ocupar a parcela destinada a risco. Aquela pequena fatia que apimenta o portfólio, não a base da sua estratégia patrimonial. Política tributária você não controla. Alocação, disciplina e gestão de risco você controla.

Se a regra entrar em vigor, aí sim será o momento de recalcular custo, avaliar alternativas e decidir se faz sentido manter, reduzir ou migrar a forma de exposição. Antes disso, sair correndo pode gerar mais custo do que benefício.

Investimento não é reação a manchete. É execução de plano. E plano feito de forma cuidadosa não muda a cada proposta que surge em Brasília.

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