Luedji Luna, cantora e compositora: “A MPB vive um momento histórico de mudança”

O disco “Bom Mesmo é Estar Debaixo D’água”, da artista, foi indicada ao Grammy Latino 2021 na categoria melhor álbum MPB.

Donata Meirelles
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Luedji Luna se apresentou na cerimônia de premiação do Grammy Latino 2021 em Las Vegas

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A cantora baiana Luedji Luna tem confirmado uma bem-sucedida carreira artística. Esta semana – em que se comemora a Consciência Negra no Brasil – ela carimbou o passaporte em Las Vegas, na cerimônia de entrega do Grammy Latino 2021, como atração da noite e indicada na categoria melhor álbum MPB – o delicioso “Bom Mesmo é Estar Debaixo D’água”. E também está entre as estrelas fotografadas na primeira edição da ForbesLife Fashion, que será lançada no próximo dia 24 de novembro.

Mesmo não levando o prêmio – que ficou para o veterano Zeca Baleiro, com “Canções D’Além Mar” Luedji declara a importância da indicação: “Claro que eu queria um Grammy, mas estava junto com artistas incríveis. Inclusive com meu amigo Zé Manoel (com o álbum “Do Meu Coração Nu”). A gente costuma brincar que fizemos discos gêmeos, porque a estética e o discurso são muito parecidos”.

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Palavra e texto são muito presentes e fundamentais na trajetória musical de Luedji – iniciada em 2011, em Salvador, e oficializada em 2017, em São Paulo. “Procuro sempre fazer as letras das canções ou coloco música em poemas ou letras de compositoras negras, como Dejanira Rainha e Cidinha da Silva. A palavra é sempre feminina”, informa.

Natural de Salvador, 34 anos, Luedji cresceu em uma família classe média, estudou Direito e conta que se encaminhava para uma vida comum até se decidir pela música como expressão e meio de vida. Diz que se aceitou como artista, criou coragem, passou a se apresentar e foi se tornando um nome conhecido em Salvador.

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Na escala seguinte, São Paulo, chegou focada e com o violão em punho, mas “como na música do Belchior, eu não tinha parentes importantes e vinha do interior”, diverte-se. E a cidade grande se revelou generosa com ela. Percorreu o circuito alternativo, gravou um clipe que viralizou nas redes, criou um crowdfunding para gravar o primeiro álbum “Um Corpo no Mundo”, ganhou o prêmio Afro e APCA, soltou a voz no mundo (EUA, Canadá e Portugal), gravou o segundo álbum no Quênia – um dos 100 melhores no gênero World Music segundo a parada Transglobal World Music – e foi indicada ao Grammy Latino. Ah, também é mãe do pequeno Dayo, que aparece com ela no clipe “Ameixa”, parceria com o rapper Zudizilla, pai do garoto.

Com seu calmo sorriso baiano, Luedji resume: “A música me deu tudo que eu tenho”.

A seguir, trechos da conversa com a cantora, diretamente de Las Vegas, enquanto fazia as unhas, na véspera da cerimônia do Grammy Latino 2021.

Oscar da música
“Não vou negar, a indicação para o Grammy Latino não me pegou de surpresa. Porque o segundo álbum de um artista vem cercado de muita pressão e expectativa. Ainda mais se o anterior foi bem recebido. As opções são: fazer igual ou melhor. Eu caprichei. A indicação só confirmou.”

Reconfiguração MPB
“A indicação para o Grammy carimba o meu nome na MPB, um território que durante muito tempo foi elitista e branco. As grandes cantoras, todas maravilhosas, sempre foram brancas: Elis, Gal, Bethânia… Com cantoras negras pontuais: Elizeth Cardoso, Alaíde Costa, Elza Soares, Sandra de Sá… Nas minhas pesquisas encontrei uma tese de mestrado sobre essas vozes dissidentes, cantoras negras que optaram por não interpretar apenas sambas. A MPB vive um momento histórico de mudança, está se reconfigurando e começamos a ocupar esse território como cantoras e compositoras. Nomes da minha geração, como Ana Elisa, Liniker e Larissa Luz.”

Palavra preta
“Palavra Preta foi um projeto meu junto com a poeta e cantora brasiliense Tatiana Nascimento, para dar visibilidade às compositoras negras de todo o Brasil. Saímos em busca delas e realizamos um primeiro encontro em Salvador. Em seguida, participamos do Latinidades, em Brasília, o maior festival brasileiro de cultura negra. Infelizmente a vida nos levou para outros papéis e o projeto deixou de existir – não tenho mais tempo para coordenar uma empreitada desse tamanho.

Porém, meus dois álbuns são discos de uma artista negra com composições assinadas por mulheres negras.”

Coletivo e plural
“Nos meus trabalhos, procuro reunir várias pessoas porque minha vontade é nunca andar só. Durante muito tempo eu era a única pessoa negra nos ambientes que frequentava, como os colégios particulares onde estudei. Cansei de ser minoria. Hoje tenho a consciência de fazer parte de um grande bonde negro. De uma geração muito bonita.”

Mama África
“Gravei meu segundo álbum no Quênia, porque meu produtor, Kato Change, é queniano. Adorei conhecer o país e descobri uma realidade bem diferente daquela imagem que nos apresentam desde sempre, de uma terra miserável, doente e infeliz. Sim, existe muita pobreza e muitos problemas, como no Brasil, mas não é só isso. A vida musical e cultural é muito intensa. Fui em altas baladas, vi pessoas lindas nas ruas, nos outdoors, na TV. Fora que o país também é lindo. Eu me senti em Wakanda! Quero voltar várias vezes e recomendo muito a viagem.”

Pé na estrada
“Meu plano futuro é fazer turnês robustas, cantar em todos os lugares possíveis e imagináveis. Claro que no caminho vão aparecer músicas novas, trabalhos novos. E acredito que sucesso é contentamento, uma sensação interna, saber que se está trilhando o caminho certo. Eu ainda estou atrás dele, porque eu quero é mais.”

Com Mario Mendes

Donata Meirelles é consultora de estilo e atua há 30 anos no mundo da moda e do lifestyle.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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