Ansiedade: até onde devemos normalizá-la?

Estarmos tão conectados atualmente trouxe o mundo e a informação ao alcance das mãos e por outro lado o sentimento de estarmos sempre em dívida.

Paula Drumond Setubal
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Ansiedade não é aquele frio na barriga que torna a vida mais emocionante, e sim aquela que paralisa

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São 6:45 da manhã e não tocou nenhum despertador. Estou viajando sem meus filhos, eu não deveria dormir mais? O mundo está acontecendo lá fora, quem consegue dormir? Na verdade, tenho que cumprir um prazo. Escrevo ou deixo pro último minuto? Pensando bem, não sei nem sobre o que escrever. Meu coração já acordou acelerado. Conto que por trás da menina tranquila que aparento ser existe uma mente que não descansa?

Tudo bem, vou tomar café.

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Abro o WhatsApp. Dezessete mensagens pra responder e ainda são 7 da manhã. Não sei por onde começar, então não respondo nenhuma.

Lembrei: preciso fazer um pagamento, preciso responder aquele e-mail, preciso avisar a professora que hoje os gêmeos não irão na escola, preciso comprar aquele remédio. Preciso pedir um orçamento, preciso agendar aquela consulta, preciso mandar aquele presente. Preciso, preciso, preciso.

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Preciso tanto, que não faço nada.

A gente se acostuma a tanta coisa na vida que normaliza até o que jamais deveria ser normalizado. E foi assim que descobri que não era normal tudo o que vivi desde que me entendo por gente.

Que não era normal uma vida ficando doente antes de cada acontecimento importante. Que não era normal a gastrite nervosa que me consumia. Que não era normal uma mente que pensa acordada e dormindo, e que pensa tanto, que pensa que descansa. Que não era normal acordar exausta depois de dormir por 8 horas.

Por muitos anos foi assim.

A constante sensação de que o mundo não para, e que meditar por 20 minutos enquanto eu poderia ser produtiva e resolver outras coisas seria perda de tempo. A minha necessidade de executar mais de uma tarefa ao mesmo tempo pra sentir que meu tempo estava sendo bem aproveitado.

Essa ansiedade a que me refiro não é aquele frio na barriga que torna a vida mais emocionante, e sim aquela que paralisa.

Que a perfeição que eu me exigia não era aquela que traria o meu melhor, era a que me dizia que nada que eu fizesse seria bom o suficiente, então que talvez seria melhor não fazer nada.

Pouco se fala ainda em saúde mental, sobre a vida que existe entre as fotos editadas das redes sociais e o quanto elas podem afetar tanto positivamente quanto negativamente a pessoa do outro lado da tela.

Estarmos conectados da forma que estamos atualmente trouxe o mundo e a informação ao alcance das nossas mãos e por outro lado o sentimento de estarmos sempre em dívida.

Abrir o Instagram de manhã e ver que a fulana já acordou, correu 15 km, deixou os filhos na escola, fez supermercado, e está impecável às 8 da manhã pode servir de inspiração ou como um gatilho pra ansiedade.

E a realidade é que não sabemos o que acontece de verdade do outro lado. Eu mesma às vezes olho fotos antigas minhas e muitas vezes me recordo como me sentia um caco por dentro e ao mesmo tempo estava perfeita por fora, percebo como a gente disfarça bem.

Demorei a aceitar ir pra terapia, e lá parei por acaso. Então fui me conhecendo melhor, entendendo melhor, hoje sei reconhecer quando a ansiedade vem chegando, meus gatilhos e pontos fracos. Sei que o meu tempo é diferente do outro, e tudo bem.

Não vou dizer que superei, pois a estrada é longa, mas hoje sei que começar por algum lugar é melhor que não começar.

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