Em entrevista exclusiva ao Wall Street Journal, o CEO Tim Cook afirmou que aumentos de preços são “inevitáveis” diante da disparada nos custos dos chips de memória e armazenamento – componentes essenciais para praticamente todos os dispositivos eletrônicos produzidos pela companhia. Embora não tenha detalhado quando os reajustes ocorrerão nem quais produtos serão afetados, a declaração sugere que consumidores podem encontrar uma Apple mais cara nos próximos meses.
O momento não é trivial. A empresa se prepara para apresentar, em setembro, a linha iPhone 18, que deve incluir um aguardado modelo dobrável. Historicamente, lançamentos dessa magnitude servem como vitrine para avanços tecnológicos e estratégias comerciais. Desta vez, entretanto, a narrativa pode ser dominada por uma questão menos glamourosa: o custo crescente da infraestrutura que sustenta a revolução da inteligência artificial.
A escassez não está nos processadores que executam modelos de IA, mas nos componentes que armazenam dados. Servidores dedicados ao treinamento e à operação de sistemas de inteligência artificial consomem volumes cada vez maiores de memória DRAM e chips NAND, utilizados para armazenamento. O resultado é uma mudança profunda na dinâmica do mercado. Fabricantes que antes dependiam principalmente da demanda por smartphones e computadores agora encontram nos gigantes da computação em nuvem clientes muito mais lucrativos.
Desde que empresas como Google, Microsoft, Meta e Amazon iniciaram uma escalada bilionária de investimentos em inteligência artificial, os preços desses componentes dispararam. O efeito foi tão intenso que, segundo estimativas da consultoria TechInsights, a Apple precisaria acrescentar aproximadamente US$ 270 ao preço de um futuro iPhone Pro apenas para preservar suas margens atuais.
O fenômeno ilustra uma inversão de prioridades na indústria tecnológica. Durante décadas, smartphones foram o principal motor de crescimento para fabricantes de memória. Hoje, os centros de dados dedicados à IA ocupam esse posto. Enquanto um smartphone premium utiliza alguns gigabytes de memória, um único servidor voltado para inteligência artificial pode exigir dezenas de vezes mais capacidade, além de versões mais sofisticadas e rentáveis desses componentes.
Para a Apple, isso representa um desafio incomum. Acostumada a usar seu enorme poder de compra para negociar condições favoráveis com fornecedores, a empresa agora disputa espaço com clientes dispostos a assinar contratos de longo prazo e desembolsar bilhões de dólares antecipadamente para garantir fornecimento.
A concentração do mercado amplia o problema. Apenas três empresas dominam a produção global de DRAM: Samsung, SK Hynix e Micron. No segmento de memória NAND, a concorrência é ligeiramente maior, mas continua limitada a um pequeno grupo de fabricantes. Com a demanda superando a oferta, essas companhias passaram a direcionar parte crescente de sua produção para aplicações ligadas à inteligência artificial, onde as margens são mais atraentes.
Os investidores perceberam rapidamente a mudança. As ações das principais fabricantes de memória acumularam valorizações extraordinárias nos últimos doze meses, refletindo a expectativa de lucros recordes e de uma escassez que pode perdurar por anos.
A indústria corre para ampliar a capacidade produtiva. Novas fábricas estão sendo construídas e bilhões de dólares são investidos em expansão. Ainda assim, a oferta adicional pode não chegar com velocidade suficiente. O Morgan Stanley estima que a capacidade global de produção de wafers de DRAM crescerá cerca de 30% até 2027. Mesmo assim, a demanda da inteligência artificial continuará absorvendo boa parte desse aumento, deixando o mercado de eletrônicos de consumo em situação desconfortável.