As apostas esportivas online viraram febre no Brasil. Com publicidade em horário nobre, influenciadores digitais promovendo como se fossem gurus das finanças e promessas de lucros rápidos, esse fenômeno está se enraizando como uma epidemia perigosa.
É hora de olharmos para isso com seriedade proporcional ao custo que vem representando para o bolso, para a saúde mental e para o futuro de milhões de brasileiros.
Uma tempestade anunciada
Legalizadas em 2018, as apostas tomaram o país como um rastilho de pólvora. De lá pra cá, multiplicaram-se empresas, aplicativos e influenciadores digitais pagos a peso de ouro e que multiplicam suas fortunas pessoais induzindo pessoas ao vício. Não se trata apenas de uma mudança cultural: estamos vendo o crescimento de um mercado altamente lucrativo para poucos e perigosamente danoso para muitos.
Dados da Anbima de 2024, indicam que 23 milhões de brasileiros gastaram com apostas esportivas. Um número maior que o total de investidores em produtos como fundos, ações e títulos públicos. Desse total, 3 milhões têm alta tendência ao vício.
E aqui começa o problema real: não estamos falando apenas de lazer, mas de um comportamento compulsivo, muitas vezes mascarado como “entretenimento” ou pior que isso, como “investimento”. Sim, 4 milhões de brasileiros acreditam que estão investindo ao apostar, conforme revelou um estudo publicado na oitava edição do Raio X do Investidor Brasileiro 2024, da Anbima.
Por que as pessoas preferem apostar a investir?
Além da influência externa promovida pelo marketing agressivo e predatório das casas de apostas, há uma série de vieses comportamentais que levam as pessoas a preferirem apostas de risco em vez de investimentos seguros.
Os vieses comportamentais são uma espécie de atalho que o cérebro humano utiliza para automatizar decisões, economizando energia e tempo de raciocínio para certas escolhas. Eles são muito úteis para decisões mais simples do cotidiano, contudo, ao serem utilizados em momentos que deveríamos estar atentos e racionalizando ao máximo, os vieses acabam nos induzindo a erros sistemáticos que podem causar danos importantes.
Vieses como o do otimismo (“certeza que eu vou ganhar”), da disponibilidade (os poucos que ganharam são muito mais visíveis que os milhares que perderam), viés de confirmação (as vitórias confirmam a ilusão de controle) e o perigoso comportamento de manada (todo mundo está apostando, então deve ser seguro), são apenas alguns exemplos.
Esses atalhos mentais são explorados ao extremo por campanhas publicitárias que associam apostas a status, diversão e liberdade. Mas a realidade para quem se vicia é outra: noites sem dormir, faturas impagáveis, vergonha, isolamento, sensação de descontrole, endividamento com agiotas e, em muitos casos, destruição da estrutura familiar.
Quando apostar vira compulsão
O vício em apostas, ou ludopatia, já é reconhecido como transtorno mental pela OMS e pelo Ministério da Saúde. E os sinais estão por todo lado: a rede pública brasileira quase dobrou os atendimentos a jogadores compulsivos em 2024.
Segundo o Hospital das Clínicas, a fila de espera por tratamento pode chegar a 8 meses, e os mais afetados são adolescentes e jovens adultos, muitos deles deprimidos, endividados e com a vida acadêmica ou profissional comprometida.
Do ponto de vista da neurociência, o vício em apostas funciona como qualquer outro vício comportamental: ativa os mesmos circuitos cerebrais de recompensa, envolvem dopamina e criam um ciclo de reforço viciante. O problema é que, diferentemente de drogas ilícitas, esse vício está sendo promovido de forma irresponsável por figuras públicas, clubes de futebol e influencers com milhões de seguidores. Não é só irresponsabilidade: é um projeto de normalização do caos.
Quem perde nessa roleta?
A resposta curta: o brasileiro comum. A resposta longa: principalmente homens de 16 a 39 anos, de baixa renda, com ensino médio completo e moradores da região Sudeste. Segundo o Instituto Locomotiva, 86% dos apostadores online estão endividados, e 64% deles constam nas listas da Serasa.
Um exemplo ainda mais alarmante: somente em agosto de 2024, beneficiários do Bolsa Família gastaram cerca de R$ 3 bilhões em apostas — o equivalente a 20% do valor total do programa. Isso não é apenas uma distorção do propósito de uma política pública, é um alerta vermelho para o impacto econômico do vício.
Enquanto isso, as casas de apostas — muitas sediadas fora do Brasil e isentas de fiscalização mais rígida — lucram como nunca. Segundo estimativas do Banco Central e da PwC, o mercado movimentou R$ 130 bilhões só em 2024, e deve continuar crescendo caso nada seja feito.
A falsa ideia de “dinheiro fácil”
As casas de apostas funcionam com margens matematicamente pensadas para manter os apostadores sempre na expectativa da “próxima vitória”. Só que essa próxima vitória, estatisticamente, tende a não vir.
Enquanto você tenta recuperar o que perdeu, o cassino digital sorri. E se você ainda acredita que pode sair por cima, é provável que já esteja dentro do ciclo do vício — o excesso de confiança é, ironicamente, mais um viés comportamental.
O que pode ser feito?
O governo brasileiro começou a agir. Em 2024, bloqueou mais de 3 mil sites irregulares, introduziu regras mais rígidas para publicidade, proibiu o uso de cartões de assistência social em apostas e exigiu que as operadoras tenham sede no Brasil.
Nesta quarta-feira, 28, o Senado aprovou um projeto de lei que define novas regras para a publicidade de apostas online no Brasil. Entre as principais mudanças está a proibição da participação de atletas, artistas, comunicadores, influenciadores digitais e autoridades em campanhas publicitárias veiculadas no rádio, na televisão, em redes sociais e em outros meios digitais.
Além disso, o projeto estabelece restrições de horário para a exibição de anúncios de apostas no rádio e na TV, com o objetivo de reduzir a exposição desse tipo de conteúdo, principalmente entre o público mais vulnerável, como crianças e adolescentes.
O ideal seria a completa proibição da publicidade das bets, mas há muitos interesses econômicos que tornam isso bem difícil de acontecer. Ainda assim, se conseguirmos ter uma regulamentação severa, já teremos algum avanço.
Além disso, é fundamental que tenhamos políticas públicas verdadeiramente comprometidas em prover educação financeira em todos os níveis das escolas públicas, campanhas de conscientização e expansão da rede pública de saúde mental. Porque no final das contas, não estamos falando de um passatempo, mas de uma crise silenciosa que compromete o presente e o futuro de milhões de brasileiros e a economia do país.
Eduardo Mira é investidor profissional, analista CNPI-T (Anbima), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira, empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos. Está nas redes sociais como @professormira