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Por Que a Taxa de Juros É Tão Alta no Brasil?

Remanescentes da indexação, com correção automática de tarifas, mantém a inflação elevada e obriga o Banco Central a elevar a Selic

9 min

O Brasil detém, há anos, a incômoda posição de figurar entre os países com as maiores taxas de juros reais do mundo. Ocupando atualmente o segundo lugar no ranking, nossa taxa real de juros fica abaixo apenas da Turquia, cuja economia é bem mais frágil que a brasileira.

Esse cenário nos leva a um questionamento inevitável: por que a economia brasileira exige um custo de dinheiro tão elevado, mesmo em comparação com nações menos desenvolvidas ou de menor solidez institucional?

A resposta reside em uma teia complexa e multifacetada, envolvendo fatores históricos, estruturais e políticos de difícil compreensão e ainda mais difícil resolução.

Inflação inercial: o núcleo do problema

Para entender a raiz dos juros altos, vou te convidar a voltar comigo no tempo, especificamente ao período pós Plano Real, implementado em 1994, durante o governo de Itamar Franco, com execução e liderança técnica a cargo do então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso (FHC), que depois viria a se eleger presidente por conta do sucesso do plano de estabilização econômica.

Embora tenha sido de inquestionável eficácia no combate à hiperinflação que corroía o poder de compra e a estabilidade econômica há décadas, o plano não resolveu completamente um problema estrutural: a inércia inflacionária, conceito amplamente abordado por economistas como Pérsio Arida, Edmar Bacha e André Lara Resende.

Esses economistas que figuram entre os mais influentes da história recente do Brasil, especialmente por seu papel central na formulação do Plano Real, em suas obras discorrem sobre a tendência de a inflação de hoje ser significativamente influenciada pela inflação de ontem.

Isso ocorre devido a uma ampla gama de contratos e preços na economia brasileira serem reajustados automaticamente por índices de inflação passados (IGP-M, IPCA, INCC). Salários, aluguéis, financiamentos imobiliários, tarifas de serviços públicos (água, luz, telecomunicações), planos de saúde, medicamentos e aposentadorias, contêm gatilhos contratuais que, mesmo na ausência de novas pressões, propagam a inflação.

Em uma economia com inércia, o custo de vida sobe porque os contratos são reajustados pela inflação que já ocorreu, e esse aumento se torna um novo custo, retroalimentando o ciclo.

Elevação da Selic: remédio amargo ou efeito colateral?

Para conter essa inflação inercial e atingir suas metas inflacionárias, o Banco Central é forçado a praticar um aperto monetário, elevando a taxa básica de juros (Selic) a patamares maiores do que seria necessário em economias desindexadas. A Selic age, então, como um martelo para desaquecer a demanda e, teoricamente, quebrar essa espiral inflacionária.

É nesse contexto que entra em cena o Regime de Metas de Inflação, formalmente adotado pelo Brasil em 1999, após a crise cambial. Sob esse regime, o Banco Central tem um mandato claro e transparente de buscar uma meta de inflação pré-determinada, utilizando a Selic como seu principal instrumento.

A persistência de altos índices de preços, impulsionados por fatores internos (como a inércia, mas também pressões de demanda e fiscal) e externos (choques de oferta globais, por exemplo), mantém o Banco Central em uma posição de cautela. Assim, a existência da inércia inflacionária residual intensifica a necessidade do BC de usar a Selic de forma mais incisiva para cumprir sua missão, o que ajuda a explicar por que os juros precisam ser tão altos.

A desindexação completa da economia, ou seja, a transição para que o Real seja a única e confiável unidade de conta dos contratos, como ocorre em países desenvolvidos, onde não há indexação generalizada, foi uma oportunidade política perdida ou parcialmente executada após o Plano Real.

A resistência a essa desindexação é frequentemente atribuída à defesa de privilégios e interesses de grupos econômicos que se beneficiam da manutenção de um sistema que, de certa forma, protege seus valores contra a inflação, mas à custa de juros mais altos para toda a sociedade.

Plano real: o que a história nos conta sobre desindexação?

Embora haja enormes desafios para a desindexação de uma economia complexa como a nossa, e a total impossibilidade de realizar algo tão estrutural sem grandes choques, temos no próprio Plano Real um precedente a ser estudado.

Embora o Brasil não tenha desindexado 100% de sua economia, o Plano Real realizou uma desindexação parcial bem-sucedida com a URV. Isso pavimentou, naquele momento, o caminho para taxas de juros mais baixas e crescimento sustentável.

Houve um grande esforço para desindexar os preços em geral e os salários, no entanto, alguns elementos da indexação foram mantidos, e outros foram reintroduzidos ou permaneceram como “memória inflacionária” na economia.

Após o sucesso inicial do Real, a pressão por uma desindexação total diminuiu, pois a inflação não estava mais em patamares catastróficos. Muitos agentes econômicos se sentiam protegidos pela indexação em um cenário de inflação ainda presente, mesmo que baixa.

O fato é que a urgência e o consenso político para o Plano Real foram impulsionados pela crise da hiperinflação. Uma vez superado o pior, a energia política para reformas estruturais mais profundas, como a desindexação completa de todos os contratos e a mudança na composição da dívida pública, se dissipou, enfrentando resistências de grupos de interesse em setores específicos.

O que pensam os economistas?

No Brasil, o debate é acalorado. Economistas como Luiz Gonzaga Belluzzo e Laura Carvalho frequentemente criticam a dependência excessiva das altas taxas de juros, argumentando que elas estrangulam o investimento e a capacidade produtiva do país, perpetuando um ciclo vicioso de baixo crescimento e alta desigualdade.

No âmbito internacional, as opiniões de Belluzzo e Carvalho encontram respaldo em grandes economistas, como Paul Krugman (Nobel de Economia em 2008) e Stephanie Kelton (integrante da lista das 50 mentes mais brilhantes do mundo pela Prospec Magazine 2020).

Essa corrente econômica defende a importância do investimento público e da demanda agregada para impulsionar a economia, e considera a política monetária como um instrumento para apoiar esses objetivos, e não como um fim em si mesma.

Por outro lado, economistas da escola monetarista, como os seguidores de Milton Friedman (Nobel de economia em 1976), enfatizam a importância do controle da inflação como pré-condição para o crescimento sustentável. Eles defendem a autonomia dos bancos centrais e a utilização da taxa de juros como principal ferramenta para ancorar as expectativas inflacionárias, mesmo que isso implique em juros mais altos no curto prazo.

Há luz no fim do túnel para os altos juros?

Sair desse ciclo que se retroalimenta, exige que a sociedade e a classe política priorizem o crescimento de longo prazo e a estabilidade em detrimento de interesses de curto prazo de grupos específicos.

Não basta uma medida isolada. É necessário um pacote de reformas que combinem medidas práticas e um consenso político-social duradouro:

  1. Desindexação aprofundada da economia: isso significa que reajustes de salários, aluguéis e tarifas não seriam mais atrelados automaticamente a índices de inflação passados, mas sim a negociações de mercado e a expectativas de inflação futura (desde que esta seja baixa e crível). Embora politicamente desafiador, por mexer com privilégios e resistências, é essencial para extinguir a inércia.
  2. Aumento da produtividade e investimento: a estagnação da produtividade do trabalhador brasileiro está ligada à falta de investimento em capital. Isso exige um ambiente de negócios mais favorável, segurança jurídica e, sobretudo, um forte investimento público em infraestrutura. Como mostra a experiência de países como a Coreia do Sul e a China, o investimento público em infraestrutura aumenta a produtividade do capital privado e fomenta o crescimento.
  3. Reequilíbrio da financeirização: incentivos devem ser criados para que o capital flua para o setor produtivo, gerando riqueza real e empregos, em vez de se concentrar em aplicações financeiras. Isso passa, necessariamente, por discussões sobre a estrutura tributária e a regulação.
  4. Gestão ativa da dívida pública: reduzir a proporção de títulos pós-fixados na dívida, aumentando a participação de títulos pré-fixados e indexados à inflação com prazos mais longos, diminui a sensibilidade da dívida às oscilações da Selic e mitiga o conflito de interesses.
  5. Reforma tributária e fiscal responsável: uma reforma que simplifique o sistema tributário, o torne mais progressivo e transparente, aliada a uma gestão fiscal que garanta a sustentabilidade da dívida pública, são fundamentais para reduzir o “risco-Brasil” e, consequentemente, a necessidade de juros altos.

Em conclusão, a alta taxa de juros no Brasil é um reflexo de uma batalha contínua contra a inércia inflacionária e de desequilíbrios estruturais. A “luz no fim do túnel” é uma construção que exige coragem política, consenso social e a implementação consistente de reformas que priorizem o investimento produtivo, a estabilidade de preços por meio da desindexação e um crescimento econômico mais inclusivo.

O caminho é complexo, mas a história já nos mostrou que, com vontade política e articulação inteligente e proativa com os setores estruturais da economia, é possível transformar a realidade econômica do país.

Eduardo Mira é investidor profissional, analista CNPI-T (Anbima), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira, empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos. Está nas redes sociais como @professormira

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