O atual momento de mercado é especialmente favorável para quem investe em ações com foco no longo prazo. E não é apenas uma percepção intuitiva, mas sim o resultado de análises que faço diariamente como investidor profissional. Os dados, os preços e o cenário macroeconômico apontam nessa direção.
Apesar das incertezas políticas e fiscais, da taxa de juros ainda elevada e da instabilidade internacional, com destaque para o entrave causado pelo tarifaço do governo Trump, a bolsa brasileira segue apresentando ativos de qualidade sendo negociados com desconto.
Esse tipo de distorção acontece por inúmeros fatores, e fica ainda mais evidente em momentos em que o curto prazo impõe ruído suficiente para desviar a atenção dos fundamentos.
Justamente por isso, investidores que mantêm uma visão de médio e longo prazo, com disciplina e critério técnico, encontram agora um conjunto de oportunidades interessantes. Não se trata de previsões otimistas, mas de uma leitura objetiva da relação entre preço e valor.
O cenário atual e seus efeitos sobre os preços
A economia brasileira vem operando sob juros elevados por um período prolongado. A taxa Selic atual, de 15% ao ano, é o maior patamar de juros desde 2006, o que naturalmente reprime a atividade e afeta as projeções de crescimento.
Essa taxa torna a renda fixa muito atrativa e, quando se soma a isso a percepção de risco fiscal e a sensibilidade do investidor estrangeiro a ruídos políticos, o resultado é que boa parte dos investidores tende a se afastar da bolsa de valores. A meu ver, um movimento totalmente contraintuitivo.
Acontece que quando olhamos para determinados ativos de bolsa nesse momento, a fotografia é bem interessante. Empresas sólidas, lucrativas, com boa estrutura de capital e presença relevante em setores estratégicos da economia, seguem negociadas a múltiplos que não refletem seu potencial real de geração de valor.
É o caso, por exemplo, de empresas dos setores de energia, bancos, mineração, exportadoras e varejo essencial. Algumas dessas companhias seguem entregando resultados consistentes e, ainda assim, estão com preço sobre lucro (P/L) e preço sobre valor patrimonial (P/VPA) abaixo da média histórica.
Essa diferença entre valor percebido e valor real é justamente o que abre espaço para alocações mais eficientes. A lógica é simples: quando o preço de um ativo não incorpora adequadamente a capacidade da empresa de gerar valor no tempo, o investidor disciplinado e com visão de longo prazo, pode se beneficiar desse descompasso.
Fundamentos sólidos e dividendos consistentes
Outro aspecto relevante é a consistência dos lucros. Empresas com histórico de resultado positivo ao longo de diferentes ciclos econômicos oferecem ao investidor uma previsibilidade maior, ainda que o preço de mercado oscile.
Além disso, a distribuição de dividendos tem se mantido atrativa em muitas dessas companhias. Bancos públicos e privados, companhias de energia e outras empresas maduras seguem apresentando dividend yields elevados, com boa perspectiva de manutenção para os próximos trimestres.
Essa combinação de preço atrativo, resultado consistente e geração de caixa com distribuição é um dos pilares de uma alocação fundamentada. E não é comum encontrá-la com a frequência e intensidade que estamos vendo agora.
A filosofia de Graham aplicada ao momento atual
Para quem estuda investimentos com profundidade, a lógica do value investing permanece atual. Benjamin Graham, a maior referência nesse campo, defendia que o investidor deveria sempre buscar empresas com valor intrínseco superior ao valor de mercado.
Essa diferença, conhecida como margem de segurança, serve tanto como proteção contra erros de análise quanto como motor de potencial valorização futura. Quando o investidor compra uma ação com desconto em relação ao seu valor real, ele reduz o risco e amplia a chance de retorno.
Além disso, Graham sempre alertou para a diferença entre investir e especular. Investimento envolve análise, paciência e uma expectativa razoável de retorno ajustado ao risco. Especulação, por outro lado, busca ganhos rápidos com base em movimento de preços, sem conexão com os fundamentos do ativo.
Aplicar essa lógica ao momento atual significa ignorar as oscilações de curto prazo e focar na essência: empresas que seguem lucrativas, com ativos tangíveis, boa gestão e capacidade de atravessar diferentes ciclos econômicos.
O papel do conhecimento na construção patrimonial
O maior diferencial do investidor está na forma como ele decide, e essa decisão melhora à medida que o conhecimento aumenta.
Saber identificar o valor de uma empresa, compreender os indicadores financeiros básicos e manter a disciplina diante das variações do mercado são habilidades que podem ser desenvolvidas.
Minha sugestão é que você esqueça os “econocoachs” e suas dicas “infalíveis” de enriquecimento rápido. Há muita gente séria trabalhando para democratizar o acesso ao conhecimento sobre finanças e investimento e é nisso que você deve focar.
Estamos, sim, diante de um bom momento para investir em ações. Mas é um bom momento principalmente para quem estuda, compara, entende os riscos e toma decisões com base em critérios.
Em tempos de excesso de opinião e escassez de análise, investir com fundamento continua sendo a melhor forma de se proteger dos ruídos e construir patrimônio com propósito.
Eduardo Mira é investidor profissional, analista CNPI-T (Anbima), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira, empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos. Está nas redes sociais como @professormira