Eu estava almoçando com um amigo na semana passada quando ele me contou uma história interessante. Ele havia passado três meses pesquisando qual notebook comprar. Para isso, ele percorreu a jornada que a maioria de nós percorre para compras mais caras: comparou preços, leu reviews, pesquisou fóruns, fez planilhas, pediu opinião a amigos. No final, teve êxito, comprou um ótimo notebook e ainda economizou R$ 400 numa compra de R$ 5 mil.
No mesmo dia dessa compra, também assinou um app de meditação por R$ 35 mensais sem nem ler os termos de uso. “Dois cliques e assinatura feita”, disse ele, rindo da própria contradição.
Saí do almoço pensando sobre a revolução silenciosa que vem ocorrendo na forma como gastamos dinheiro. Pensei nisso como o “Efeito Netflix”, me apropriando de uma expressão que já havia lido antes, mas num contexto diferente, no caso, sobre como o streaming revolucionou o consumo de cultura e entretenimento. Gostei da expressão, porque ela tem o espírito do nosso tempo e serve perfeitamente ao ponto que quero refletir com você hoje.
A revolução silenciosa dos micro gastos
Quando falo em “Efeito Netflix” não é para culpar a plataforma de streaming, inclusive, gosto bastante. Mas o fato é que ela popularizou um modelo que está reprogramando nossa contabilidade mental de uma forma impressionante.
Quando foi a última vez que você hesitou antes de assinar algo que custava R$ 15, R$ 20, ou R$ 40 por mês? Agora compare com a última vez que você comprou à vista algum produto ou serviço que custava R$ 300 ou R$ 400. Muito provável que, nesse segundo caso, você tenha pesquisado e, talvez passado pelo menos um ou dois dias pensando se realmente valia a pena, por mais útil que o produto ou serviço fosse de fato.
As formas diferentes de tomar decisões quanto a gastos, é que independente da geração à qual cada um de nós pertença, nosso cérebro não foi programado para lidar com essa nova realidade dos gastos recorrentes digitais. E as empresas sabem disso muito bem.
Por que decidimos tão rápido nos pequenos gastos?
A psicologia econômica e a antropologia do consumo estudam amplamente essa questão, e entre os principais motivos, temos:
- A dor diluída: Quando você compra um smartphone, um notebook ou um eletrodoméstico os valores são relevantes, então, mesmo que você opte por parcelar, a dor do pagamento no momento da compra é relativa ao valor total do produto. Por outro lado, uma assinatura de R$ 30 mensais parece inofensiva.
A tendência é que a gente busque justificativas pouco racionais, mas muito confortáveis, como “é menos do que o preço de um lanche” ou “um ingresso de cinema custa mais que a assinatura toda”.
Entretanto, se você fizesse a conta, veria que os R$ 30 por mês equivalem a R$ 360 por ano. Você pagaria esse valor à vista pelo seu streaming de música? Provavelmente não, mas R$ 30 por mês é tão pouco…
- A ilusão da reversibilidade: o famoso “cancele quando quiser” nos dá uma falsa sensação de controle que nos leva a subestimar o contexto real.
- O efeito âncora invertido: normalmente ancoramos preços em valores altos. Mas as assinaturas criaram uma âncora invertida: a gente compara tudo com “apenas R$ 9,90 por mês”, “apenas R$ 20 por mês” e, de repente, qualquer coisa abaixo de R$ 50 por mês passa a parecer “barato”.
A verdade é que não é! No meu canal do Youtube há uma carteira recomendada de ações que você consegue montar investindo R$ 50 por mês! Empresas pagadoras de dividendos, e se você mantiver a consistência de aportes, podem ajudar muito no seu plano de independência financeira. Então não, R$ 50 não é pouco dinheiro!
O custo real do “dinheiro invisível”
Fiz um exercício interessante: somei todas as assinaturas de streaming de filme, de músicas, nuvens de armazenamento, clubes de desconto no app de delivery de comida, academia digital, licenças de software, app de meditação, etc. O resultado? R$ 400 por mês, ou quase R$ 5 mil por ano.
Se alguém me oferecesse um pacote de R$ 5 mil à vista com tudo isso, eu provavelmente analisaria cada detalhe antes de decidir, pesquisaria alternativas e talvez até negociasse um desconto. Mas quando o valor é pulverizado em dezenas de pequenos débitos, meu cérebro classifica como irrelevante e segue a vida
A aversão à perda influenciando até pequenas decisões
O mais fascinante é como isso mexe com nossa psicologia. Depois de alguns meses pagando uma assinatura, ela vira “nossa”. Cancelar gera a mesma sensação de perda que jogar fora algo que já possuímos. Por isso, continuamos pagando por apps que usamos menos de uma vez por mês, ou streaming services que assistimos só eventualmente.
As empresas sabem disso. Elas estudam a psicologia humana profundamente e a partir dela, mantêm um modelo de operação muito eficaz: preços âncora baixos para atrair o cliente, processos de cancelamento complexos para criar atrito, renovação automática para explorar a inércia e ofertas “por tempo limitado” para criar urgência.
Não é ilegal, não é antiético, é só business intelligence explorando nossas fraquezas cognitivas. O resultado é que a taxa de cancelamento da maioria dos serviços é surpreendentemente baixa, mesmo entre usuários inativos.
Estamos criando, assim, uma nova categoria de gastos: o “dinheiro invisível” que pesa no orçamento, mas que nosso cérebro simplesmente não consegue processar como “gasto real”.
Hackeando o cérebro para escolhas melhores
A questão não é demonizar as assinaturas, afinal, muitas delas realmente agregam valor à nossa vida. O problema é que perdemos o hábito de questionar, de tempos em temos, se cada uma delas ainda faz sentido.
Existem algumas estratégias simples que podem ajudar:
- Revisão periódica: crie o hábito de, pelo menos a cada seis meses, revisar suas assinaturas. Nessas revisões é muito provável que você encontre mais de um app com funções semelhantes, streamings que não usa com frequência, serviços de armazenamento em nuvem que nem mesmo lembra a senha pois não usa para coisa alguma.
- A regra dos 12 meses: antes de assinar qualquer serviço, calcule o valor anual e se pergunte: “eu pagaria esse valor à vista hoje?”. Se a resposta for não, provavelmente vale repensar se o custo mensal realmente vale a pena.
- O método da dor concentrada: configure todas as suas assinaturas para serem cobradas no mesmo dia do mês. Sentir a “dor do pagamento” inteira de uma vez só, vai te manter mais alerta quanto ao que realmente é útil entre os serviços que assina.
- Cartão dedicado: use o mesmo cartão para todas as assinaturas e acompanhe os gastos por categoria em sua fatura.
Algo interessante irá acontecer quando você começar a cancelar serviços desnecessários, especialmente se colocar na ponta do lápis quanto despendeu de recursos por coisas que não estava usando. Você irá aprender muito sobre a forma como sua mente processa pequenos gastos.
Mais que economizar: treinar o cérebro para a economia da atenção
A ideia aqui não é, em hipótese nenhuma, cair na falácia de que você irá enriquecer porque economizou R$ 20 ou R$ 30 por mês. Não se trata disso. A questão é que a forma como lidamos com desperdícios, mesmo pequenos, revela muito sobre disciplina, foco e hábitos financeiros.
Quem subestima os pequenos valores “porque não fazem diferença”, provavelmente subestima também o poder dos pequenos aportes no longo prazo. A disciplina financeira começa com pequenas mudanças de hábito e na tomada de consciência sobre o quanto pequenos “vazamentos” podem, gota a gota, drenar capacidade e mesmo a vontade de construir riqueza real.
A neuroplasticidade, capacidade do cérebro de criar novas conexões neurais, fortalecer ou enfraquecer as existentes e desenvolver novas habilidades, é uma grande aliada que você deve aproveitar. Criar “novos músculos mentais” é fundamental para não ser vítima das próprias decisões automáticas.
Então, da próxima vez que alguém te oferecer algo “por apenas R$ 29,90 por mês”, lembre-se que não se trata dos R$ 29.90, mas sim, de reprogramar seu cérebro para a nova economia da atenção. E isso não tem preço. Ou melhor, tem sim: R$ 358,80 por ano, para ser exato.
Eduardo Mira é investidor profissional, analista CNPI-T (Anbima), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira, empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos. Está nas redes sociais como @professormira