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Além do Aumento de Preço: Descubra as Três Formas Furtivas Que Destroem Seu Real

Entender esse mecanismo é essencial se você deseja proteger seus recursos investir de modo consciente

7 min

Nos últimos tempos, uma situação tem sido recorrente: você vai ao supermercado e toma um choque, de novo. O preço subiu, sim, mas espere: a barra de chocolate está menor. O pacote de biscoito encolheu. O iogurte tem a mesma embalagem, mas a receita está mais “econômica”. Seu dinheiro está evaporando de três formas, e você só enxerga uma.

Seu poder de compra está sendo destruído por uma tríade perversa: a inflação tradicional, a reduflação e a qualiflação. Todas elas se conectam com a forma como o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) é medido no Brasil, e com a dinâmica da oferta de dinheiro no sistema. 

Entender esse mecanismo é essencial se você deseja proteger seus recursos, investir de modo consciente e, dessa forma, reduzir os efeitos da perda do poder de compra 

A inflação visível e as limitações do IPCA

A inflação, em definição clássica, refere-se ao aumento generalizado e sustentado dos preços de bens e serviços em uma economia. No Brasil, ela é medida principalmente pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Quando o IPCA sobe, é oficial: seu dinheiro vale menos, e você compra menos com ele. Em 2024 o IPCA fechou em 4,83% no acumulado anual, ultrapassando o teto da meta oficial (4,5 %) estipulado pelo Banco Central do Brasil. Este ano, a inflação acumulada de janeiro a setembro está em 3,64%.

Basicamente, esses números apontam quanto o real desvalorizou em determinado período, mas essa é a inflação visível. O fato é que o IPCA é uma média. Ele mede o preço de uma cesta de bens. 

O problema? O índice não foi feito para capturar a essência da perda do poder de compra em tempo real, nem os fatores que corroem seu poder de compra de forma mais furtiva e quase invisível como a reduflação e a qualiflação.

O golpe silencioso: reduflação e qualiflação

Enquanto a inflação tradicional exprime os dados oficiais, a reduflação e a qualiflação corroem seu bolso de forma quase invisível.

A reduflação (ou shrinkflation)  é a prática de reduzir a quantidade ou o tamanho do produto, mantendo ou até aumentando o preço nominal. Você paga o mesmo, mas leva menos.

Assim o consumidor paga “o mesmo” mas recebe menos. Por exemplo, uma barra de chocolate que passou de 120 g para 80 g sem redução proporcional de preço. Ou um pacote que antes continha 1kg agora 900g. Esse fenômeno tem sido observado de forma recorrente nos itens de consumo de quase todas as categorias.

Essa erosão é silenciosa e não aparece diretamente no IPCA como aumento de preço, porque o preço nominal pode permanecer estável. Mesmo assim, há perda de valor real para o consumidor: o volume ou a quantidade de produto que você recebe é menor. 

A qualiflação (skimpflation) é a deterioração da qualidade ou do serviço enquanto o preço se mantém ou sobe. A embalagem é a mesma, mas os ingredientes são mais baratos, o atendimento piorou, ou a durabilidade diminuiu. Você paga pelo nome, mas recebe menos valor.

Embora haja menos dados formalizados para qualiflação no Brasil, o conceito já é reconhecido no debate de economia e consumo. A consequência é a mesma: você paga “o mesmo” ou mais, mas recebe “menos valor”.

Tanto a reduflação quanto a qualiflação são válvulas de escape para as empresas que enfrentam custos maiores (matéria-prima, energia, logística) e não querem arriscar uma rejeição do consumidor com um aumento de preço aberto. O resultado é o mesmo para você: seu poder de compra real cai mais rápido do que o IPCA sugere.

O fator-chave: expansão monetária e base monetária

Uma das causas estruturais está na expansão da base monetária, que é o total de dinheiro em circulação somado aos depósitos à vista. A lógica é simples: se há mais dinheiro correndo atrás da mesma quantidade de bens e serviços, a pressão para a alta de preços aumenta.

Um estudo recente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) analisou a base monetária brasileira entre 2018 e 2023, e apontou uma expansão acumulada de R$ 120,7 bilhões. Um dos grandes fatores de expansão foi a necessidade da sociedade por mais papel-moeda, que cresceu R$ 76,6 bilhões no período.

Em 2020, no pico da pandemia, a atuação do governo para assistência social elevou a base monetária, que chegou a 5,7% do PIB, acima da média histórica. Mesmo com a queda posterior, o que se viu no período de 2018-2023 foi um complexo jogo de forças do Banco Central (BC) e do Tesouro Nacional para gerir essa liquidez.

Por exemplo, apesar da sociedade demandar R$ 120,7 bilhões a mais em moeda no período, outras operações do BC e do Tesouro, como a venda de dólares e a emissão de títulos no mercado primário, geraram uma contração monetária de R$ 217,45 bilhões. 

Para compensar e garantir que a quantidade de moeda em circulação fosse adequada, o Banco Central precisou injetar R$ 338 bilhões de moeda na economia via recompra de títulos públicos no mercado secundário.

Em resumo, o que o estudo do BNDES deixa claro é que a política monetária é complexa e exige uma gestão constante do Banco Central para evitar que a liquidez descontrole a meta de inflação. Mas é justamente nessa gestão, nesse aumento e retirada constante de dinheiro do sistema, que o combustível da inflação é mantido aceso, alimentando não só o IPCA, mas também a pressão que leva empresas a recorrerem à reduflação e qualiflação para manterem suas margens. O dinheiro é mais abundante no sistema, e o resultado é o enfraquecimento contínuo do seu Real.

Proteger seu patrimônio é sua principal tarefa

Seu salário não é corrigido pela inflação oficial, muito menos pelos golpes da reduflação e qualiflação. O impacto real sobre sua vida é maior do que os 5,17% de IPCA acumulado nos últimos 12 meses É por isso que você não pode se dar ao luxo de deixar seu dinheiro parado.

Mais do que simplesmente guardar dinheiro, é fundamental que você entenda como o mercado funciona, como são os ciclos econômicos, e como a taxa de juros e a expansão monetária te afetam.

Seu dinheiro precisa correr mais rápido do que a soma da inflação, reduflação e qualiflação, e para isso, conhecimento, combinado com consumo consciente e diversificação de investimentos são suas armas.

Assuma o leme da sua vida financeira

O IPCA é apenas a ponta do iceberg. A expansão da base monetária é o motor estrutural que, somado à reduflação e qualiflação, trabalha para diminuir o valor real do seu esforço diário.

Você pode continuar ignorando esse jogo e vendo sua renda e patrimônio derreterem ano após ano. Ou você pode aceitar a realidade, agir e buscar o conhecimento financeiro necessário para não ser a vítima passiva da próxima rodada de aumentos invisíveis.

A escolha é sua. Mas lembre-se: hoje, no Brasil, aprender a investir não é uma questão de querer ficar rico; é a sua única garantia de não ficar mais pobre.

Eduardo Mira é investidor profissional, analista CNPI-T (Apimec), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira, empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos. Está nas redes sociais como @professormira

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