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Porque o Mundo Precisa de Um Cofre Global de Sementes

E por que a Embrapa também tem o seu, com 2,1 milhões de amostras vegetal, animal e de microorganismos?

7 min

O Svalbard Global Seed Vault (Cofre Global de Sementes de Svalbard) é mais do que um abrigo para sementes: é um pilar para a segurança alimentar global. Localizado na gelada Noruega, país com temperatura média de -10°C, mas que pode descer abaixo de -30°C, como em de 6 de janeiro de 2024 – a mínima histórica foi em 1886, de -51,4°C –, o banco é uma segurança importante da biodiversidade global.

Para o Brasil, responsável por uma parcela significativa da economia e da segurança alimentar mundial, o cofre é uma segurança para a resiliência das culturas e das pesquisas de sua produtividade frente a desafios climáticos e sanitários. O Brasil tem Seed Vault 4.757 amostras depositadas, incluindo milho, feijão, mandioca e pimentas nativas.

Mas a relevância do cofre vai além da conservação. Ele é um repositório crítico para pesquisas agrícolas e melhoramento genético. De acordo com Cary Fowler, um dos idealizadores do Seed Vault, “a diversificação genética armazenada no Svalbard é essencial para adaptar a agricultura às mudanças climáticas e às novas ameaças de pragas e doenças”.

Uma Resposta Global aos Desafios Alimentares

A ideia de bancos genéticos remonta ao século 20, quando cientistas como Nicolai Vavilov alertaram para a erosão genética causada pela modernização agrícola. Em 1967, uma conferência da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) marcou o início de uma rede internacional de conservação de recursos fitogenéticos, culminando no Tratado Internacional sobre Recursos Fitogenéticos para a Alimentação e Agricultura (ITPGRFA) em 2001. É esse tratado, ratificado pelo Brasil, fornece as bases jurídicas para o compartilhamento seguro de recursos genéticos.

No final do ano passado, o Seed Vault voltou a ser notícia no mundo inteiro. Em outubro, o cofre recebeu um dos maiores depósitos desde 2020, com mais de 30 mil amostras de 23 depositantes de 21 países, incluindo o Brasil. Sementes de sorgo e gergelim adaptadas a climas extremos, enviadas pelo Chade, e variedades de milho e feijão tradicionais da Bolívia foram destaques. “Esse evento sublinha a importância crescente do Seed Vault diante das ameaças climáticas e crises alimentares”, afirmou Luigi Guarino, do Crop Trust, uma das entidades responsáveis pela operação do cofre.

Entre os principais depositantes estão o Sistema Nacional de Germoplasma de Plantas dos EUA (NPGS),com 135.237 amostras depositadas; o Instituto Leibniz de Genética de Plantas (Alemanha), com 58.862;  o Centro de Recursos Genéticos Vegetais do Canadá, com 32.609; o Banco Australiano de Pastagens (Austrália), com 28.493; o Centro Nórdico de Recursos Genéticos (NordGen, da Suécia), com 26.820; o Centro Nacional de Agrobiodiversidade (Coreia do Sul), com 23.185 e o Centro de Recursos Genéticos (Países Baixos), com 21.703 amostras depositadas.

O Papel do Brasil na Preservação Global

EmbrapaBanco Genético da Embrapa, em Brasília

Da parte do Brasil, a responsável pelo envio das sementes desde julho de 2008, quando foi assinado o acordo de cooperação, é a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). No mais recente pacote de sementes enviadas estão variedades crioulas cultivadas por comunidades tradicionais e espécies comerciais, como arroz e milho. Esses depósitos garantem que o país tenha um backup genético seguro para enfrentar desafios como estiagens, pragas e mudanças climáticas.

Em 2020 também, pela primeira vez, a pesquisadora Rosa Lia Barbieri, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, unidade localizada em Brasília, passou a ocupar uma cadeira no Painel Consultivo Internacional (IAP, sigla em Inglês), na gestão do Seed Vault. Na época, a Embrapa era a única instituição de pesquisa da América Latina presente no Painel. Desde 2002 na Embrapa, hoje ela está na Embrapa Clima Temperado, em Pelotas (RS), como chefe de pesquisa e desenvolvimento nos núcleos temáticos de recursos naturais.

Mas o Seed Vault também enfrenta desafios. A dependência de financiamentos internacionais e a falta de colaboração efetiva entre bancos genéticos dificultam a conservação a longo prazo. Além disso, o aumento das tensões geopolíticas e o impacto das mudanças climáticas reforçam a necessidade de ações coordenadas para proteger os recursos fitogenéticos.

Por isso, a instituição foi além. Em 2014, foi criado o Banco Genético da Embrapa, inaugurado em 2014 em Brasília, para reunir coleções de recursos genéticos animais, vegetais e de microrganismos, As instalações incluem câmaras frias para sementes (-18°C), conservação in vitro (10°C e 20°C), tanques criogênicos para tecidos e células (-196°C) e ultrafreezers para DNA (-80°C).

EmbrapaUma das coleções do Banco Genético da Embrapa

Hoje, a unidade Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, localizada em Brasília, possui um dos maiores acervos do mundo de coleções genéticas. O banco também atua em parceria com universidades, associações de criadores e agricultores e outras instituições de pesquisas. Além disso, preserva linhagens comerciais e materiais de programas de melhoramento e inovação no campo.

Nas coleções estão 2,1 milhões de amostras distribuídas entre diferentes coleções. Confira o que é cada uma delas:

Banco Genético Animal
61 gêneros e 68 espécies.
37.187 indivíduos representados.
Quase 2 milhões de amostras armazenadas.

Banco de Microrganismos
344 gêneros e 330 espécies.
7.185 acessos com 12.337 amostras, essenciais para o controle biológico, fertilidade do solo e agroindústria.

Banco Genético Vegetal:
373 gêneros e 1.183 espécies.
123.600 acessos e 152.816 amostras de sementes.
Capacidade para armazenar até 900 mil amostras em câmaras frias a -18°C.

Quer conhecer de perto o Svalbard Global Seed Vault e o Banco Genético da Embrapa?

O Svalbard Global Seed Vault não está aberto ao público. O acesso ao cofre é restrito a cientistas, técnicos de bancos de sementes e representantes de instituições depositantes, que têm permissão para realizar os depósitos ou manutenções específicas. Mas é possível uma visita virtual à região: clic aqui.

O Banco Genético da Embrapa está aberto a visitas técnicas e de interesse geral. O agendamento é por meio do  Núcleo de Comunicação Organizacional da Embrapa no e-mail: [email protected] ou pelos telefones +55 (61) 3448-4769 / 3448-3266.

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