No Vale do Sacramento, parte norte do Vale Central da Califórnia, uma região geográfica vasta e plana que se estende por cerca de 600 km ao longo do estado, fileiras de oliveiras são intercaladas não por solo exposto, mas por um tapete espesso de culturas de cobertura verde, como ervilhaca, trevo e centeio. Essas azeitonas têm como destino as garrafas do azeite extravirgem da California Olive Ranch.
Algumas horas ao sul, no Vale Central de San Joaquin, na propriedade da Enzo Olive Oil, as oliveiras são cercadas por lascas de madeira de amêndoa espalhadas manualmente. Embora distantes, esses dois produtores compartilham uma mesma visão: cultivar azeitonas de forma a melhorar o solo, e não esgotá-lo.
Durante boa parte da história agrícola da Califórnia, a ênfase esteve na extração e no rendimento de curto prazo. Mas, diante das mudanças no clima, com secas prolongadas, ondas de calor intensas e chuvas imprevisíveis, agricultores como os da California Olive Ranch, McEvoy Ranch e Enzo Olive Oil estão analisando com mais atenção como tornar seus olivais mais resilientes para os desafios que virão.
A abordagem da California Olive Ranch envolve várias práticas interligadas: plantio de culturas de cobertura diversas no inverno para alimentar o solo, uso de ovelhas para pastar sob as árvores sem herbicidas ou máquinas pesadas, aplicação de restos de poda compostados como cobertura vegetal e sistemas de irrigação por gotejamento de alta tecnologia calibrados para atender às necessidades das árvores.
“Essas práticas melhoram a retenção de umidade, aumentam a matéria orgânica e favorecem a biologia do solo.“Elas ajudam as árvores a resistirem melhor à seca, às pragas e às doenças”, afirma Mary Mori, vice-presidente de Qualidade e Produto.
No ano passado, a California Olive Ranch se tornou a primeira empresa na América do Norte a obter a certificação formal de agricultura regenerativa da A Greener World, referente a mais de 4.600 acres de suas propriedades. Embora a marca trabalhe com mais de 50 produtores no Vale Central, que ainda não são todos certificados, o trabalho começou por suas terras, especialmente porque o termo “regenerativo” ainda precisa ser melhor definido.
A California Olive Ranch escolheu a A Greener World porque é flexível o suficiente para abranger todos os seus campos, inclusive os não orgânicos, e tem foco em dados e na saúde do solo. Segundo Mori, essa opção foi considerada mais realista à medida que aperfeiçoam o que funciona ou não.
Além disso, é mais atrativa para quem está aberto à transição e melhorias nas práticas, mesmo sem ser totalmente orgânico. “É mais centrada em dados e no aprimoramento das práticas, e não em exigir perfeição rígida desde o início”, diz Mori.
Ela também destaca as diferenças entre culturas em linha e árvores. No caso das oliveiras, a preocupação não é tanto o revolvimento do solo, geralmente evitado na agricultura regenerativa, mas sim o manejo das pragas, como por exemplo, quais produtos podem ser aplicados ao redor das árvores.
Mori lembra que no ano passado eles introduziram uma cultura de cobertura entre as árvores que acabou atraindo grilos em excesso. Para controlá-los, foi necessária a aplicação de produto em uma área limitada. A agricultura, segundo ela, exige resposta às necessidades de cada estação e situação específica, e não a adesão a uma lista inflexível.
Esse episódio gerou um aprendizado. “Decidimos que precisamos cortar a cultura de cobertura mais cedo, antes que cresça demais e os grilos tenham acesso às árvores.” Esses ajustes, explica ela, são essenciais. Embora existam custos de aprendizado no início, com o tempo a prática melhora e, idealmente, reduz custos.
Um dos olivais da empresa tem fornecido dados importantes, observa Mori. Plantado há quase 30 anos, foi convertido para cultivo orgânico há cerca de sete anos. “Desde então, observamos um aumento expressivo na matéria orgânica do solo e na densidade do solo, o que não esperávamos.”
Além disso, uma das fazendas parceiras na região de Sacramento tem colhido mais com o cultivo orgânico. “Ele já vinha aplicando práticas regenerativas, mesmo sem certificações, e é orgânico há anos. Não só está produzindo mais, como a qualidade das azeitonas é muito boa, frequentemente entre as melhores.”
A California Olive Ranch espera reunir mais dados como esses, que sustentem a viabilidade econômica do cultivo regenerativo e orgânico. A decisão não é apenas pautada por valores, mas também por exigir menos insumos, ter menor custo e, no fim, proporcionar preço justo e renda adequada ao produtor.
Algumas horas ao sul, a história da Enzo Olive Oil segue uma linha semelhante. Fundada pela família Ricchiuti, agora na quarta geração de agricultores na Califórnia, a Enzo é certificada como orgânica e vem incorporando práticas regenerativas.
“Usamos o que outros considerariam lixo, como lascas de madeira de pomares de amêndoa desativados, e espalhamos nos olivais”, explica Vincent Ricchiuti, diretor de operações da empresa. Esse material suprime ervas daninhas, retém a umidade do solo e alimenta a vida microbiana sob as árvores. Ao evitar a queima, reduzem a poluição do ar e devolvem nutrientes ao solo.
E não param por aí. Encontraram um uso criativo para os resíduos da produção de azeite.
“Recentemente começamos um projeto com bagaço de azeitona”, conta Ricchiuti. “Pegamos os resíduos da extração do azeite, caroços e polpa, deixamos secar no campo e depois aplicamos no solo como adubo ou fertilizante. É uma forma ecológica de tratar os resíduos e ajuda as oliveiras porque o bagaço contém carbono, que estimula a atividade microbiana do solo.”
A fazenda também funciona parcialmente com energia solar e todo o processamento das azeitonas é feito no local, garantindo frescor e controle. O sistema de irrigação da Enzo usa lógica de precisão para entregar água e nutrientes exatamente onde são necessários, reduzindo desperdício e consumo de energia. Além disso, mantêm o solo coberto com gramíneas entre as fileiras de árvores.
Vincent afirma que essas práticas fazem mais do que cuidar das árvores, transformam a qualidade do azeite. “Solos saudáveis produzem frutos mais saudáveis”, diz. “Isso se traduz em azeites com sabor mais intenso e maior teor de antioxidantes.”
A transição regenerativa, no entanto, enfrenta desafios. Investimentos em máquinas, treinamento e novos sistemas têm custo elevado. A certificação ainda é um alvo móvel, com vários modelos e critérios diferentes, o que deixa os produtores em um cenário incerto. A Greener World, por exemplo, não exige que a propriedade seja orgânica, como a Regenerative Organic, mas tem foco em resultados.
A agricultura regenerativa também exige paciência. Os benefícios do plantio de cobertura ou da renovação microbiana podem levar anos para aparecer, enquanto a pressão do mercado e da concorrência global impõe restrições de custo.
A McEvoy Ranch, localizada perto de Petaluma, no condado de Sonoma, é um olival orgânico há 25 anos. Samantha Dorsey, presidente da McEvoy Ranches, afirma que a evidência está no solo e na transformação de longo prazo. “Ao longo de três décadas, aumentamos a matéria orgânica do solo em mais de 4% em algumas áreas. Até os solos mais compactados afrouxaram com o tempo, dando mais espaço para as raízes das oliveiras respirarem.”
Solos mais soltos também absorvem mais água, especialmente em chuvas intensas que poderiam causar erosão se o solo estivesse exposto.
A McEvoy Ranch tem seis reservatórios para captar água da chuva e do escoamento superficial para uso na irrigação, explica Dorsey.
“Mas o maior reservatório de água da propriedade é o perfil do solo. Ele retém mais água do que nossos seis reservatórios juntos. O elemento essencial para manter esses reservatórios saudáveis e o solo funcionando como uma esponja é reduzir a erosão. Por isso levamos muito a sério a prática de não revolver o solo. Nos últimos três invernos, quando a região foi atingida por tempestades intensas, nossa fazenda se manteve firme e resiliente, e saiu desses rios atmosféricos revigorada, recarregada e intacta”, afirma Dorsey
Embora ainda não tenha certificação regenerativa, ela afirma que a propriedade é manejada com esses princípios: sem revolvimento do solo, pouca terra exposta, diversidade de plantas, compostagem de resíduos e uso exclusivo de insumos orgânicos. Quando questionada sobre o valor de uma futura certificação regenerativa, respondeu: “Sim, desde que a certificação não custe muito ao agricultor, pois nossas margens já são muito apertadas. A agricultura é como um jogo de pôquer. Quando se ganha, o prêmio é poder continuar jogando no ano seguinte.”
Ricchiuti compartilha da mesma visão. “Sim, a certificação regenerativa certamente é algo que consideraríamos no futuro”, afirma. “No entanto, é um processo que exige tempo e recursos, e ainda não tivemos condições de iniciar.”
Portanto, certificar mais propriedades como regenerativas pode levar tempo. Mas os agricultores e marcas destacam que já estão adotando essas práticas, não por modismo, mas pelos efeitos concretos que trazem ao solo.