1. Início
  2. /
  3. Forbes Agro
  4. /
  5. Educação e Setor Produtivo: os Avanços de 2025 e o Caminho Adiante
Forbes Agro

Educação e Setor Produtivo: os Avanços de 2025 e o Caminho Adiante

Até que ponto o Enem realmente pode exigir e avaliar os conhecimentos importantes dos alunos

6 min

O recente Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em meados de novembro, trouxe reflexões importantes para quem lida com a educação no Brasil e sua relação com o futuro do país. Foi um evento continental, que refletiu desafios igualmente grandiosos para o setor.

E serve como ponto de partida para discutirmos a oportunidade de fazer uma mudança de rota, reconectando sociedade, academia e setor produtivo.

De passagem, diga-se que, ao contrário de edições anteriores, o tratamento dado ao agronegócio na prova foi mais neutro, e entendemos isso como um avanço diante de um contexto muitas vezes turvado por imprecisões científicas e ideológicas sobre um setor estratégico para o país, que gera riqueza, empregos e soluções para o mundo em segurança alimentar e transição energética.

Desde logo, cabe perguntar: o Enem realmente exige e avalia conhecimentos importantes dos alunos, relacionados à vida real? Por que temas da ordem do dia da sociedade e do mercado profissional, como os impactos da Inteligência Artificial, a Internet das Coisas, a Indústria 4.0 e o futuro das profissões seguem fora do exame?

Quando falamos em aprendizagem, um dos objetivos é transformar o aluno em um ser pensante, cidadão pleno que possa colaborar com o mundo, capaz de prosperar e encarar as demandas das novas economias, de um novo milênio marcado por tecnologias disruptivas e pela centralidade das pautas ASG (Ambientais, Sociais e de Governança).

Mas o setor educacional, por si só, tem dificuldades óbvias nessa entrega. Elas vão desde as desigualdades regionais à falta de infraestrutura básica, passando pela necessidade de qualificar melhor e reconhecer os professores; da dificuldade de enfrentar o dilema do contingente recorde de jovens nem-nem (que nem estudam, nem procuram emprego) à falta de governança nos investimentos públicos ou à necessidade de avaliações objetivas dos avanços no aprendizado.

Atualização no Sistema Nacional de Educação

Felizmente, há avanços, como a recente sanção do Sistema Nacional de Educação (SNE). Pela primeira vez, o Brasil contará com uma estrutura formal de cooperação entre União, estados e municípios, permitindo uma gestão mais integrada, eficiente e transparente da educação pública.

O SNE cria bases sólidas para o planejamento de longo prazo e para a construção de uma educação verdadeiramente equitativa, estabelecendo um caminho claro para o alinhamento de políticas públicas, metas e investimentos educacionais.

Também é digno de nota que, por meio de forte articulação de proposta elaborada por especialistas em educação e deputados dedicados a incrementar a matéria, conseguimos incluir uma emenda no projeto do novo Plano Nacional de Educação (PNE), que tramita no Congresso.

Ela destaca a necessidade de uso de fontes científicas referenciadas nos conteúdos didáticos, o que certamente vai melhorar a formação dos estudantes.

Desafios que estão pela frente

O ano de 2025 termina como um daqueles marcos silenciosos, porém profundos, na educação brasileira. Avançamos institucionalmente, consolidamos pilares importantes – como o SNE e os debates qualificados do PNE – e vimos a agenda educacional se aproximar, ainda que gradualmente, do setor produtivo. Foi um ano de conquistas que nos orgulham e, ao mesmo tempo, de constatação: a missão está longe de terminar.

Cada avanço amplia não apenas o senso de urgência sobre o que ainda precisa ser feito, mas também a certeza de que academia, sociedade e setor produtivo devem caminhar juntos para construir uma educação capaz de preparar o Brasil para as próximas décadas.

Mas é hora de o setor produtivo se juntar a esse esforço da sociedade civil, em torno do PNE, e de braços dados com a academia. Só assim podemos salvar o Brasil de um colapso, dentro de um horizonte temporal que aproveite o bônus demográfico que ainda temos e diante de cenários cada vez mais complexos e exigentes de qualificação dos profissionais.

Remuneração e produtividade no Brasil

Como economistas e especialistas têm destacado, há um descompasso crescente entre remuneração e produtividade no Brasil. Entre 1996 e 2022, o salário mínimo avançou cerca de 90% acima da inflação, enquanto a produtividade do trabalhador não acompanhou esse ritmo.

Isso vem pressionando empresas, reduzindo competitividade e criando desafios concretos para diversos setores nos últimos meses. Não se trata de pagar menos, trata-se de produzir mais. E produzir mais depende diretamente de uma formação alinhada às transformações do século 21.

A escassez de mão de obra qualificada já é tão aguda que o país enfrenta um quadro próximo ao desemprego estrutural, em que não se consegue reduzir a taxa de desocupação não por falta de vagas, mas por falta de profissionais prontos para ocupá-las.

O agronegócio é um exemplo de que, quando a realidade do campo entra na sala de aula, os jovens respondem com entusiasmo. Ele pode inspirar ações de outros agentes da sociedade para ajudar a “elevar o sarrafo” da educação, trazendo mais qualidade às salas de aula e aos exames nacionais de avaliação.

Prêmio Darcy Ribeiro de Educação 2025

Recentemente, vivemos um momento especial ao receber o 1º lugar no Prêmio Darcy Ribeiro de Educação 2025, concedido pela Câmara dos Deputados. Trata-se de uma das premiações mais importantes do país, criada para reconhecer pessoas e instituições que promovem, defendem e transformam o setor.

Isso atesta que nosso trabalho tem produzido impactos positivos, mas também nos traz uma responsabilidade ainda maior e nos motiva a seguir adiante.

Educar é transformar. O Enem aponta para onde vão os materiais didáticos e o aprendizado dos estudantes. Estamos nos preparando para uma educação que vai mudar totalmente no curto prazo? Para novas tecnologias que já estão mudando o mercado de trabalho e a mentalidade de líderes e consumidores? Que tipo de capital intelectual dará aos jovens as habilidades para realmente encarar o mundo de frente?

É hora de transformar dúvidas em ações e resultados. E, para isso, o setor produtivo e a educação devem se unir muito mais, convertendo desafios em oportunidades reais para os estudantes e para o país.

*Leticia Jacintho é produtora rural e presidente da associação De Olho no Material Escolar. Também é formada em administração de empresas. Atuou no mercado financeiro, na área de captação e fundos, e, no Agronegócio, e integra o Conselho Superior do Agronegócio da Federação das Indústrias de São Paulo (Cosag/Fiesp).

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.