O agronegócio brasileiro deixou de ser, há muito tempo, apenas um setor produtivo. Hoje, opera como um ativo estratégico do país no quesito econômico, ambiental e geopolítico.
Em um mundo marcado por guerras, instabilidade logística, eventos climáticos extremos e crescente protecionismo, poucos países têm o que o Brasil tem: capacidade real de produzir mais alimentos, em escala, com tecnologia e preservação ambiental.
Essa não é apenas uma vantagem competitiva. É poder geopolítico. Sem o agro brasileiro, o mundo come menos e mais caro. Hoje, cerca de 50% das exportações brasileiras vêm do agronegócio. É o setor que sustenta o superávit da balança comercial, ajuda a estabilizar o câmbio, reduz pressões inflacionárias e funciona como amortecedor em momentos de crise. Quando o agro vai bem, o país respira.
O Brasil construiu, dentro da porteira, um dos sistemas produtivos mais sustentáveis do mundo. O Código Florestal exige níveis de preservação inéditos em propriedades privadas. A área preservada nas fazendas brasileira soma um total de 240 milhões de hectares o que equivale a todo território da França, Espanha, Alemanha, Urania, Suécia juntos e ainda sobra.
Ao mesmo tempo, a agricultura tropical brasileira conseguiu algo raro: crescer em produtividade sem expansão proporcional de área. Em poucas décadas, a produção cresceu cerca de 500%, enquanto a área cultivada aumentou pouco mais de 100%.
Esse modelo não é exceção é solução replicável. O cinturão tropical concentra cerca de 40% das terras aráveis do planeta e mais de 50% dos recursos hídricos. São esses países que precisarão produzir mais nas próximas décadas. E o Brasil tem papel natural de liderança: exportar tecnologia, sistemas produtivos e conhecimento tropical.
Dados da FGV e da Embrapa indicam cerca de 70 milhões de hectares com algum grau de degradação, sendo aproximadamente 30 milhões severamente degradados. Quando recuperadas e bem manejadas, essas áreas deixam de emitir 0,5 T carbono/ano e passam a sequestrar mais de 1,5 tonelada por hectare ao ano.
Ou seja: a agricultura brasileira remove carbono da atmosfera. O potencial climático está na produção bem feita.
A ciência já mostrou que funciona. O desafio é transformar evidência técnica em políticas públicas, financiamento e incentivos, com métricas adequadas à realidade tropical e previsibilidade para o produtor.
Geopolítica, comércio e oportunidade
O mundo quer investir. O Brasil precisa decidir se quer receber. Há capital disponível. Há interesse crescente em alimentos, bioenergia, fibras, biotecnologia e economia de base biológica. O que afasta investimentos do agro brasileiro não é risco produtivo. É insegurança jurídica, instabilidade regulatória e falta de previsibilidade.
Capital não foge do risco. Foge da insegurança. Não é por acaso que a China está aqui, que os Estados Unidos está olhando cada vez mais para América do Sul e a União Europeia após 25 anos de negociações da evidências de avanço no livre comércio com Mercosul.
O agro brasileiro está no centro do tabuleiro geopolítico.
Energia, capital e ativos ambientais
Se florestas, biodiversidade e serviços ecossistêmicos têm valor estratégico, precisam ser convertidos em ativos econômicos. A criação de uma secretaria dedicada ao carbono no Ministério da Fazenda sinaliza que o debate climático começa a migrar para o centro das decisões de investimento.
Não existe Brasil forte sem agro forte e essa segue sendo a maior vantagem comparativa do país no século 21. Navegar esse futuro exige clareza, parcimônia e ação coordenada. O agro é a joia da coroa da economia Brasileira!
*Maressa R. Vilela Bettencourt é produtora Rural, conselheira do COSAG (Conselho Superior do Agro da FIESP) e diretora de sustentabilidade da Sociedade Rural Brasileira.
Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.