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O “Mago dos Gases”: Como um Under 30 Usa a Ciência Atmosférica em 580 Mil Hectares

Conheça a história de João Américo Maccori Barboza, que utiliza seis gases para extrair o potencial máximo de culturas como soja, milho, feijão e algodão

7 min

João Américo Maccori Barboza manipula o invisível para ditar o ritmo da produtividade no campo. Aos 25 anos, o engenheiro agrônomo é um tipo de “mago dos gases”, alcunha que traduz a sua capacidade de utilizar misturas atmosféricas precisas para reprogramar a fisiologia vegetal antes mesmo que a semente toque o solo.

À frente da DioxD, startup sediada em Londrina (PR), Barboza comanda uma operação que alcançou a marca de 580 mil hectares tratados na safra 2025/26. A tecnologia atende 160 produtores em dez estados brasileiros e iniciou a expansão para o Paraguai, utilizando um composto de seis gases para extrair o potencial genético máximo de culturas como soja, milho, feijão e algodão.

“O nosso tratamento não é um tratamento químico e não prejudica a semente nem o meio ambiente. Ele não traz um aspecto protetivo, é um complemento. Enquanto um produto protege, o nosso tratamento traz o potencial fisiológico da semente e da planta”, explica Barboza, fundador da DioxD e integrante da lista Under 30 que pode ser conferida na Revista Forbes em seu formato digital, via App, e também no impresso.

Barboza diz que a técnica funciona no exato momento em que a genética da planta precisa responder aos estímulos do ambiente para garantir o estabelecimento da cultura e a maximização dos resultados em campo. No Brasil, o mercado de sementes movimenta próximo de R$ 70 bilhões por ano, com soja e milho respondendo por cerca de 70% desse valor.

O volume segue em crescimento junto à expansão da área plantada de grãos, e segmentos específicos como forrageiras e tratamento de sementes. O tratamento é uma etapa prévia ao plantio, realizada antes da semeadura, com o objetivo de proteger a semente, preservar seu potencial fisiológico e garantir o estabelecimento inicial da lavoura. O que o Barboza propõe dá um passo além.

Uma história que começa na escola

A entrada definitiva da ciência dos gases na vida de Barboza ocorreu por uma motivação pragmática aos 12 anos, nos laboratórios de um colégio em Londrina. No oitavo ano do ensino fundamental, seu objetivo era garantir as notas de iniciação científica para antecipar o fechamento do ano letivo.

No entanto, o que começou como uma estratégia escolar transformou-se em uma imersão científica que o acompanhou durante toda a formação acadêmica. O interesse pelas aulas de laboratório e pelo desenvolvimento de pesquisa aplicada mudou o destino do projeto, que deixou de ser um trabalho escolar para se tornar o embrião de uma startup promissora.

A transição da bancada escolar para as grandes propriedades envolveu a participação em 17 feiras de ciências nacionais e internacionais entre os anos de 2012 e 2018. Barboza debateu os seus achados com pesquisadores da Escola Politécnica da USP e apresentou o projeto na Regeneron ISEF, na Pensilvânia, a maior feira de ciências e engenharia pré-universitária do mundo.

Ao retornar dos Estados Unidos com o reconhecimento de cientistas globais, o pesquisador recebeu o apoio da Sociedade Rural do Paraná para converter a tese acadêmica em negócio. O projeto ganhou CNPJ e a DioxD nasceu com a missão de escala industrial: tratar sementes sem a necessidade de movimentação mecânica ou umidade excessiva, preservando a integridade física do material.

O domínio técnico de Barboza concentra esforços na aplicação de dióxido de carbono e outros cinco gases diretamente nos recipientes de transporte das sementes, conhecidos como bags. O processo, que dura aproximadamente 40 minutos, permite tratar volumes expressivos com agilidade. “No início, a gente tratava cerca de 800 quilos de semente por hora. Hoje a gente já trata mais de 300 toneladas de semente por hora”, afirma.

A tecnologia intensifica o desenvolvimento radicular, criando plantas com raízes mais agressivas que suportam estresses hídricos e absorvem nutrientes com maior eficiência. O resultado prático nas lavouras de soja indica um incremento médio de quatro sacas por hectare. “Em soja, hoje a gente aumenta em média quatro sacas por hectare. O custo para o produtor é de meia saca, para colher quatro sacas a mais”, diz.

A validação definitiva do “mago dos gases” no mercado brasileiro ocorreu no coração do Matopiba. Aos 18 anos, Barboza mudou-se para Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia. Nesta época, ele estava no segundo ano de agronomia no Centro Universitário Filadélfia (UniFil), onde estudou com bolsa integral conquistada em razão de suas pesquisas.

Na Bahia, o que deveria ser uma residência de nove meses na Ciclo Agrotech transformou-se em uma permanência de três anos. A tecnologia foi aplicada em grandes propriedades que cultivam em escala, conquistando a confiança de grupos agrícolas como Adir Parizzi e Franciosi. O investimento do produtor para o tratamento fica em torno de meia saca e Barbosa afirma que o retorno pode ser multiplicado por oito na colheita final.

Essa eficiência técnica permitiu que a DioxD atraísse o interesse do mercado financeiro de São Paulo. Em 2021, a empresa captou R$ 1,3 milhão em uma rodada com os fundos Agroven e GR8 Ventures. Barboza recorda o estranhamento inicial ao apresentar uma tese baseada em gases e produtividade biológica para investidores habituados ao setor de tecnologia financeira e saúde.

“Era gente de botina suja, trator e soja no nariz apresentando para fundos que só investiam em negócios de terno e gravata. Fomos a primeira agtech investida por eles”, diz ele.

A entrada desses fundos profissionalizou a gestão de risco e consolidou o conselho consultivo da startup. Mas mesmo com a profissionalização financeira, a operação mantém uma essência técnica e familiar. Os primeiros testes de campo da DioxD ocorreram no sítio do avô de João, em Assaí (PR), um produtor rural que saiu da Bahia para se estabelecer no norte paranaense.

Atualmente, o pai de Barboza atua na frente comercial da regional de Londrina, atendendo produtores que o conhecem desde a juventude. A mãe gerencia as áreas administrativa e financeira desde o segundo ano da operação. Esta estrutura enxuta, composta por seis funcionários diretos, sustenta uma logística que abrange culturas de soja, milho, feijão e algodão, sendo esta última a mais nova adição ao portfólio comercial da companhia.

Agora, o futuro do controle de gases no campo passa pela simplificação logística e pela desburocratização do acesso à tecnologia. Em outubro de 2024, a DioxD obteve o depósito de patente nos Estados Unidos, visando a cessão da técnica para o mercado norte-americano por meio de parceiros consolidados. No Brasil, o próximo passo envolve o lançamento de cápsulas de aplicação. “Estamos desenvolvendo cápsulas do tamanho de uma bolinha de tênis. O produtor coloca o dispositivo dentro do bag, fecha, e a liberação dos gases ocorre na formulação correta”, detalha Barboza.

Não por acaso, a estratégia comercial para o próximo ciclo prioriza o modelo B2B, estabelecendo parcerias diretas com sementeiras e grandes revendas que procuram agregar valor ao produto final em um mercado altamente competitivo. Segundo Barboza, a empresa apresenta indicadores de saúde financeira robustos, registrando a menor taxa de inadimplência dos últimos três anos, apesar do aperto nas contas do agro. Para Barboza, a fidelidade aos resultados em campo tem garantido que o agricultor realize o pagamento da tecnologia apenas após a colheita, tratando o serviço como um investimento e não como um custo operacional.

Com o planejamento de novas culturas incluindo gergelim, trigo e mamona, o “mago dos gases” pretende consolidar a DioxD como a principal referência em fisiologia vegetal aplicada via atmosfera controlada, unindo a precisão do laboratório à escala das grandes safras. “Acreditamos nesse futuro grande para o agro e suas tecnologias.”

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