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Tempo de Guerra: Entenda a Corrida dos Emirados Árabes Unidos Para Ter Alimento a Partir do Deserto

A estratégia de segurança alimentar dos Emirados Árabes Unidos aposta fortemente em agricultura vertical, hidroponia e sementes adaptadas ao deserto

6 min

A ascensão dos Emirados Árabes Unidos como polo global foi construída com base na riqueza do petróleo e na mão de obra expatriada e sustentada por importações de alimentos. Essa dependência transformou a segurança alimentar em prioridade nacional, desafio intensificado pelo aumento da demanda por alimentos decorrente do rápido crescimento populacional.

Atualmente, o Estado do Golfo está transformando seus sistemas alimentares por meio de uma estratégia nacional que combina parcerias, investimento em infraestrutura e tecnologia, além de aquisições globais. O objetivo é reduzir a forte dependência de importações e construir resiliência frente às mudanças climáticas e às interrupções nas cadeias de suprimentos.

Uma estratégia nacional de longo prazo

Devido ao clima árido, à limitação de terras aráveis e à escassez de recursos hídricos, é praticamente impossível para os Emirados Árabes Unidos depender exclusivamente da produção doméstica de alimentos.

Em resposta, o governo dos Emirados Árabes Unidos adotou a Estratégia Nacional de Segurança Alimentar 2051, lançada em 2018, com a meta de ocupar o primeiro lugar no Índice Global de Segurança Alimentar, segundo o governo dos Emirados Árabes Unidos.

As metas são ambiciosas: elevar a produção doméstica de alimentos para 50% do consumo total até 2051, garantir de três a cinco fontes alternativas de suprimento para cada alimento básico e reduzir significativamente o desperdício, entre outros objetivos principais.

Para alcançar essas metas, a estratégia aposta fortemente em tecnologia, agricultura vertical, hidroponia e sementes adaptadas ao deserto, por meio de 38 iniciativas voltadas a ampliar a produção local e diversificar as importações.

Mas a tecnologia, por si só, não é suficiente. Nos últimos anos, o governo, por meio de seus veículos de investimento, lançou grandes projetos de infraestrutura e realizou aquisições estratégicas para assegurar suprimento adequado ao mercado dos Emirados Árabes Unidos.

Construindo infraestrutura resiliente

Um sistema alimentar seguro exige infraestrutura resiliente. Para atender a essa necessidade, a DP World, empresa estatal, anunciou em janeiro uma ampla expansão e reformulação da marca do atual Mercado Central de Frutas e Vegetais de Al Aweer, que será transformado em um dos maiores e mais avançados polos de comércio de alimentos do mundo, o Dubai Food District.

Com início da primeira fase previsto para 2027, o distrito mais do que dobrará o tamanho do mercado para 2,69 milhões de metros quadrados. Ele foi projetado como um ecossistema totalmente integrado que consolida comércio, armazenamento, processamento e distribuição em um único local.

Shivya Puri, analista sênior de pesquisa para Alimentos e Bebidas na Mordor Intelligence, afirmou à Forbes Middle East que o Dubai Food District aborda a vulnerabilidade não substituindo as importações, mas otimizando e garantindo sua segurança.

Ela explica que o projeto integra infraestrutura avançada de cadeia do frio, armazéns com controle de temperatura, sistemas digitais de documentação e instalações de inspeção de qualidade para reforçar a resiliência diante de choques globais de oferta.

“A logística centralizada reduz perdas, melhora a rastreabilidade, encurta os prazos de liberação e fortalece a estabilidade de preços, todos elementos essenciais da segurança alimentar em uma nação dependente de importações”, afirma Puri.

Investindo em autossuficiência

Complementando as iniciativas domésticas, os fundos soberanos de Abu Dhabi estão ampliando sua presença global no setor de alimentos e agricultura.

Em setembro de 2021, a ADQ adquiriu uma participação indireta de 45% na Louis Dreyfus Company, uma das principais tradings globais de commodities agrícolas e integrante do quarteto “ABCD” dos grandes comerciantes globais de grãos.

O acordo marcou a entrada do primeiro acionista não familiar nos 170 anos de história da empresa e incluiu um contrato de fornecimento de longo prazo de commodities agrícolas para os Emirados Árabes Unidos.

A ADQ também detém 50% da Al Dahra Holding, empresa de agronegócio sediada em Abu Dhabi que opera em 20 países, com aproximadamente 161.874 hectares de terras. Entre as principais aquisições da companhia está a Agricost, na Romênia, adquirida em 2018, considerada a maior fazenda consolidada da Europa, com 56.000 hectares na Ilha de Braila, além de mais de 18.000 hectares de terras agrícolas próximas a Belgrado, na Sérvia.

Mais recentemente, a Al Dahra esteve em negociações com o Quênia para arrendar 80.937 hectares para desenvolvimento de irrigação, com investimento potencial de US$ 800 milhões (R$ 4 bilhões, na cotação atual). A empresa também opera fazendas na América do Norte, Egito, Namíbia e Marrocos, fornecendo ração animal e grãos aos mercados do Oriente Médio e da Ásia.

Em junho de 2025, a ADQ anunciou um acordo estratégico para adquirir uma participação de 35% na Limagrain Vegetable Seeds, divisão de sementes de hortaliças da cooperativa francesa Limagrain.

A parceria inclui um empreendimento conjunto de pesquisa e desenvolvimento com a Silal, empresa do portfólio agrotecnológico da ADQ, para desenvolver variedades de sementes de hortaliças adaptadas ao deserto e resistentes ao calor, à seca e à salinidade, inicialmente com foco em pepinos, tomates e melões.

A inovação também é parte central da estratégia dos Emirados Árabes Unidos. Em 2019, o Abu Dhabi Investment Office lançou um Programa de Incentivo à AgTech no valor de US$ 272 milhões (R$ 1,4 bilhão) para posicionar Abu Dhabi como polo de agricultura no deserto.

Em 2020, o ADIO destinou US$ 100 milhões (R$ 500 milhões) para AeroFarms, Responsive Drip Irrigation, Madar Farms e RNZ, seguidos por US$ 41 milhões (R$ 205 milhões) para Nanoracks, FreshToHome e Pure Harvest, com o objetivo de avançar a inovação em agrotecnologia em terra, no mar e no espaço.

Desafios permanecem

Apesar desses investimentos ambiciosos, a segurança alimentar dos Emirados Árabes Unidos continua pressionada por uma população em forte crescimento, que demanda mais alimentos. Dados do Worldometers indicam que a população dos Emirados Árabes Unidos já ultrapassou 11,5 milhões de habitantes até o momento em 2026 e segue em trajetória de crescimento rumo a uma projeção de 15,3 milhões até 2050.

Até 2029, estima-se que o consumo de alimentos nos Emirados Árabes Unidos atinja 8,8 milhões de toneladas métricas, segundo o Relatório da Indústria de Alimentos do GCC 2025, da Alpen Capital, impulsionado pelo aumento da renda, pelo crescimento do turismo e pelas necessidades diversas de uma população multicultural composta majoritariamente por expatriados.

Mas a oferta não acompanha o mesmo ritmo. Com 85% a 90% dos alimentos importados, cada choque externo, da guerra na Ucrânia à instabilidade no Mar Vermelho, impacta diretamente o abastecimento alimentar do país.

Publicado originalmente na Forbes Middle East

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