Enquanto tratores, colheitadeiras e pulverizadores atraíam os olhares dos visitantes na abertura da Bahia Farm Show, um investimento inaugurado ao lado do parque de exposições mostrava outra face da competitividade do agronegócio brasileiro. A Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa) abriu nesta segunda-feira (8), em Luís Eduardo Magalhães (BA), o novo Centro de Análise de Fibras, considerado o maior da América Latina.
Com 5,2 mil metros quadrados de área construída, capacidade para processar até 70 mil amostras por dia e investimentos de cerca de R$ 120 milhões ao longo dos últimos anos, o laboratório foi concebido para atender uma cadeia que hoje coloca o Brasil entre os protagonistas mundiais do mercado de algodão.
“Quando um importador adquire o algodão brasileiro, ele sabe exatamente a qualidade que receberá. A transação comercial começa aqui, nos resultados gerados por este laboratório”, afirmou Alessandra Zanotto Costa, presidente da Abapa, durante a cerimônia de inauguração.
A frase resume a função de uma estrutura que, à primeira vista, pode parecer distante da realidade das fazendas. Na prática, porém, é justamente dentro desses laboratórios que parte importante do valor comercial da pluma é definida.
Antes de seguir para indústrias têxteis na China, Bangladesh, Paquistão, Vietnã ou Turquia, cada lote de algodão passa por análises que medem características como comprimento, resistência, uniformidade, coloração e maturidade das fibras. Os dados determinam a classificação do produto e servem como referência para compradores em diferentes mercados.
Em uma negociação internacional, confiança e padronização têm peso semelhante ao da produtividade obtida no campo.
A inauguração ocorreu no primeiro dia da 20ª edição da Bahia Farm Show, maior feira agropecuária do Norte e Nordeste. Além do governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, participaram do evento o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Gustavo Piccoli, o presidente da Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (Ampa), Orcival Guimarães, além de autoridades estaduais, municipais e representantes da cadeia têxtil.
O novo centro amplia significativamente a capacidade operacional da Abapa. A estrutura passou a operar com 16 equipamentos HVI (High Volume Instrument), tecnologia utilizada mundialmente para classificação de fibras. São 12 unidades do modelo Uster HVI-1000 e quatro do HVI Automic Q Pro. Outros três equipamentos já foram adquiridos e devem entrar em operação nos próximos meses.
A capacidade diária de análises, que anteriormente chegava a 34 mil amostras, passou para 40 mil. Em uma próxima etapa, poderá atingir 70 mil avaliações por dia com a instalação de novos equipamentos. A expectativa é processar cerca de cinco milhões de amostras durante a safra 2025/26.
O investimento acompanha a expansão da cotonicultura no Matopiba, região formada por áreas da Bahia, Tocantins, Maranhão e Piauí. O laboratório da Abapa é responsável pela classificação do algodão produzido nesses estados e deverá atender nesta safra aproximadamente 495 mil hectares cultivados, distribuídos entre 130 produtores associados, 160 fazendas e 73 usinas de beneficiamento.
Os números ajudam a explicar a importância estratégica da unidade. Na safra 2024/25, o centro certificou cerca de 3,5 milhões dos 6,7 milhões de fardos analisados pelo Programa de Qualidade do Algodão Brasileiro (PQAB). O índice de confiabilidade alcançou 99,85%, acima da média nacional de aprovação, de 93,03%.
Para Gustavo Piccoli, presidente da Abrapa, o novo laboratório representa mais do que uma ampliação física. “Além de ser um investimento em infraestrutura, este laboratório representa um reforço na credibilidade, rastreabilidade, inovação e futuro. É uma demonstração do compromisso dos produtores brasileiros com a qualidade que tornou o país um dos principais fornecedores e o maior exportador de algodão do mundo”, afirmou.
O empreendimento foi viabilizado com recursos próprios da Abapa e apoio financeiro do Instituto Brasileiro do Algodão (IBA) e do Fundo para o Desenvolvimento do Agronegócio do Algodão (Fundeagro).
“Este laboratório tem um papel fundamental na tomada de decisões e na comercialização do algodão. A qualidade analisada aqui impacta diretamente os negócios e fortalece ainda mais a posição da Bahia e do Brasil no mercado internacional”, disse o governador Jerônimo Rodrigues.
A nova sede também representa mais um capítulo na trajetória tecnológica da cotonicultura baiana. O primeiro laboratório da Abapa foi criado em 2002. Em 2011 e 2012 recebeu os primeiros equipamentos HVI. Em 2013 tornou-se pioneiro na adoção de sistemas de climatização rápida, tecnologia que aumenta a precisão das análises. Agora, a entidade avança para uma nova etapa de automação, com sistemas que permitem a movimentação automatizada das amostras entre as esteiras e os equipamentos de classificação.