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Congresso ABAG: Entre Alimentos, Energia e Tecnologia, Agro Busca Mercado de US$ 1,5 Trilhão

Ingo Plöger, Braz Baracuhy e Alexandre Parola analisam como a disputa entre potências altera o ambiente de negócios, no 25º Congresso Brasileiro do Agronegócio

10 min

“O mundo que conhecemos já não existe mais. A ordem internacional está sendo redesenhada, e o Brasil precisa entender onde quer estar.” A reflexão do economista Alexandre Parola, embaixador do Brasil no Reino do Marrocos sintetizou o tom da primeira mesa-redonda do 25º Congresso Brasileiro do Agronegócio (CBA), realizado na segunda-feira (10), em São Paulo (SP).

Realizado desde 2002, pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) em parceria com a B3, o evento é um dos mais importantes do setor, e, anualmente, reúne líderes políticos, executivos e especialistas para debater tendências, desafios econômicos, sustentabilidade e inovação na cadeia produtiva agrícola.

Ao lado do também diplomata, especialista em geopolítica e embaixador do Brasil na Finlândia, Braz Baracuhy, e do presidente da Abag, Ingo Plöger, Parola, que já atuou em embaixadas do Brasil em Washington, Santiago e Londres, defendeu que o avanço das disputas geopolíticas passou a influenciar diretamente o ambiente de negócios do agronegócio brasileiro.

“Hoje nós somos vistos como uma área estratégica”, diz Parola. “Para a China, nós somos fornecedores muito importantes. Isso nos dá a possibilidade de fazer um jogo pragmático, com consistência e distanciamento. Agora, no momento em que todos os países voltam à lógica geopolítica e de segurança nacional, deixar de planejar o futuro é uma tolice política. É muito importante voltar a ter visões estratégicas de médio e longo prazo.”

A percepção encontra respaldo em uma transformação que vem sendo acompanhada pelos principais organismos internacionais. O Fundo Monetário Internacional (FMI) tem alertado que a fragmentação geoeconômica, impulsionada pelo aumento das tensões comerciais, das sanções econômicas e da competição tecnológica entre grandes potências, tende a reduzir o crescimento mundial, elevar custos logísticos e reorganizar cadeias globais de produção.

Nesse cenário, alimentos, energia e minerais críticos deixaram de ser apenas produtos comercializados internacionalmente para se tornarem ativos estratégicos das nações.

Fábio Moitinho/ForbesAlexandre Parola, embaixador do Brasil no Reino do Marrocos

Essa mudança ajuda a explicar por que o agronegócio passou a ocupar posição central nas discussões sobre política externa e segurança econômica. Segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), de 2000 a 2024, o mundo saltou cerca de cinco vezes as exportações do agronegócio, chegando a US$ 1,5 trilhão (R$ 7,7 trilhões, na cotação atual).

Com US$ 144,4 bilhões (R$ 737,6 bilhões) em 2024 (9,67% do total comercializado pelo setor naquele ano), o Brasil é o segundo maior exportador global de produtos agropecuários, atrás dos Estados Unidos, com US$ 181,3 bilhões (R$ 926,1 bilhões), segundo a OMC. Isso reforça o seu papel como fornecedor estratégico em um ambiente internacional cada vez mais marcado por disputas comerciais e pela busca por segurança alimentar.

Para Braz Baracuhy, essa mudança representa uma ruptura na lógica que predominou nas últimas décadas. Se antes a economia era consequência das decisões políticas, hoje ela se tornou uma das principais ferramentas de poder entre os países. Barreiras comerciais, restrições tecnológicas, sanções econômicas e disputas por cadeias produtivas passaram a fazer parte da estratégia das grandes potências.

Na avaliação dos diplomatas, a rivalidade entre Estados Unidos e China é o principal motor desse novo cenário. Mais do que uma guerra comercial, trata-se de uma disputa por liderança tecnológica, influência política e controle de setores considerados essenciais para o futuro da economia mundial.

“Um fator de instabilidade ou equilíbrio será a corrida pela inteligência artificial aplicada ao setor militar. O controle da tecnologia de ponta define a capacidade de reação e dissuasão de um país”, diz Parola.

Em um ambiente marcado pela competição entre grandes potências, pela reorganização das cadeias globais de abastecimento e pela busca crescente por segurança alimentar e energética, o agronegócio passa a integrar a estratégia internacional dos países. Para os debatedores, o Brasil dispõe de vantagens naturais e tecnológicas para ampliar sua influência nesse novo contexto. Transformar esse potencial em política de Estado, contudo, continua sendo o principal desafio.

“A definição estratégica é fundamental”, diz Baracuhy. “O Brasil precisa ter peso e atuar com protagonismo em três pilares essenciais da segurança global: a segurança alimentar, a segurança mineral e a segurança energética. Esses são os eixos da nossa inserção internacional, e o setor privado tem um papel central na construção dessa política de Estado.”

Da geopolítica ao agronegócio

Fábio Moitinho/ForbesBraz Baracuhy, especialista em geopolítica e embaixador do Brasil na Finlândia

Foi justamente sobre os efeitos dessa transformação para o Brasil que Alexandre Parola concentrou sua análise. O embaixador lembrou que o período de relativa estabilidade que marcou o comércio internacional após a Segunda Guerra Mundial, em 1945, e principalmente depois do fim da Guerra Fria, em 1991, vem sendo substituído por uma ordem mais fragmentada, na qual decisões políticas interferem diretamente no fluxo de investimentos e mercadorias.

Na prática, ele explicou que comércio, tecnologia, defesa e diplomacia passaram a caminhar lado a lado. O resultado é um ambiente internacional menos previsível, exigindo dos países estratégias permanentes de inserção global, capazes de atravessar ciclos políticos e responder rapidamente às mudanças do cenário externo.

Esse contexto ajuda a explicar a importância crescente do agronegócio brasileiro. Dados do Ministério da Agricultura mostraram um novo salto das exportações do agro em 2025, movimentando US$ 169,2 bilhões (R$ 864,3 bilhões) e respondendo por 48,5% das exportações brasileiras no ano passado.

Mais do que um desempenho econômico, trata-se de uma posição estratégica para um mundo que busca ampliar a segurança alimentar sem abrir mão da transição energética.

É nesse ponto que a análise dos três debatedores converge. Enquanto Baracuhy descreveu a transformação da ordem internacional e Parola apontou seus impactos sobre o comércio exterior, Ingo Plöger defendeu que o Brasil reúna condições de transformar esse novo ambiente em vantagem competitiva.

“Estamos em um ano de eleição, e eleição é decisão democrática para as opções de futuro”, afirmou o presidente da Abag. “É um momento muito sensível para qualquer democracia. Por isso, assumimos o compromisso de não perder o fio da esperança e contribuir com uma agenda de futuro.”

Segundo Plöger, essa agenda precisa ir além dos governos e consolidar uma estratégia nacional baseada na integração entre agronegócio, indústria e serviços. “Queremos uma agenda de Estado. Queremos uma agenda de nação”, resumiu.

Biocompetitividade amplia espaço do Brasil

Para Ingo Plöger, a resposta brasileira às transformações da ordem internacional passa por uma estratégia que extrapola os ganhos tradicionais de produtividade. O dirigente da Abag defendeu que o país avance na construção de uma agenda baseada na chamada “biocompetitividade”, conceito que integra produção de alimentos, bioenergia, bioinsumos, inovação tecnológica e sustentabilidade como vantagens competitivas de uma mesma agricultura.

“A nossa proposta é olhar para o futuro e construir uma agenda de Estado. Queremos uma agenda de nação”, afirmou.

A avaliação encontra respaldo na própria estrutura do agronegócio brasileiro. Estudos da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) mostram que o setor deve ser compreendido como uma cadeia integrada, que reúne produção rural, indústria de transformação, logística, tecnologia e serviços, e não apenas as atividades desenvolvidas dentro das propriedades rurais.

Essa integração explica, em parte, o peso econômico do segmento, responsável por cerca de um quinto do Produto Interno Bruto brasileiro e por quase metade das exportações nacionais.

Segundo Plöger, é justamente essa característica que diferencia o Brasil de outros grandes produtores mundiais. A agricultura tropical permite combinar diferentes cadeias produtivas em uma mesma área, com sucessão de culturas, uso crescente de tecnologias digitais e produção simultânea de alimentos, fibras e energia renovável.

“Com três safras, você está num processo just-in-time, semelhante ao da indústria, com alta digitalização”, observou.

Essa diversificação também reforça a posição brasileira no mercado internacional. As projeções conjuntas da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indicam que o Brasil continuará entre os principais fornecedores mundiais de soja, milho, carnes e açúcar ao longo da próxima década, sustentado pela expansão da produtividade e pela disponibilidade de recursos naturais.

Para Plöger, essa liderança não decorre apenas do volume produzido, mas da capacidade de entregar alimentos ao mercado internacional de forma competitiva.

“O Brasil conquistou, nas últimas décadas, uma predominância no fornecimento de proteínas vegetais e animais”, afirmou. “Isso naturalmente incomoda aqueles que dependem de elevados níveis de subvenção para competir.”

A afirmação dialoga com uma realidade observada no comércio agrícola internacional. Enquanto diversas economias desenvolvidas mantêm programas bilionários de apoio aos seus produtores, a competitividade brasileira resulta, principalmente, de ganhos tecnológicos, clima favorável e eficiência produtiva, fatores que ampliaram a presença do país nos mercados globais nas últimas décadas.

Uma estratégia além das eleições

Divulgação/AbagIngo Plöger, presidente da Abag

Embora tenham abordado perspectivas diferentes, os três participantes convergiram em um ponto: a reorganização da economia mundial não deve ser encarada como um episódio passageiro.

Para Braz Baracuhy, a crescente utilização do comércio, da tecnologia e dos investimentos como instrumentos de política externa representa uma mudança estrutural das relações internacionais. Alexandre Parola acrescentou que esse ambiente exigirá dos países um planejamento de longo prazo, capaz de atravessar mudanças de governo e preservar a competitividade nacional.

Na visão de Plöger, o Brasil reúne condições de ocupar uma posição privilegiada nesse novo cenário justamente por combinar atributos que poucos concorrentes conseguem oferecer simultaneamente. Ao lado da produção de alimentos, o país consolidou-se como um dos principais produtores mundiais de biocombustíveis.

Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o Brasil permanece como o segundo maior produtor global de etanol e líder na produção a partir da cana-de-açúcar, demonstrando a capacidade de integrar segurança alimentar e transição energética em um mesmo sistema produtivo.

“Na Europa ainda se discute energia ou alimentos. Nós já ultrapassamos esse conceito”, afirmou Plöger, ao citar a expansão do etanol de milho como exemplo da complementaridade entre diferentes cadeias do agronegócio.

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