A zona de conforto é realmente confortável?

Evitar o crescimento vai contra a nossa natureza de evolução e a sensação de realização que surge após superar um desafio é reconfortante .

Ariane Abdallah
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Zbynek Pospisil/Getty Images
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Desconfortos são pontuais e passam, quando tenho a coragem de fazer o que sei que precisa ser feito. No fim, proporcionam a sensação de recompensa

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“Ao olhar para o abismo do desconhecido, é preciso encará-lo. Logo depois, será necessária coragem para que o salto aconteça.”

Esta frase é da Fátima Zorzato, headhunter de executivos há mais de 25 anos, e o que vem depois do salto, caso haja a coragem necessária para ele acontecer, é o mistério da história de cada um. O que se pode antecipar é que, se aquela for a atitude certa (e entenda-se por certa o que de mais nobre se espera de alguém no papel que você ocupa), haverá muitas horas e muitos dias inteiros bem longe de confortáveis.

Fátima escreveu a frase que usei para abrir este texto em seu livro publicado em abril deste ano: “O que faz a diferença – as características e oportunidades que criam o grande líder” (Portfolio-Penguin). Nele, ela aborda, com profundidade, os elementos, intrínsecos e extrínsecos, que ajudaram empresários, executivos, atletas, cientistas, artistas e outras pessoas a construírem caminhos bem-sucedidos. Para analisar um território tão inexato quanto o dos acontecimentos e escolhas humanas, baseou-se em entrevistas que fez ao longo da carreira e outras realizadas exclusivamente para a pesquisa do livro, além de estudos conduzidos por especialistas em áreas como psicologia, desenvolvimento humano e neurociência. A partir desta leitura, poderíamos nos aprofundar em diversos temas (por exemplo: qual a parte que nos cabe no nosso destino; o que é a espiral positiva; como tomar decisões e lidar com erros), mas hoje escolhi um que está, ao mesmo tempo, no título do livro e em suas entrelinhas: o desconforto – efeito colateral de fazer escolhas que fazem a diferença.

“Eu não estou confortável em fazer isso”, me respondeu uma pessoa da minha equipe, que havia me procurado com uma queixa sobre um cliente. Era algo simples de resolver, uma vez superado o desconforto de ter uma conversa difícil. “Não se trata de estar confortável”, eu disse. “Trata-se de fazer o que deve ser feito”. Na ocasião desse diálogo corriqueiro – já que a rotina de uma empreendedora é basicamente resolver problemas –, fiz um balanço mental rápido. Concluí que boa parte das minhas semanas, às vezes dos meus dias, é fazer coisas desconfortáveis. Mas nem por isso sou menos feliz. Na verdade, acredito que é justamente o contrário.

Desde então, tenho observado este tema pelo filtro da minha própria mente e do comportamento das pessoas com quem me relaciono no dia a dia de trabalho. Como a gente evita o desconforto, na maior parte das vezes sem perceber. A cabeça logo cria uma narrativa que justifica por que devemos fazer o que parece ser o mais fácil, mesmo que no fundo, se ouvirmos a voz da consciência com sinceridade, saibamos o que devíamos de fato fazer, movidos por coragem e disciplina (assuntos que ganharam capítulos inteiros no livro de Fátima).

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É desconfortável discordar em público. É desconfortável ter conversas difíceis. É desconfortável tomar atitudes impopulares. É desconfortável assumir que não sabe, que errou, que errou de novo. É desconfortável realizar uma tarefa difícil, que exige esforço.

Mas aprendi que todos esses desconfortos são pontuais e passam quando tenho a coragem de fazer o que sei que precisa ser feito. No fim, proporcionam a sensação de recompensa. A cada desafio superado, a satisfação é clara e duradoura: sinto-me mais forte, mais autoconfiante e fisicamente mais disposta.

No livro de Fátima não faltam exemplos que ilustram essa lição. Logo nas primeiras páginas, tem a história de Rodrigo Pimentel, ex-capitão do Bope, que atribuiu publicamente à corporação a responsabilidade da morte de uma pessoa inocente. Ao fazer isso, “Pimentel sabia que estava expondo de maneira drástica a reputação da corporação e, ao mesmo tempo, arriscando a própria carreira. Mesmo assim foi em frente, pois estava inconformado e conhecia os bastidores do episódio.”

Um dos exemplos mais marcantes para mim é o da própria Fátima, que depois de vender sua empresa a uma multinacional e se tornar CEO e sócia da companhia no Brasil, decidiu começar tudo de novo, empreendendo a Inwi, sua boutique de executive search. No livro, ela conta a reação de inconformismo de sua mãe ao ouvir que ela havia decidido trocar o certo pelo duvidoso (anotação mental para refletir: existe mesmo algo certo nessa vida?).

“Quando anunciamos uma grande mudança em nossas vidas e a busca de uma nova trajetória, é preciso uma boa dose de coragem para não se abalar e enfrentar a reação da maioria das pessoas a nossa volta”, relata ela. “É andar na contramão da maioria. No entanto, esse salto para o desconhecido aparece em quase todas as histórias bem-sucedidas que conheci. É possível, em algum momento da existência, concluir que ‘não dá mais’. É preciso se mexer, mudar, agir.”

Diversos candidatos que Fátima entrevistou para indicar aos clientes ao longo da carreira contaram para ela sobre situações ou oportunidades que poderiam ter se transformado em momentos de virada em suas vidas. “Poderiam. Eles começam falando algo como ‘e aí, ele me convidou…’ e eu pergunto ‘e você aceitou? você foi?’. Com muita frequência a resposta é ‘não’. ‘Eu decidi continuar no lugar em que estava…’ Nunca saberemos se era melhor ir ou ficar, mas sabemos que não ir, por falta de coragem para tomar a decisão e correr riscos, é algo que fica na memória, principalmente quando a opção não escolhida tem uma boa perspectiva de sucesso. Sobram justificativas para não correr riscos. Muitas vezes, a decisão é delegada a terceiros, ao acaso ou ao universo, e nem sempre gera o resultado esperado.”

A vida é movimento e creio que nada pode ser mais saudável para o ser humano do que buscar o equilíbrio para fluir com esse movimento. O indicador de que uma escolha foi boa e valeu a pena não é o conforto, mas a realização que fica depois que passa aquele desafio. Evitar o crescimento vai contra a nossa natureza de evolução.

Ariane Abdallah é jornalista, autora do livro “De um gole só – a história da Ambev e a criação da maior cervejaria do mundo”, co-organizadora do “Fora da Curva 3 – unicórnios e start-ups de sucesso” e fundadora do Atelier de Conteúdo, empresa especializada na produção de livros, artigos e estudos de cultura organizacional. Praticante de ashtanga vinyasa yoga, considera o autoconhecimento a base do empreendedorismo.

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