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A IA Está Mudando o Que Vale a Pena Ser Construído

Maria Teresa Fornea, diretora-geral da Endeavor Brasil, destaca qual é o caminho mais transformador dessa tecnologia

4 min

O mercado ficou obcecado em tentar prever quais profissões vão desaparecer com a revolução da inteligência artificial, quem será substituído e quantas (poucas) pessoas serão necessárias para operar as empresas do futuro. Mas, apesar de legítimas, está cada vez mais claro que talvez essas perguntas não sejam as mais relevantes para quem quer realmente entender essa transformação.

Essa divergência acontece por causa de um pressuposto silencioso que muitas organizações ainda carregam de que a transformação tecnológica de verdade é algo exclusivo para quem tem um time de engenharia robusto, orçamento alto e anos de planejamento. Por isso, o principal sintoma dessa visão é a adoção da IA como mera ferramenta de produtividade, e não como vetor de reinvenção.

Esse viés foi construído ao longo de muito tempo, já que a relação entre ambição e estrutura sempre foi muito estável: quanto maior o problema, maior era a exigência de gente, capital e coordenação. Esse custo definia o que valia a pena ser construído e o que seria tentado pelo empreendedor. E é exatamente essa equação que sofre maior impacto com a inteligência artificial.

O que muda quando o custo cai

O professor Ethan Mollick chama atenção para um ponto central. O mais relevante não é fazer as mesmas coisas mais rápido, mas conseguir fazer coisas que antes estavam fora de alcance. Capacidades que antes estavam distribuídas entre diferentes funções passam a caber em equipes muito menores.

Quando o custo de resolver um problema cai, não muda apenas quem executa. Muda quais problemas passam a ser viáveis. A fronteira do que vale a pena tentar se expande.

No nosso caso, o movimento ficou visível de dentro. A Endeavor Brasil não é uma empresa de tecnologia, não possui fins lucrativos por natureza, nem volume expressivo de capital para investimento em infraestrutura digital. Durante muito tempo, o que a organização conseguiu fazer com tecnologia era, por definição, mais limitado.

Hoje, olhando para dentro, é possível ver quanto o alcance se expandiu. Quando o time começou a exercitar o que era possível com IA, o que surgiu surpreendeu. Em dois dias de hackathon, soluções funcionando para perfilamento de empreendedores, curadoria de mentores e mapeamento de conexões estratégicas. Iniciativas que antes exigiam semanas de trabalho coordenado entre áreas diferentes.

Se isso é possível para uma organização como a Endeavor, a pergunta que fica é o que está disponível para todo o resto.

A armadilha do caminho mais seguro

A maioria das empresas que está adotando IA comete um erro previsível. Parte do que já faz e pergunta onde a tecnologia pode ajudar. É o caminho mais seguro e também o que mais limita o resultado.

Quando a IA é encaixada no modelo atual, o teto da transformação passa a ser o teto do que a organização já sabia fazer. A tecnologia acelera, mas não muda o destino. O resultado é eficiência, não reinvenção.

O caminho mais transformador exige inverter a lógica. Começar pelo resultado desejado, questionar como ele é entregue hoje e só então redesenhar a solução a partir do que a IA permite fazer melhor. Quando essa ordem muda, o produto final também muda.

Dois trilhos, não um

As organizações que avançam com mais consistência não escolhem entre eficiência e reinvenção. Elas operam em duas frentes ao mesmo tempo. Enquanto uma parte do time melhora o que já existe, outra constrói caminhos novos partindo do zero. Não é uma transição em etapas, é um movimento simultâneo.

A discussão sobre substituição não vai desaparecer. Mas ela ocupa espaço demais e desvia a atenção do que realmente está em jogo.

A pergunta mais relevante não é quem será substituído. É quais problemas deixarão de ser inviáveis.

O acesso mudou. A barreira de entrada caiu de um jeito que ainda estamos assimilando. Julgamento, contexto e execução continuam sendo determinantes, mas o campo do que é possível tentar se ampliou de forma significativa.

No fim, a diferença não estará apenas na tecnologia disponível, mas em quem decide operar com essa nova lógica.

*Por Maria Teresa Fornea, diretora-geral da Endeavor Brasil. Antes, Maria Teresa fundou a Bcredi, fintech de crédito imobiliário adquirida pela Creditas em 2021, onde atuou como vice-presidente até 2024.

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