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IA e o Cenário Otimista para o Brasil

Durante décadas, ser o país das commodities era considerado um insulto. Talvez isso esteja prestes a mudar

4 min

Na próxima década, a inteligência artificial reduzirá o custo da inteligência e a robótica reduzirá o custo do trabalho. Em uma cadeia de valor, quando um elo deixa de ser escasso, o valor econômico migra para os demais elos. Energia elétrica mais barata aumenta a venda de aparelhos de ar-condicionado. Internet mais rápida e barata aumenta o consumo de streaming. Atualmente, o mundo paga caro por inteligência e manufatura. À medida que estes se tornarem mais baratos, ativos físicos escassos ganharão importância relativa.

No mundo dos negócios, existe o conceito de salto tecnológico, quando uma empresa perde uma onda de inovação, mas fica mais apta a pegar a próxima. Isso ocorre porque ela não está distraída com a tecnologia corrente e não tem nada a perder com a nova tecnologia, enquanto concorrentes tentam proteger seus negócios. Países também podem dar saltos tecnológicos. O Brasil não se tornou uma potência industrial e tecnológica, porém está bem posicionado para um mundo em que recursos naturais escassos voltam a se destacar. O país representa 40% da produção mundial de soja, 30% do café, 23% do açúcar, 20% da carne bovina, 18% do minério de ferro, 15% da celulose e 90% do nióbio, além de ocupar posição de destaque em petróleo, milho, algodão, frango e laranja. Poucos países oferecem tantos insumos ao mundo.

Mas ter recursos naturais não é suficiente. Temos razoável segurança jurídica, respeito à propriedade privada e eleições democráticas. A África, por exemplo, tem riqueza natural comparável à do Brasil, mas muitos de seus países não conseguem se organizar para aproveitá-la. A Venezuela jogou tudo fora. A Argentina está voltando do fundo do poço. O Brasil está longe da perfeição, mas temos de manter e valorizar o que está funcionando. Os estrangeiros ainda estão dispostos a investir aqui.

O conceito das vantagens comparativas, de David Ricardo, diz que cada país deve produzir aquilo que faz de melhor em relação aos outros. O Brasil deve produzir commodities pois tem baixo custo, a China deve produzir bens pela sua eficiência, e os Estados Unidos devem produzir tecnologia pela combinação de educação, liberdade individual e mercado de capitais. Entretanto, atualmente está acontecendo o fenômeno da desglobalização pelo temor de conflitos geopolíticos. Cada país busca reduzir a dependência externa, mesmo em detrimento do lucro econômico. No longo prazo isso não é bom para ninguém. Não faz sentido o Brasil produzir carros e a China produzir seu minério, por exemplo. É vantajoso que troquemos nosso minério pelos carros chineses. É bom para nós e para eles.

Temos que reconhecer nossa vocação e nos dedicar a ela. Sempre que possível, devemos agregar valor às commodities antes de exportá-las. Também devemos melhorar a logística de escoamento de nossos produtos: parte do valor da commodity está literalmente ficando pelo caminho. Comparado ao transporte rodoviário, o transporte ferroviário tem um custo 50% inferior, e o hidroviário é ainda mais barato. No futuro, os caminhões autônomos reduzirão a diferença de custo para os trens, pois não têm motorista e rodarão 24 horas por dia. Mesmo assim, temos muito a investir em asfaltamento e sinalização de nossas rodovias. Toda redução no custo logístico torna-se lucro para o produtor.

Talvez mais por sorte do que por juízo, o Brasil está bem posicionado para o futuro. Nossa produção de commodities não será substituída pela IA, nem pela robótica. Pelo contrário, será beneficiada. Para aproveitarmos os ventos favoráveis, temos de preservar a estabilidade institucional e a credibilidade fiscal, investir em infraestrutura e adotar tecnologias que aumentem nossa produtividade. O futuro será muito diferente do passado, e precisamos refletir sobre como cada empresa e país serão impactados.

Foto: divulgaçãoRoberto Walter, sócio da Vokin Investimentos e associado do Instituto de Estudos Empresariais (IEE)

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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