Com o início da COP30 no Brasil, os negociadores concentrarão a atenção em pilares já conhecidos da ação climática: novas e revisadas NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas), financiamento para resiliência e natureza, transformação dos sistemas alimentares e viabilização de uma transição justa.
Mas por trás dessas discussões existe um risco econômico mais profundo: a infraestrutura natural mais importante do mundo está começando a falhar. Essa infraestrutura é o solo que estabiliza os sistemas alimentares e os ecossistemas do leito marinho que sustentam o suprimento de alimentos no mar e regulam o ciclo de carbono dos oceanos.
Durante décadas, esses domínios foram separados entre terra e oceano, agricultura e pesca, economia verde e economia azul. No entanto, eles funcionam como infraestruturas paralelas: cada um armazena carbono, regula água e nutrientes, amortece a volatilidade e sustenta os sistemas alimentares que alimentam o planeta.
O declínio deles deixou de ser apenas uma preocupação ambiental ou climática. Trata-se de um risco macroeconômico e de segurança nacional que atravessa cadeias de suprimentos, preços de alimentos, estabilidade soberana e exposição fiscal.
À medida que esses amortecedores vivos se enfraquecem, os choques que antes absorviam voltam a aparecer em colheitas, produtividade pesqueira, volatilidade de commodities, perdas em seguros e estresse nas finanças públicas.
Se a COP30 pretende definir a próxima era da ação climática global, proteger a infraestrutura natural que sustenta os mercados — em terra e no mar — precisa ser tratado como política econômica central, não como um apêndice ambiental.
Infraestrutura Natural, não Projetos de Engenharia
A adaptação tem sido, há muito tempo, tratada como um desafio de engenharia: muros marítimos mais altos, cultivos resistentes à seca, irrigação mais eficiente. Mas novas descobertas científicas — uma analisando a resiliência do solo em terra, outra examinando a física, a química e a integridade ecológica dos mares de plataforma continental — mostram que a infraestrutura mais crítica que sustenta a segurança alimentar e a estabilidade climática está viva. E, após décadas de exploração sem manutenção, ela começa a falhar.
Esse alerta surge no momento em que cientistas indicam que o mundo provavelmente ultrapassou seu primeiro grande ponto de inflexão climático, com recifes de corais de águas quentes atravessando um limiar do qual talvez nunca se recuperem.
O colapso dos corais não é apenas um evento ecológico: ele desestabiliza a pesca, a proteção costeira, o turismo e o PIB de regiões inteiras. Demonstra como a infraestrutura natural pode mudar abruptamente quando sobrecarregada, com consequências que se propagam pelos mercados.
Solo: o Ativo de Infraestrutura Natural Mais Subestimado do Mundo
O Relatório de Adaptação Save Soil defende que o solo deve ser compreendido não como um recurso, mas como infraestrutura, um sistema operacional da economia que regula água, carbono, nutrientes e estabilidade das colheitas. Seu desempenho depende da matéria orgânica do solo, o componente vivo que forma a estrutura, armazena umidade e sustenta a produtividade.
Praveena Sridhar, assessora-chefe de políticas da Save Soil, chama o solo de “o maior banco de água e cofre de carbono do planeta”, acrescentando: “Ignorá-lo é falhar na própria adaptação climática.” O relatório explica o motivo. Fazendas regenerativas que recompõem a matéria orgânica do solo mantêm até 95% de suas colheitas durante períodos de seca, superando campos convencionais em dois terços. Seus solos armazenam “centenas de milhares de litros extras de água por hectare”, atuando ao mesmo tempo como infraestrutura de controle de enchentes e de resiliência à seca.
Mesmo assim, as políticas públicas ainda tratam o solo como um insumo agrícola consumível, e não como um ativo essencial à segurança nacional. Como observa Sridhar, “Não podemos nos adaptar às mudanças climáticas enquanto ignoramos a base que nos alimenta e protege. O solo não é apenas um insumo agrícola, é uma infraestrutura global e nacional para a sobrevivência.”
As implicações econômicas já são visíveis. A Estratégia Nacional de Adaptação do Canadá identifica a erosão e a perda de fertilidade do solo como ameaças diretas à segurança alimentar, com perdas anuais de produtividade que ultrapassam 3 bilhões de dólares canadenses (cerca de R$ 11,4 bilhões). A seca de 2021 nas pradarias, que reduziu as colheitas em até 40%, ressaltou o papel de amortecimento dos solos saudáveis. Os solos canadenses também armazenam cerca de 150 bilhões de toneladas de carbono, tornando sua conservação uma medida tanto de adaptação quanto de mitigação.
No Reino Unido, 2,4 bilhões de libras esterlinas (cerca de R$ 16,9 bilhões) são gastos anualmente em apoio agrícola. O solo está no centro dos programas ambientais, mas não há metas obrigatórias para sua saúde. Nos Estados Unidos, mais de 200 bilhões de dólares (cerca de R$ 1,13 trilhão) por ano são direcionados à agricultura, enquanto o solo que sustenta a segurança alimentar e climática permanece sem proteção suficiente. Esses não são custos ambientais marginais; são passivos estruturais de infraestrutura.
Para Anand Ethirajalu, diretor do projeto Cauvery Calling, o problema é conceitual. “As pessoas ainda veem o solo como sujeira. Mas o solo é um sistema vivo. Se você não o alimenta, ele morre”, diz. Esse “alimentar” refere-se à recomposição da matéria orgânica, o mesmo processo biológico que dá aos sedimentos do fundo do mar sua capacidade de armazenar carbono. Quando a matéria orgânica do solo diminui, a estrutura enfraquece, as colheitas caem e a dependência de insumos externos aumenta, ampliando tanto a vulnerabilidade econômica quanto a climática.
Como a maior parte da produção mundial de alimentos depende de solos saudáveis, a instabilidade do solo não é uma questão agronômica marginal. Ela molda a inflação, os mercados de trabalho, os saldos comerciais e a estabilidade geopolítica.
A Infraestrutura Natural Marinha Está Sob Pressão
No ambiente marinho, outra parte dessa infraestrutura viva está sob crescente pressão. Os mares de plataforma continental, as águas rasas que fornecem a maior parte dos frutos do mar do mundo, também regulam o clima por meio da bomba de carbono dos mares de plataforma continental, um processo que transfere carbono da atmosfera para o armazenamento no oceano profundo.
Novas análises do Convex Seascape Survey, combinadas com o estudo do professor Jamie Shutler baseado em 20 anos de dados, oferecem algumas das evidências mais fortes até agora sobre o funcionamento e os riscos dessa bomba. O trabalho de Shutler mostra que o oceano continua absorvendo mais carbono à medida que as emissões aumentam, mas alerta que essa absorção acelera a acidificação e impõe mais estresse aos ecossistemas marinhos.
“Embora essa absorção de carbono tenha ajudado até agora a reduzir os impactos climáticos que experimentamos em terra”, disse ele em entrevista, “ela também causa acidificação oceânica, pois o CO₂ dissolvido forma um ácido fraco. Isso não é uma boa notícia para o plâncton, os peixes e os bivalves costeiros, como mexilhões e ostras, já que seus habitats estão encolhendo. Obtemos 95% dos nossos frutos do mar desses mares, portanto, também é uma séria questão de segurança alimentar.”
O professor Callum Roberts, cientista sênior do Convex Seascape Survey, reforçou o ponto ao explicar: “Reduzir as emissões continua sendo a única maneira de manter nossos frutos do mar seguros para as futuras gerações. Sem isso, todos os outros esforços importantes estarão lutando uma batalha perdida.”
Ele descreve as camadas de sedimento do fundo do mar como repositórios finais, capazes de armazenar carbono por séculos se permanecerem intactas. Mas a pesca de arrasto de fundo, ainda amplamente praticada no mundo, destrói essas camadas, liberando o carbono armazenado e eliminando os habitats essenciais para as populações de peixes.
Em entrevista, ele afirmou: “Precisamos dar espaço para que esses sistemas se recuperem. Se não o fizermos, as consequências serão sentidas em todos os lugares.” Os paralelos com o solo são diretos. A perda de matéria orgânica enfraquece a capacidade do solo de armazenar água e carbono; os fundos marinhos perturbados e acidificados perdem sua capacidade de armazenar carbono e sustentar a pesca. Em ambos os casos, a degradação biológica precede a instabilidade econômica.
Integrando a Infraestrutura Natural aos Mercados
Se o solo e os mares de plataforma continental fossem tratados como outras formas de infraestrutura — como redes elétricas, portos ou sistemas de abastecimento de água —, o cenário de políticas e investimentos mudaria rapidamente. Boa parte da orientação já existe.
Os governos já dispõem de diretrizes claras sobre como integrar a infraestrutura natural às decisões econômicas. A Revisão Dasgupta do Reino Unido conclama os ministérios da Fazenda a incorporarem contas de capital natural nos orçamentos, reformarem estruturas de incentivos e tratarem o declínio dos ecossistemas como risco macroeconômico.
O Sistema de Contabilidade Econômico-Ambiental (SEEA) da ONU, agora um padrão estatístico internacional oficial, fornece a metodologia para acompanhar ativos ecossistêmicos, estoques de carbono e degradação nos balanços nacionais. Países que utilizam o SEEA para orientar políticas de uso da terra e da água demonstram como a infraestrutura natural pode ser gerida como outros bens públicos.
Os investidores estão sendo chamados a adotar medidas paralelas. A Força-Tarefa para Divulgações Financeiras Relacionadas à Natureza (TNFD) estabelece um modelo, semelhante ao TCFD, para governança, gestão de riscos e definição de metas em torno dos riscos relacionados à natureza.
Pesquisas de bancos centrais apoiam a relevância financeira dessa mudança: o estudo Indebted to Nature, do Banco Central da Holanda, concluiu que o risco de perda de biodiversidade afeta as carteiras de crédito e deve ser integrado à avaliação de risco dos portfólios. Coalizões de investidores, como os Princípios para o Investimento Responsável (PRI), oferecem orientações operacionais para definir políticas de biodiversidade, expectativas de governança e estratégias de engajamento.
As seguradoras, diretamente expostas à convergência dos riscos climáticos e naturais, seguem na mesma direção. O relatório do Fórum de Seguros Sustentáveis sobre Riscos Relacionados à Natureza no Setor de Seguros recomenda incorporar a dependência de serviços ecossistêmicos à subscrição, às decisões de investimento e às divulgações.
O Instituto Swiss Re quantificou o declínio dos serviços ecossistêmicos como um fator relevante de risco macro e de subscrição, e desenvolveu métodos para integrar a biodiversidade a modelos de risco, alocação de capital e resseguro. O trabalho da OCDE sobre risco climático e seguros demonstra ainda como apoiar soluções baseadas na natureza e oferecer incentivos à redução de risco pode reduzir perdas de longo prazo.
Conjuntamente, essa análise aponta para uma conclusão simples: tratar o solo e o leito marinho como infraestrutura não é um exercício conceitual. É o próximo passo na governança de riscos financeiros e econômicos.
A Infraestrutura Natural Agora é um Imperativo Econômico
Se o século passado definiu infraestrutura como aço, concreto e silício, este deve ampliar a definição para incluir os sistemas vivos que sustentam a economia global. Solos saudáveis e mares de plataforma funcionais não são luxos ambientais. Eles são infraestrutura que regula água, fertilidade, carbono, temperatura e oferta de alimentos.
E, como em qualquer infraestrutura crítica, uma vez que falham, tudo o que foi construído sobre elas se torna instável. O risco negligenciado que agora confronta os mercados globais não é a perda da natureza de forma abstrata, mas o lento desmantelamento da infraestrutura natural da qual as economias modernas silenciosamente dependem.