Setor de tecnologia brasileiro precisa protagonizar a luta antirracista

Mario Duarte/Divulgação
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Liliane Rocha, CEO da consultoria de diversidade Gestão Kairós: empresas de tecnologia precisam combater seus vieses inconscientes

O debate sobre a falta de representatividade de profissionais negros no setor de tecnologia, em particular nas grandes empresas do setor, tem ganhado mais visibilidade nos últimos anos e a produção de ofertas tecnológicas por equipes mais diversas tem se tornado um tópico de discussão mais frequente. Porém, o setor precisa avançar para além do ativismo superficial e entregar melhores resultados na luta antirracista, tanto em mercados mais desenvolvidos quanto no Brasil.

Em 2014, grandes empresas do Vale do Silício começaram a divulgar os recortes demográficos de suas populações e o setor começou a ensaiar um movimento para endereçar o racismo evidente na folha de pagamento. Nos anos que se seguiram, porém, a mudança foi inexpressiva: relatórios de diversidade de grandes empresas como a Google, Microsoft e Apple mostram que a presença de negros no quadro não chega aos dois dígitos e o avanço em 2019 foi de menos de um ponto percentual.

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Entre as diversas razões para a falta de negros no setor de tecnologia nos Estados Unidos, onde fica a sede de muitas destas empresas, está a formação. Somente 6% dos universitários que concluíram cursos nas áreas de ciências, tecnologia, engenharia e matemática (STEM, na sigla em inglês) eram negros, segundo dados da Fundação Nacional de Ciência de 2016. A mesma organização mostra que mulheres negras representaram 33.000 dos formandos de disciplinas STEM, mas, em 2017, somente 5% dos cargos de gestão nessas áreas eram ocupados por mulheres e homens negros.

Mesmo para os poucos negros que chegam a ocupar cargos em setores como tecnologia, os desafios persistem: segundo pesquisa da Pew Research de 2018 com pessoas que trabalham em carreiras de áreas STEM, 60% dos profissionais negros relataram ter sofrido algum tipo de preconceito no emprego. Isso acontece de diversas formas, que vão desde a dificuldade em obter uma promoção e micro-agressões no ambiente de trabalho até falta de apoio de colegas e salários mais baixos do que colegas brancos do mesmo nível hierárquico.

O movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) de 2020 deu novo ímpeto ao combate ao racismo, e empresas de tecnologia têm procurado adotar algum tipo de postura. Entre as iniciativas lideradas por estas companhias, estão doações, apoio às organizações sociais focadas em questões de raça e programas de capacitação para empreendedores negros, e até mesmo a descontinuidade de produtos tecnológicos que podem piorar o racismo estrutural.

Para Liliane Rocha, CEO e fundadora da consultoria de sustentabilidade e diversidade Gestão Kairós, o movimento de posicionamento destas empresas são parte da solução, mas não representam o ponto de partida e nem de chegada para a resolução do racismo no setor de tecnologia. “É preciso ter engajamento real dentro e fora das organizações e não usar o ativismo apenas como vitrine”, diz a especialista, em entrevista à esta coluna.

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Criadora do termo “diversitywashing”, usado para definir empresas que querem criar uma falsa aparência de diversidade sem aplicá-la na prática, Liliane aponta duas frentes que empresas do setor de tecnologia precisam compreender para criar reais resultados. “A atuação deve ocorrer da porta para dentro, com a contratação, retenção e desenvolvimento de funcionários negros, e da porta para fora, atuando em projetos sociais de fortalecimento e focados em pessoas negras, organizações sociais e comunidades periféricas”, aponta.

CENÁRIO BRASIL

No ano passado, a Brasscom – Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação, realizou uma pesquisa sobre formação educacional e empregabilidade em TIC que pode oferecer algumas hipóteses sobre a baixa representatividade de negros no setor de tecnologia brasileiro. “Se eu apontasse as causas poderia estar sendo impreciso”, diz Sergio Paulo Gallindo, presidente da entidade. “Mas, a partir desse levantamento, podemos constatar algumas coisas.”

De acordo com a pesquisa, com base em 2008, 59% do contingente de 845.479 profissionais do setor são de homens e mulheres brancos – 37% e 22%, respectivamente. Já os negros, pardos e indígenas são responsáveis por 30% dessa força de trabalho, sendo 11% mulheres e 19% homens. Considerando que, segundo o IBGE, o Brasil possui 56,10% de pessoas que se declaram negras ou pardas, a desproporção de acesso ao mercado de trabalho por este grupo indica que há muito a ser feito.

Uma das causas desse desequilíbrio, segundo Gallindo, pode estar diretamente relacionada à situação geral de evasão escolar, documentada em outro levantamento da entidade específico sobre educação. Ao fazer o monitoramento das vagas públicas e privadas (presenciais) do setor preenchidas até a conclusão do curso e entrada no mercado de trabalho, a entidade chegou a resultados muito preocupantes. Em 2017, foram efetivadas apenas 32% de matrículas das 381.461 vagas disponíveis nas universidades e escolas técnicas, ou seja, pouco mais de 120 mil alunos. Desse total, 69% desistiram, o que significa que apenas 37.719 se formaram. Desses, apenas 55% chegaram realmente ao mercado de trabalho, ou 20.665 profissionais.

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“O problema começa no interesse do jovem pela tecnologia”, diz Gallindo, explicando que a proporção candidato por vaga é 2 por 1. Só para efeito de comparação, na Fuvest 2020, essa proporção foi de 129,4 candidatos/vaga para a medicina e de 58,6 para relações internacionais, ambos da USP. “Isso significa que, além da dificuldade de manter o aluno ao longo da própria cadeia de formação educacional, também temos problemas para atraí-los. Ou seja, pouca gente entrando nas universidades e muito menos ainda saindo delas.”

Ao analisar essa evasão, diz Gallindo, citando dados do Semesp – Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo, 14% ocorrem na rede pública e 23% na rede privada, só que, nesta segunda categoria, ela explode quando o aluno não tem suporte financeiro de programas como o FIES e Prouni, chegando a 26%. Quando há esse tipo de apoio envolvido, o índice cai para 9,8%, ou seja, abaixo da evasão da rede pública.” Esses dados nos levam a identificar, então, obstáculos socioeconômicos no caminho dos profissionais do setor e, a partir daí, pelo histórico do país, não fica difícil concluir que os negros são, muito provavelmente, os mais impactados nesse cenário.

Para tentar endereçar o tema e mudar esse panorama nos próximos anos, a Brasscom está propondo novas grades curriculares e um novo itinerário formativo já no primeiro ano do ensino médio regular, de modo que qualquer jovem, aos 14 ou 15 anos, na transição, já passe a ter contato com a tecnologia, algo que não acontece nos dias de hoje. “Qualquer pessoa com raciocínio lógico pode trabalhar com tecnologia. E as linguagens de programação são ótimas para isso porque o aluno aprende ali, na prática, para que servem. O reforço positivo é muito rápido e elimina dos jovens aquele sentimento que muitos deles têm de que essa não é uma área de atuação apropriada para eles”, diz Gallindo, esperando com isso resolver o primeiro problema apontado – a falta de interesse. A entidade também está propondo alterações no ensino médio profissionalizante e no superior – tudo para aumentar o aproveitamento e reduzir a desistência.

Já para sanar o problema socioeconômico são necessárias políticas públicas. “O maior inimigo da escola é o emprego prematuro”, diz o especialista. “E essa é a realidade infeliz desse país altamente heterogêneo.” E Gallindo alerta que a pandemia, que paralisou as escolas, deve aumentar o hiato digital entre bancos e negros, uma vez que os filhos da classe média/alta seguem tendo aulas em plataformas digitais, enquanto as classes mais baixas estão tendo dificuldades enormes para acompanhá-las em função de problemas de infraestrutura já amplamente conhecidos, como a falta de conexão.

Amenizar os problemas de atratividade e de falta de condições financeiras vai aumentar o número de pessoas capacitadas, diminuindo atualmente o gap que existe no setor e também a desigualdade em termos sociais e, consequentemente, de raça. Segundo o estudo da Brasscom, a demanda por empregos nas áreas de tecnologia será de 420 mil profissionais no intervalo 2018-2024 – ou 70 mil ao ano. Se nada for feito, haverá uma defasagem de 260 mil profissionais.

VIESES INCONSCIENTES

Para além dos fatores apontados pelo presidente da Brasscom, Liliane Rocha aponta uma razão crucial para o racismo verificado nas folhas de pagamento das companhias do setor de tecnologia. Segundo a especialista, a falta de representatividade da população negra no setor se deve principalmente a vieses inconscientes destes empregadores.

“As pessoas não associam [a falta de negros no setor], particularmente aqui no Brasil, que é um país com um histórico de 388 anos de escravidão contra 132 de abolição, elas ainda têm dificuldade de compreender, entender e valorizar a intelectualidade negra”, ressalta.

E continua: “Quando falamos do mercado de tecnologia, que é reconhecido como um setor altamente intelectualizado, as pessoas não enxergam a população negra nesse mercado de trabalho, não valorizam ou investem nos profissionais negros por conta de seus vieses raciais”.

Segundo Liliane, ao passo em que faltam oportunidades no setor para negros, estes profissionais têm criado suas próprias alternativas. Ela cita o exemplo de Gilson Rodrigues, líder comunitário de Paraisópolis, periferia de São Paulo, que tem criado rotas de inclusão financeira como um cartão para moradores da comunidade e outras formas de viabilizar negócios sociais com a ajuda de tecnologia e inovação.

“Outros empreendedores negros da área de tecnologia também estão se destacando, mas é o que sempre ressalto: por falta de oportunidades dentro das grandes empresas, a única saída para os profissionais negros acaba sendo o empreendedorismo”, ressalta.

O setor de tecnologia é crucial para promover uma sociedade mais inclusiva, diz Liliane, levantando a questão da falta de diversidade em equipes que desenvolvem algoritmos usados em novos produtos e serviços: “Até bem pouco tempo atrás, quando se pesquisava por ‘lésbicas’ em uma famosa rede de buscas, as principais respostas e páginas da internet que surgiam eram sobre pornografia. Também há algum tempo, houve uma polêmica com a busca das palavras ‘jovens negros’ que aparentemente mostrava, como primeira opção, jovens infratores”, aponta.

Segundo Liliane, o mesmo acontece com aplicativos que, teoricamente, teriam uma função de embelezamento. A especialista questiona: “Sempre que eu, mulher negra, coloco a minha foto em um desses aplicativos, o tom da minha pele é clareado, meus traços afrodescendentes são alterados, meu nariz é afinado. Nesses casos, sempre lembro que há um programador por trás desses aplicativos. Mas este programador é homem ou mulher? Negro ou branco? Tem letramento racial?”

Empresas de tecnologia de grande porte e startups de base tecnológica têm a oportunidade de provocar reais mudanças trabalhando com o governo na criação de políticas públicas que incentivem a presença negra na tecnologia, diz Liliane. Segundo a especialista, isso é essencial para que a quarta revolução industrial aconteça de fato no Brasil, com tecnologias como inteligência artificial, impressoras 3D, 5G, nanotecnologia, biotecnologia sendo implementadas de forma inclusiva.

“Caso isso não ocorra, a tecnologia ampliará o abismo de desigualdades existentes no Brasil. Com consciência racial e decisão de ingressar como protagonista na luta antirracismo, as empresas de tecnologia podem acelerar a curva de mudança e contribuir para que, ainda nessa geração, o Brasil seja, verdadeiramente, o país da diversidade.”

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